20100831

Parte VIII - Sou eu, disse a Sereia tirando a peruca

E absolutamente ninguém naquele cabaré foi feliz para sempre.

estudo em azul

além do enjôo fica um buraco e é de lá que o caio grita pedindo algum tipo de socorro, mas o seu grito é sem voz e então ninguém pode ouvir - é incrível como ouviu a renata dizer que ia embora e vomitou tão rápido, mais incrivel ainda que não tenha vomitado e que isso seja pior ainda, estar cheio até o joelho de vômito e ser só uma carcaça que não vaza, inchada, enquanto a renata vai embora, ela sempre cumpre o que promete, sempre faz o que diz, quase um robô, e então já é 1997 e ele ainda ganha pouco, e é hora de ir ao dentista: uma carteirinha de convênio velha, muito velha, já semi-apagada e inválida há meses, um sorriso amarelo, passando a mão na perna na recepcionista por baixo da mesa, talvez um sonho, três dentes a menos e dois a mais, um escultor, um artista, eles conversam sobre a frança, o único país de verdade nesse mundo, dormir e tingir o travesseiro de você mesmo, ser dezesseis anos de novo, ontem, e saber que eu não posso mais você; obviamente ele se filia, portanto, a três ou quatro grupos diferentes - esquerda, cristão, motocross, talvez os concretistas... é o homem perfeito e morre correndo.

20100829

chega a hora de partir


não sem você

Parte VII - Sob o rufar de tambores

O homem parou de falar, mas sustentou um sorriso de expectativa no rosto.
Todas as mesas do bar ficaram em silêncio.
A Sereia terminou sua bebida.
Em algum canto do jardim do cabaré, os sempre bem alimentados vermes sabiam que todas as mazelas humanas decorrem do infinito suspense que criamos em torno das menores pequenezas e das mais infundadas apreensões e que as almas de todas as pessoas são uma só, ligadas pela inevitabilidade do nascimento e da dor e da certeza única da vida que é garantir que eles, os vermes, estejam sempre bem alimentados.
O mundo inteiro esperou.

20100828

Parte VI - O incrível destino da Corja dos Malamados

Tudo corria bem no cabaré e a maior parte do sangue já havia sido limpada, àquela altura. Uma banda tocava em um canto do salão e a Sereia havia dado uma dose grátis de limoncello para as pessoas que haviam se sujado no incidente, então todos estavam mais ou menos bem humorados quando a porta se escancarou.
A Corja dos Malamados entrou em silêncio, deixando o Potro amarrado no estábulo do cabaré. Após alguns instantes de aflição, o líder se dirigiu a todos os presentes, com as seguintes palavras:
“A todos os presentes, dirijo-me com as seguintes palavras: Durante doze meses, nós navegamos em busca do Potro e dAquilo que daria sentido às nossas vidas vazias. Muitos dos nossos morreram pelo caminho, mas nós não desistimos. Nós seguimos adiante.
Nas noites de inverno, as águas do rio lançaram o frio e o sereno para dentro da carne e nossos ossos trincaram e se partiram, nossos corações pararam de bater e encolheram até ficarem do tamanho de nozes. Nas noites de verão, o ar era tão úmido e abafado que nossas narinas se transformaram em guelras e nossos olhos se liquifizeram, mas nós não desistimos. Nós seguimos adiante.
Como vocês podem ver, nosso esforço deu resultado e hoje temos o Potro em nosso domínio. Mas não foi só isso. Durante os doze meses de buscas, nós seguimos também o rastro de um homem que nos traiu e nos abandonou, um homem que tínhamos como nosso irmão e mestre, que nos ensinou tudo o que sabemos e que nos liderou quando pensávamos estar perdidos, mas que saltou de nosso convés um dia e nunca mais voltou.
Na perseguição, fomos levados aos quatro cantos do mundo, nossa canoa enfrentando redemoinhos e quedas d’água cuja mera lembrança ainda nos aterroriza mesmo após tanto tempo. Mas nós conhecíamos os caminhos do rio e o canto das águas. Seguimos na busca por longos anos, até que chegamos a um ponto em que nenhum homem jamais havia pisado, e podíamos ter certeza disso porque o sentíamos em nossos corações. E foi nesse local que três pássaros vieram até nós e nos disseram com seus cantos líricos que havíamos encontrado mais que o Potro e que podíamos nos redimir de nossos pecados e de nossos crimes e trazer alegria aos povos e paz aos espíritos. Eles nos mostraram o caminho para o reino do Outro Lado e nos deram tanto ouro quanto pudemos carregar, e explicaram que tudo o que precisávamos para cumprir nosso Destino era encontrar aquele que havia se separado de nós e perdoá-lo de tudo. Nós soubemos que ele havia vindo para cá e agora demandamos que esse homem se revele para que possamos celebrar."

20100827

o tempo passa, o tempo voa...


e só o gato continua
numa boa.

Parte V - Diálogo

Sem dizer nada, Sereia sacou seu facão e furou a garganta do sujeito.

20100826

diálogos (masc)

eu não te amo mais disse ele com um esgar de pânico
eu não te amo mais disse ele enquanto o meteoro se espatifava
eu não te amo mais disse ele mentindo descaradamente
eu não te amo mais disse ele enquanto gozava
eu não te amo mais disse ele alexandre o grande percebendo-se viado
eu não te amo mais disse ele uma duas três mil vezes diante do espelho
eu não te amo mais disse ele fade to black palmas
eu não te amo mais disse ele para o povo que o havia carregado ao poder
eu não te amo mais disse ele o homem mais bonito do mundo
eu não te amo mais disse ele como quem pergunta que horas são
eu não te amo mais disse ele todos os dias do ano como um ritual
eu não te amo mais disse ele ela concordou
eu não te amo mais disse ele eu nunca te amei na verdade
eu não te amo mais disse ele passa a mão pelo cabelo indeciso
eu não te amo mais disse ele sem saber se era verdade
eu não te amo mais disse ele sem dizer.

Parte IV – Por que você está sozinho aqui?, perguntou Sereia para o desconhecido, sentando-se em frente a ele e sinalizando para que um atendente lhe trouxesse licor


“É uma história longa, se você quiser ouvir. Eu saí de casa quando meu pai desapareceu, anos atrás (eu não conheci minha mãe, porque ela morreu uma semana antes de eu nascer). Foi o verão mais quente de que eu consigo me lembrar e toda a plantação secou e minha irmã estava chorando muito, porque ela tinha uma doença grave. Então eu deixei ela na frente da igreja da minha vila, juntei algumas coisas e peguei a estrada.
Eu andei durante cento e oitenta e sete dias e cinco noites, sem parar para comer e sem água para beber, até que três pássaros me apareceram em um sonho e disseram que eu encontraria meu Destino no topo da colina das três árvores, desde que chegasse lá em menos de quarenta e oito horas.
Com a velocidade que eu adquiri por ter sido criado por uma manada de gnus, eu venci os três mil quilômetros da subida dentro do prazo e, arfando, descobri lá em cima o esconderijo da temível Corja dos Malamados. Cansado e surpreso, eu fui facilmente rendido pelos malfeitores que, armados até os dentes, me jogaram em uma catacumba escura. A julgar pelo crescimento de minha barba, eu fiquei preso por três dias, quando, enfim, um deles apareceu e me fez uma proposta: ou eu me juntaria a eles na busca pelo Potro ou eles me matariam ali mesmo, a mordidas.
Sem alternativa, ajudei-os a construir um barco com gravetos recolhidos do bosque aos pés da colina. A construção levou três semanas e ao fim desse tempo, despedimo-nos de nossas esposas e partimos.
O Potro, como você sabe, é animal arisco que detesta água. Assim, por mais que navegássemos, não o conseguimos encontrar. Cogitamos a hipótese de atracar às margens do rio e continuarmos a busca em terra firme, mas isso nos pareceu um terrível desperdício de todo o esforço despendido na construção da embarcação, de forma que seguimos navegando. A fome e o escorbuto já haviam dizimado boa parte de nossa tripulação quando eu, em um momento de insônia, saí para o cais sob o sol forte do meio dia e vi uma figura humana desenhada em meio à névoa.
A figura se virou em minha direção e disse em tom pesado: I am thy father's spirit. Doom'd for a certain term to walk the night. Eu, que não entendo inglês, devo ter sido enfeitiçado por aquelas palavras e, ainda sem saber o que fazia, me atirei do convés. Eu podia ouvir os Malamados gritando juras de que me encontrariam para cobrar minha dívida de sangue, mas corri para as margens do rio e adentrei a escuridão.
Desde então, vivo entre dois mundos, aquele das coisas táteis e o dos espíritos. Neste, meu pai me visita com frequência, me oferece a mão e guia-me pela escuridão em direção a lugares ainda mais horríveis do que os em que eu antes estava e então me abandona à minha própria sorte; naquele, é a Corja quem vem e me decepa membros com suas lâminas afiadas e me força a correr para salvar-me. Minha redenção, porém, ocorre todas as noites, quando, cansado e assombrado pelo medo e a solidão, eu me deparo com a entrada desta vila e com a visão do cabaré como um lugar em que eu posso entrar, demorar e pedir uma cerveja.”

20100825

Na Câmara Federal, uma longa discussão

O sr. Eloy Chaves - Devia e era conveniente que no momento (o requerimento) fosse rejeitado.
O sr. Adolfo Bergamini - Como o foi.
O sr. Raul de Faria - Inconveniente por quê?
O sr. Eloy Chaves - (...) porque toda e qualquer discussão perturbaria os acontecimentos.
O sr. Adolfo Bergamini - Ora, essa! Então o estudo em torno da moléstia prejudica o doente?
O sr. Carvalhal Pinto - A exploração prejudicaria.
O sr. Hugo Napoleão - 3.005!
O sr. Adolfo Bergamini - De modo que só os benefícios são particulares de São Paulo e os malefícios são gerais, do resto do país.
O sr. Eloy Chaves - Os benefícios não são só de São Paulo, mas do Brasil inteiro.
O sr. Raul de Faria - Os sacrifícios são da nação inteira.
O sr. Adolfo Bergamini - Foi o preço eleitoral do café, fixado pela política paulista, que determinou esse fracasso, esse erro, pelo qual estão pagando quarenta milhões de brasileiros.
O sr. Eloy Chaves - Pagando em quê? No beiço?
O sr. Adolfo Bergamini - Não, na algibeira.
O sr. Eloy Chaves - Só o povo de São Paulo tem suportado o sacrifício.
O sr. Adolfo Bergamini - Não apoiado; são quarenta milhões de almas que sofrem os desmandos políticos de uma oligarquia nefasta.
O sr. Presidente - Atenção! Peço aos nobres deputados que permitam ao orador prosseguir em suas considerações.
O sr. Manoel Villaboim - A prosperidade de São Paulo é que dói aos apartistas...
O sr. Adolfo Bergamini - A prosperidade de São Paulo causa orgulho a todos nós...
O sr. Eloy Chaves - Mas não parece, às vezes.
O sr. Bergamini - ... como causará a do Amazonas, a de Minas ou a de qualquer outro Estado, porque todos somos brasileiros. Por isso mesmo é que dóem, nos acabrunham, os inconvenientes e malefícios decorrentes de uma política que se acha em contradição com o sentimento nacional.
O sr. Eloy Chaves - Essa política é a de V. Excia., não a de São Paulo, que trabalha e produz.
O sr. Bergamini - É a de São Paulo, que trabalha e produz, mas tem em seu seio uma oligarquia que contraria os sentimentos dos próprios paulistas.
O sr. Joviniano de Castro - V. Excia. é apaixonado (Soam os tímpanos).
O sr. Presidente - Atenção! Está com a palavra o sr. José Bonifácio.
O sr. Villaboim - Se há essa oligarquia, ela é constituída por verdadeiros brasileiros amantes de sua pátria.
O sr. Raul de Faria - A verdade é que todos os Estados trabalham e produzem, na medida de suas forças.
O sr. Cardoso sde Almeida - São Paulo sacrifica-se em benefício de todos os outros Estados. (Não apoiados veementes da minoria; o sr. Presidente pede atenção.) Tem contraído todos os empréstimos com sacrifício, ao passo que Minas nada faz na defesa do café.
O sr. Raul de Faria - Não apoiado. As sugestões de Minas não foram sequer consideradas para adotar-se política errônea.
O sr. Américo Barreto - Minas não faz o menor sacrifício. (Continua a troca de apartes, estabelecendo-se o tumulto. O sr. Presidente faz soar os tímpanos, pedindo reiteradamente atenção.)

diálogos (fem)

a decisão inadiável de uma mãe
- conjura um ensopado -
:
revelar ou não a seu filho
sua natureza
não-ortodoxa
de demônio.

jovens somos todos jovens
(pré-discurso ensaiado)
com nossa cota de erros
cada um com sua caixinha
uma festa, uma noite, um drinque
o romance
de uma moça de penteados.
a cama com dossel
devastada
pelo primo de um colega
e turbilhão.

ele sorri
não esfinge mas
político de cera
elaflita
aguarda
- vou pro inferno!
- cuspo fogo!
- me mato agora!
- me batizo!
- sem ritual!
e ele só
abraça
perdoa
tem alma
que bom
graçazadeus.

Parte III - A História de Sirena

Ele entrou cambaleante e sentou. Levou cinco minutos para pedir uma cerveja e depois deu uma olhada em volta, checando o ambiente. Todos os dias, sempre havia muita gente entrando no bar e fazendo aquilo, mas o caso dele era diferente, porque ele fazia aquilo todos os dias. Se ele fosse da cidade, isso nem seria tão estranho, mas a verdade é que ninguém nunca via ele por ali, exceto quando anoitecia e ele entrava no bar para demorar, pedir uma cerveja e olhar em volta. Um dia, Sereia não aguentou e foi falar com ele.
Sereia era um exemplo de ascensão social. Ela começou a trabalhar no cabaré aos doze anos, cantando no salão enquanto sua irmã tocava. Conforme seu corpo cresceu, aumentaram as pressões para que ela mudasse o ramo de atuação, especialmente quando um homem a puxou pelo braço, jogou no chão e posicionou ajoelhada de frente para seu pau. Ele enfiou aquele pedaço de carne na boca dela, puxou-a pelos cabelos e berrou de dor enquanto ela limpava o sangue dos lábios.
Naquela noite, as pessoas quebraram cadeiras e bateram nas outras mulheres e Sereia apanhou com a chibata até desmaiar. Quando acordou, ela ficou imóvel de dor, mas não parou de pensar um segundo.
Depois, Sereia sumiu por um ano. Algumas pessoas que passavam pela estrada diziam que a haviam visto e comido em troca de centavos, mas ninguém discutiu esse assunto quando ela voltou um dia em um vestido vermelho, mais linda que o mundo.
Ela entrou no cabaré, pediu uma cerveja e um queijo e, quando este chegou, ela cortou dois pedaços com o mesmo facão que depois usou para matar o antigo gigolô. Foi uma cena horrível porque a faca não era muito afiada e alguns pedaços caíram dentro da cerveja dos clientes, mas ninguém se opôs a que ela tomasse conta do lugar dali em diante. Depois disso, os preços não aumentaram e a comida ficou muito melhor, de forma que o estabelecimento não se abalou com a perda do antigo proprietário.
E Sereia sempre ficava ali, apoiada no balcão e parecendo apenas mais uma das garotas do local, com a diferença que ela era mais linda que o mundo e que ninguém chegava perto para perguntar o preço com exceção de estrangeiros desavisados que voltavam para suas terras com as mãos nas bolas e um sorriso menos exuberante. Mas naquele dia ela não aguentou e foi falar com ele.

20100824

Part II - Enchanting Old River

when we get up and laugh (we feel the laughing)
in our arms which burn your faces (no color)
we dare to let light in our eyes (red)
cause we remember our places (of love)
fasting traitorous bruna (hiding them girls)
hiding voices (hideously sweet)
from deep gris (loud and pouch)
and peters inputting (mad turtle pain)
but we get up and laugh (our arms in vain)
ending black should'er divide (one flower)
then we keep laughing (pair impaired)
chez le Vieu Rieu (whenever it flows)

Parte I – O Canto da Travessia do Rio Velho

Quando erguemos os remos e sentimos o rio
Em nossos braços que ardem e rostos sem cor
E ousamos deixar a luz em nosso olho arredio
É que nos lembramos de vossos cantos de amor
Que afastam a traiçoeira bruma que esconde as moças
A ocultar em suas vozes tão doces o horror
Das profundezas cinzentas do lodo e das poças
E das pedras que impõem ao casco bravo sua dor
Mas ergamos nossos remos e braços ao ar!
E nas trevas umbrosas divisei uma flor
Então nós seguimos remando de par em par
Acompanhando o Rio Velho vá ele onde for.

20100822

Como não escrever roteiros II

EXT. SÓTÃO SEM TETO - DIA

Um verde. Curva difícil. Hadouken. E todos sorriram ao fundo.


Jorge
Eu sempre te disse
pra usar o Dalsin.


Vida plena. Ar puro entrando. A bota vermelha de Jéssica brilhava.

Jéssica
Eu uso a Chun-Li, mas
não sou feminista, não.
É empatia mesmo.


E vinte anos depois o pai de Jorge retorna. Lágrimas. Brilho. K.O.


20100821

Urra!
















Karatê Kid - A hora da verdade

Como não escrever roteiros I


Há algum tempo JOÃOZINHO estava tendo problemas com seu computador pessoal. Levara ao assistente técnico, e também o assistente fora até ele. Era a "ventoinha". Era sempre a ventoinha. Mas nem por isso Joãozinho sabia arrumar por conta própria, pois de fato sua responsabilidade e alcance individual eram limitados.

Semanas após o diagnóstico, computacional e pessoal, Joãozinho decidira que não seria vencido tão facilmente e por isso resolveu dificultar as coisas.

.

20100818

Sobre a existência de vampiros

Antes de dizer qualquer coisa, quero adiantar que este texto não é mais um ataque à saga Crepúsculo (ou, pelo menos, não é só isso) e que eu acho que tudo de que o mundo não precisa é de mais gente engrossando a pseudo-braveza de Felipe Netos e afins. Dito isto, quero deixar claro que eu fico profundamente irritado quando alguém diz que tudo bem um vampiro brilhar no sol, sob a desculpa de que isso ocorre em uma obra de ficção. Esse tipo de raciocínio é terrivelmente falho simplesmente porque parte da falsa premissa de que vampiros não existem.
Agora, se tudo estiver certo, alguém deverá estar pensando que eu sou um idiota que acredita que o Edward está arrasando corações em algum lugar desse mundo grande sem porteira. Bem, embora eu não possa argumentar muito contra esta tese, não é, definitivamente, este o meu ponto aqui. O meu ponto é que um vampiro existe tanto quanto um ser humano, ou, para usar um exemplo que deixe mais claro, um pássaro.
Eu poderia apostar sem muito medo de errar que você é plenamente capaz de entender o que eu quero dizer quando eu uso a palavra “pássaro” e, no entanto, você nunca viu um pássaro na vida. Agora já começa a ser menos improvável que você entenda que, apesar de já ter visto centenas de pássaros na vida (presumivelmente), o que você viu foram diferentes espécimes de bem-te-vis, beija-flores, sabiás etc. Um pássaro, enquanto arquétipo, não existe na natureza.
Clareando: um pássaro — e, já que estamos nisso, um humano e um vampiro e uma casa e etc — é um modelo, quando o que existem são indivíduos. Todo mundo sabe o que é uma pessoa e, no entando, cada pessoa é diferente. A mesma coisa vale para a ficção. Um vampiro, enquanto arquétipo, é tão existente quanto qualquer outro modelo. Eles são sombrios, se alimentam de sangue, não têm reflexo e não, eles não brilham no sol. Qualquer um que seja questionado saberá responder o que é um vampiro e, em uma pesquisa do tipo, as definições dadas serão essencialmente as mesmas, o que prova que existe, sim, uma consciência, ainda que vaga, quanto ao que um vampiro é ou deveria ser.
Claro que o vampiro que aterroriza a Turma da Mônica em um dos meus desenhos favoritos da infância é diferente dos que eu mato como Belmont e do que eu li em Stoker, mas todos eles guardam suficientes semelhanças para serem percebidos como correspondentes a um mesmo modelo. E que fique claro: dizer isso não significa que os vampiros da saga Crepúsculo não o sejam. Na verdade, eu não sei.
Só sei que “vampiros não existem” é o pior argumento possível para justificar seja qual for a invencionice que se pretenda defender.

20100817

Cada salto é uma pirâmide humana.

— Você pode começar me dizendo por que está aqui?
— Eu quero entrar na Indústria.

***

— Tem alguma coisa que você não tope fazer?
— Ahn... Eu acho que não.
— Você engole?
— Por que não? Sim, não tem problema!
— E... anal?
— ... Sim, eu gosto.
— E não tem problema com outras mulheres?
— Não, mas não tenho muita experiência.

***

— Você sabe que eu estou gravando isso aqui... Você sabe pra quê?
— Pra saber como eu fico na tela.
— É. Na verdade, é pro pessoal de Los Angeles, da Europa, os peixes grandes da indústria. Essas fitas vão longe, sabe?
— Sei.

***

— Você precisa... chupar meu pinto. Tem algum problema com isso?
— Se eu tivesse, não tinha a menor chance, né?
— É.

***

Lígia chegou em casa, ligou a tevê, jogou-se no sofá e ficou pensando se aquilo fora de verdade; isto é: certamente acontecera, mas talvez... aquele homem talvez estivesse mentindo para ela. Provavelmente. Foda-se, daqui pra frente não existe mais lá atrás.

***

Porra, que gosto de pinto.

bem no fim, a Alemanha pode ser explicada assim:

20100810

Um perigo à moral

Art. 405 – (...)

§ 3º Considera-se prejudicial à moralidade do menor o trabalho: 

a) prestado de qualquer modo, em teatros de revista, cinemas, buates, cassinos, cabarés, dancings e estabelecimentos análogos; 

b) em emprêsas circenses, em funções de acróbata, saltimbanco, ginasta e outras semelhantes; 

c) de produção, composição, entrega ou venda de escritos, impressos, cartazes, desenhos, gravuras, pinturas, emblemas, imagens e quaisquer outros objetos que possam, a juízo da autoridade competente, prejudicar sua formação moral; 

d) consistente na venda, a varejo, de bebidas alcoólicas.

20100807

Kissogram - Grass Grass Grass!


Kissogram - Grass Grass Grass (unofficial) from Ricardo Miyada on Vimeo.
My little hommage to kissogram. This was a unique shot, no rehearsal.



There are times when spontaneity means shit.

Vão se foder

os pessimistas
porque existe música
e música boa, sempre
e vão se foder os que nos maldizem
e falam que não prestamos, porque
existe poesia, de todo tipo e sempre
e vai se foder até o Crumb
porque existe até o Crumb
e a literatura pra gente falar mal, sempre.

There's nothing you can say
that can't be sung.

um segundo tarde demais

e ele já não é
capaz de se defender
do gato.

20100803

Cupér

and so "y" is the most important for a place,
the pace of the walk which has then become a grey
and belly-flopping-50-year-old journey to
get rid of fat the quickly as then it can.

il-y-a but (af
ter joe, the belly-bearer got through the street
marching on sneakers and Ipod)
and i saw and heard the so-said
[eeee ] "y"

which was not what I
thought it should give me
(not the place, or the grammar-bid
understanding
nor the russian prep
for 'having')

il-y-a...?

"yail" came to me better for the ear
as clever as university,
but that would not make it clear
for then for her for that it had
not a meaning.
and i looked into her eyes
when there was not another Joe with sneakers
nor a Tobey running on sweaters

and Jeanette french-smiled-sadness
to me
for there was,
but something else as hard as
" c'est une fosse...
ma vie"
and further I just did not translate and just smiled-joker
with a floppy-poppy hooray-for-the-grey as
andrew decided to stay there in the road
checking the heartbeats in stopwatch

as she 'zhtonbrass' and sad raineyed action
there was not a fraction
of something i could make as
different as enchanting song française
and the sneakers of
le coq sportif got into it
got into it the motion
with no care for the heureussong
I was on and

zut, got on my nike and went for Louisiana.

Algumas coisas que foram registradas

A rua e os prédios conjugam-se ao céu, como que formando uma massa de tons cinzentos. O ar é úmido e o clima, frio. Eis uma teoria que me ocorreu agora: o frio guarda uma maior sensação de… realidade. Acredito nessa tese! Ainda sim… Rousseau dizia que o calor é que era o clima que despertava o amor entre os homens; o frio gerava a força, a compaixão por necessidade. Mas, bem, ele mesmo dizia amar a humanidade, um homem de regiões frias! Eis todo o absurdo dessa teoria.

Caminho na rua como uma máquina: autômato, à parte a “realidade exterior”, mas imerso em um grau maior de realidade, subjetivo. Uma criança metida num gorrinho marrom, e um agasalho, fita o nada segurada pelos braços da mãe. Quanta verdade nesse olhar! Nem que quiséssemos, nós, homens feitos, poderíamos ensinar algo a ela. O contrário: ela é que poderia nos ensinar… tudo! A verdade só existe numa criança, depois tratamos de corrompê-la. Mas ela passa, tudo passa na rua, são imagens… Imagens que se insinuam na minha memória como uma marca de carimbo com pouca tinta. Ali dois lixeiros nas roupas laranja-fosforescente tiram folhas do chão; ali uma mulher sorri a um homem que passa, sorrindo de volta; todos passam, caminhando reto para algum lugar que ignoro.

Ah!, se me fosse dado agora abarcar a humanidade toda num gesto! Seria um abraço comovido, com a pureza e as lágrimas sinceras de uma criança!

Da arte do constrangimento, uma história verídica:

"Ou
xo te falar um bagulho
conversa entre eu e minha mãe hoje no almoço:

"Igor, quem é fininho?" 
"hm?"

"fininho, é seu amigo?"

 "Hm... acho que não, por que?"
"é que tava escrito na lousinha de sinuca, no sítio: kiko s2 fininho..."

As faces tornam-se vermelhas. A prova material, com complementos:

20100802

Cinocéfalo Solitário

Porra na cara de novo

Um dono e seu cão

* estica seu braço e agarra as bochechas de # com a mão. # beija seus dedos, sua palma, se aninha com carinho na mão pequena de *. * é sério e olha de longe. Ele gosta de ter o controle, de dizer quando é hora de ser adorado e obedecido e quando não. * se sente bem como homem; amanhã, quem sabe, ele passe a ser mais carinhoso. Mas # não se importa; ela ama *.





O Povo é Somente Carne




MALHAÇÃO ID:Entidade.

"O que eu mais gostei dessa história foi que aproxima um tanto dos animés", diz Tatiana Bureau, 23, a Flora da novelinha. "Lembro do meu irmão vendo Dragonball Z, GT, PQP...[risos]".
Não é o que pensam os espectadores. De modo algum. A eles, não apetece.
Eles não gostam mais. "Eu não gosto mais", comprovamos com Juan.


Eles ELES

Estão VÃO

Infelizes TOMAR

ASRUAS.



abaixo, flashes da audiência:



20100801

prólogo, um homem que via longe

Os pais dele não tinham sobrenomes, ninguém sabia por que, eram só Maria e João¹, de modo que, quando ele nasceu, puderam ser artistas absolutos sem nenhum veto, e então ele se chamava Rafael Saudade.

Cresceu sem ficção e se tornou um jovem rapaz de olhos opacos e grande alcance vocal, sem que isso, de maneira alguma, lhe inclinasse a qualquer predisposição melódica. Ficou órfão aos 22 anos, já trabalhando, já encaminhado, e então enlouqueceu.

De início, acreditava ser jesus cristo. Não uma reencarnação², mas o único e verdadeiro - o messias judeu, também chamado jesus(yeshua). Ele, que nunca tinha nem mesmo se interessado pelo judaísmo e suas místicas, se viu lambuzado em uma teia inexplicável de rashis de olhos saltados, sua neshama em chamas, sem ahava. Os amigos achavam ser apenas mais um caso de intoxicação midiática (a Kbalah, etc) quando, de um salto, curou-se e passou, imediatamente, (não antes de ter construído um templo em seu quintal, rebatizado de Yerusalehm) a viver apenas em dias primos, contados a partir do calendário gregoriano, a partir da criação (laica) do universo.

Desapareceu, portanto, por um tanto (informações incompletas), até ressurgir completamente normal.

Tinha se tornado o homem mais normal e sensato do universo conhecido, o que o tornava completamente louco e inapto para o conluio em sociedade.

Todas as atitudes insanas de seus coabitantes destruíam sua paz interior incessantemente, todas as inconstâncias e absurdices que tornavam a vida de todos razoáveis, divertidas e bem-temperadas se tornaram um peso em demasia insuportável para os pobres ombros de Rafael e então ele tornou a enlouquecer.

Dessa vez, acreditou poder ser feliz, e casou-se com uma fulana. Fugiu de qualquer que fosse seu trabalho³ e foi morar no campo, onde abriu uma fazenda que ele arava com prazer todos os dias. Arou por vários anos até que aconteceu o que todos sabemos.

Por favor nos ajudem a procurá-lo.




1. nomes ficcionais
2. aqui é usado um termo incorreto, pois para os cristãos jesuscristo apenas "voltará", sem o uso dos grandes tubos ectoplasmático-temporais que caracterizam a reencarnação kardecistespírita - ele foi, ele volta, simples assim.
3. alguns o situam como auxiliar da área de discos da saraiva megastore shopping iguatemi nessa época, mas carece de fontes.