Mostrando postagens com marcador ruim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ruim. Mostrar todas as postagens

20131018

se a vida fosse assim tão complicada...

a porta tava aberta. bom, muito bom, porque eu tinha esquecido a chave e se tivesse fechada eu taria totalmente, com todo perdão, fodido. não tava não, tava destrancada e que bom que eu tinha também esquecido de trancar, se bem que se eu tivesse lembrado eu não teria esquecido a chave, acho, uma coisa levaria a outra, trancar, levar. mas poderia ter esquecido na fechadura e isso ia ser pior ainda do que ter esquecido no quarto em cima da tevê porque qualquer um podia ter entrado em casa e roubado, por exemplo, a tevê, então que bom que a porta ficou destrancada. se bem que alguém pode ter entrado em casa e roubado a tevê e até roubado minha chave, assim, com a porta destrancada, ela podia até ter trancado a porta e eu ficaria do lado de fora, preso, e aí seria a tragédia cem por cento trágica, eu ia ficar preso do lado de fora e lá dentro eu não teria minha tevê, que pelo menos seria inútil enquanto eu ficasse do lado de fora. eu teria que esperar fora sem nem assistir tevê, mas no fim das contas seria melhor, porque eu ia saber que lá dentro não ia ser muito melhor, nem tevê teria. teria cama, ninguém nunca rouba cama, a não ser que destruíssem o colchão procurando a chave, mas a chave ia tá em cima da tevê, então o colchão taria lá, pra mim, eu ia ficar deitado sem fazer nada. isso só depois de ter arranjado um jeito de abrir a porta, provavelmente precisaria ligar prum chaveiro e ele ia gostar, porque os chaveiros gostam quando as pessoas ficam fora de casa. eles gostam de tudo que pode dar dinheiro pra eles, são gente perigosa, os chaveiros, eles podem entrar em qualquer lugar. até num lugar trancado, com o tempo e a ferramenta eles entram mesmo. e aí não ia fazer diferença nenhuma se eu tinha trancado a porta ou não, e aí o chaveiro não ia ligar pra minha chave em cima da tevê, talvez até ignorasse a tevê toda. não, nesse caso ele também ia levar a tevê, mesmo ela sendo velha e de tubo, isso porque chaveiro gosta desse tipo de coisa, de coisa velha, mecânica, com uma pegada rústica. com a pegada de um chaveiro qualquer fechadura cede, mas eles precisam de grafite e não tem grafite na fechadura e ela tava aberta. claro que tava aberta, ele já tava lá dentro, provavelmente a tevê ainda tava lá, com minha chave, pelo tempo que eu levei com certeza ele ainda tá lá dentro, a não ser que eu tenha esquecido a porta destrancada, nesse caso ele pode ter fugido rápido. não é fácil fugir com uma tevê de tubo, essa é uma das vantagens dela, ela é pesada e desajeitada, mas essas novas bem grandonas são piores ainda de carregar e quebram muito fácil no transporte, então ele ia levar mais tempo ainda. minha tevê de tubo facilitaria a fuga dele, mas não vai ter fuga nenhuma, porque ele ainda tá dentro e se tem uma coisa que eu nunca vou esquecer é de quebrar a cara dele.

20130910

burrice fundamental

tenho criado novas senhas ultimamente, senhas para um novo tempo e para novos cadastros; tento me organizar mentalmente com elas, esquecer totalmente as senhas antigas e adotar um padrão claro e lógico que me permita variá-las de acordo com as necessidades de cada website sem nunca me esquecer delas.

algo como matar e exilar todos os titãs, reforma total no panteão.

mas é inútil.
a todo momento, as senhas adolescentes surgem como num refluxo cripto-mental, "ah! esse site é muito besta, vou colocar o nome deste ou daquele pokémon e pronto".
de tempos em tempos isso me leva a um infernal caminhar para trás tentando todas as minhas senhas de vida, desde as mais recentes, passando pelas intermediárias (frutos da mesma aleatoriedade de minha juventude) e chafurdando em memórias de senhas ainda mais primitivas. em vão.

nos últimos dias, realizei uma imensa variedade de protocolos de recuperação de senhas - que na maior parte dos casos gerava uma senha totalmente desconhecida e inapreensível, que eu fatalmente esqueceria de trocar e me levaria a reviver toda minha retrospectiva-críptica mais uma vez dali a tantos dias. os hexadecimais, me diriam mais tarde, eram o segredo para essas tais senhas automatizadas, mas eu nunca os entendi.

fato é que nunca fui bom com números. acredito que meu problema com a matemática seja antes de mais nada um problema de vocação linguística - é como decorar uns tantos caracteres de árabe e dali ter que tatear por todo um alcorão de fórmulas. talvez seja minha falha em seguir um tal "pensamento matemático" que tanto me diziam no colégio.

lembro-me que, no primário, na hora de realizar operações mais extensas (na verdade grandes seqüências de operações simples), o único jeito que eu conseguia manter minha atenção focada naquela miríade de números era construindo personagens simplórios e encaixando-os no avançar do exercício (o 2 era irmão da 3, ambos primos do 4 que competia com o 6 pelo coração da 5, e assim por diante); os cálculos eram uma mediação quase esotérica de como cada história iria terminar, a tela da calculadora em nada diferia de uma bola de cristal esfumaçada.

minha vida adulta não corrigiu essa falha. sempre que passo os olhos por uma frase ou que alguém começa a me contar algo com qualquer tipo de número no meio da informação ("tantas pessoas", ou "daqui a tantos dias", "precisamos de tantos centímetros de algo") meu primeiro instinto é ignorar totalmente o numeral e me concentrar na informação dada pelas letras. quando vejo que aquele detalhe era importante, volto os olhos ou pergunto novamente - por repetidas vezes, em certas ocasiões. também me considero incapaz de fazer contas de divisão com números de mais de um algarismo.

não digo que seja exclusivamente por isso, mas não posso deixar de negar que minha aversão à fotografia profissional sempre esteve ligada à minha incapacidade de lidar com números.

algo que se pode chamar de minha burrice fundamental.



20130513

rapas|rapoza


ela é a Raposa, você não
ela vai embora
ela te sorri sorrateira no assoalho

você, não.




a Raposa te mordeu? te tirou algum sangue?
um ninho nas tripas, um ninho nas tripas
e ela nunca vai sair de você, rapaz.
































*

20130208

"prendam-me, por favor! já não posso mais!!"

dirigia pra casa numa madrugada qualquer quando me botei a pensar (eu tinha assistido recentemente a um filme que falava de freud e coisas do tipo, e estava um pouco confuso) me botei a pensar que a gente, ou pelo menos eu, raramente sinto que eu posso algo; o sentimento só existe quando eu não posso fazer alguma coisa - por incapacidade física, ou força das circunstâncias.

tenho a mais absoluta certeza que isso é um fato já conhecido e exaustivamente estudado por uma miríade de senhores e senhoras muito mais competentes do que eu, de forma que não quero aqui me colocar como um grande sábio nem nada do tipo...

mas passei a pensar, por exemplo, a respeito do modo como eu dirijo: completamente repreensível, ainda mais de madrugada, ainda mais quando sob força de pressões das mais variadas formas (o tempo, um compromisso, o sono, etc. etc.) e em como eu quase nunca sou parado nas ruas. eu, rapaz de figura quase decente, acima de tudo branco e guiando aquele carro japonês. me ocorreu então o óbvio, que eu posso mais do que outras pessoas, em outras circunstâncias (e, evidentemente, não posso tanto quanto outras, em circunstâncias ainda diferentes das duas primeiras).

isso me pareceu errado, absurdamente errado.
a minha formação de caráter (caractere, character, charque) se dá, acima de tudo, por um constante tatear de limites, do espaço estreito entre poder e não poder.

essa desigualdade [social, que se reflete] no campo das escolhas e das possibilidades gera inúmeras aberrações de personalidade (caráter) na sociedade; tanto o excesso de poderes quanto o excesso de não poderes deforma o cidadão.

e isso é (também) violência.
violência pra caralho, quando você para pra pensar.

.
.
.

então eu decidi abandonar minha vida, queimar meus pertences e rumar sem nome.
a partir de hoje, vou me dedicar a caçar todas as Aberrações que eu encontrar pela frente.

porque nenhum homiciodiozinho pode ser comparável a tamanha violência...
né?

20130119

explicações desnecessárias

algumas vezes me sinto (como qualquer um de nós, acredito) muito distante do mundo real, o tridimensional completamente renderizado e cheio de sensações e tal.

daí eu saio com alguma desculpa, tomar um mate quente, ou acender um cigarro, ou qualquer coisa do tipo; só pra que eu possa andar um pouco e me forçar a ficar parado, olhando pro céu ou pro mato ou o gato cheirando o mato e olhando pro céu, coisas assim. nada punhético, por favor não me entendam mal!


é só isso, mesmo.



20121128

lóbulos tímidos


   Gritaram comigo com tanta força e com uma vontade tão violenta que os lóbulos das minhas orelhas se enrolaram e, sozinhos, taparam meus ouvidos.
   - Mais forte -, eu pedi.
    Dessa vez, os olhinhos se espremeram tanto no rosto dela que eu achei engraçado e rompi no riso. E meu riso ressoou mais que o grito.
   - É injusto!
   Cada narina inchou bastante. No urro seguinte, só consegui prestar atenção nelas.
   Mais um e senti que a garganta começava a rachar. Coisas ruins poderiam acontecer.
  No que veio depois, meus lóbulos, sozinhos, escorregaram para fora dos ouvidos e ficaram pendurados como de costume, e eu senti uma dor. Mais um, e dor ainda mais aguda.
   Os olhinhos meus dessa vez, dolorida, devem ter sido tão engraçados que desenrolaram nela uma risadona que foi mais forte do que qualquer grito e eu, apesar da dor, quis rir também.
   - Desculpe, terei que rir...
   - Tudo bem.
   E então fomos embora, gargalhando.
   



20121028

um sitio, um filme [chamando todos os trouxas]

mas pq fazer um filme? mas se temos os meios, ou pelo menos os ondes, entao que filme fazer?
fato é: temos um sítio, um casal (olha o minoteurio aí!!), as chuvas de verão;

cai uma arvore na estrada, a incomunicabilidade do MATO, como proceder?
daí o que acontece?

minotauro vs anticristo, anticristo vs estetica-da-bala-de-alcaçuz, bala vs bola vs botão
5 vs um

onde está o humor?

enfim, sei lá, fiquei pensando nisso enquanto a familia se divertia no churrasco.




20120712

mensagem de apoio ao novo gênero: tokusatsu cristão


Não há cura para as chagas do Jesus Robô. Instigado por seus fiéis, ele caminhou por toda a Síria, por meio Líbano e além, chegando até o norte do Mediterrâneo. Mas não encontrou nada que estancasse seu óleo.

Jesus Robô, diante de um pôr-do-sol agradável,  tira seu capacete e cofia a barba. “Que belo presente, Papai!” Mas ele não se demora. Há muito o que fazer. Para apaziguar a dor, só lhe resta partir para mais um combate contra os Flibusteiros Filisteus.


20120530

Quando eu era pequeno

Eu queria ser modelo
Mas acabei modelado
Pelos clichês
Da arte
De denúncia
Metalinguística
Autocrítica
Irônica
Espertinha
Vazia
Terminada em uma bela chave de ouro

20110420

Fantasmas [um texto político, prostituído, linguicenchido e nãoescolhido]

Eu já nem sei quanto tempo faz que eu percebi que sou diferente. Que eu não vejo as coisas e as pessoas do mesmo jeito que meus amigos, ou do jeito que a maioria das pessoas parece achar que eu deveria ver. Um dia eu devo ter acordado e entendido que eu tinha que fazer alguma coisa.
Desde então, eu caço fantasmas.

***

Não é tão ruim assim. Tecnicamente, eles não podem fazer nada contra você, já que não têm um corpo físico, não têm massa, não têm armas. Grosso modo, eles não podem te machucar.
Mesmo assim, eles estão sempre lá. Às vezes, no meio de um jantar em um restaurante, eu os vejo num canto, olhando sem saber se eu sei o que eles são. Às vezes eles fingem que não me viram, fingem que eu não tenho nada com eles, quando eu cruzo com eles em um parque. Nessas horas, eu preciso pedir licença para a pessoa que está comigo, deixar os talheres sobre o guardanapo ou no canto do prato, tomar mais um gole de uísque e caminhar até eles para golpeá-los com toda a boa vontade de que eu disponha.
Eu tenho algumas armas, também, claro. Álcool, em geral, mas também um cigarro fumado devagar, minha música favorita etc. Coisas assim. Eles detestam essas armas e é só usá-las direito para vê-los desmanchando e virando fumaça até sumir. Até que, é claro, um dia estarei em um restaurante ou parque ou teatro e eles virão de novo, se juntando em algum canto, se movendo como as sombras que são e esperando a hora certa pra nos apunhalar.

***

Eu comecei a levar o negócio a sério um dia, voltando pra casa. Eu saía do trabalho às 18h e voltava a pé; era um percurso de vinte e poucos minutos no máximo. Nesse dia, quando eu passei por um trecho mais escuro, eu vi uma menina vindo e uns três ou quatro fantasmas atrás dela. Eram vultos enormes, horríveis. Na hora, eu sabia exatamente o que tinha que fazer e fiz: apertei o passo e voltei logo pra casa, o coração acelerado, o suor correndo frio.
Então eu deitei na minha cama, esperei minha respiração voltar ao normal e percebi que eu queria voltar lá. Eu levantei, lavei o rosto, respirei fundo e fui.
Quando eu cheguei, não encontrei ninguém. A rua estava ainda mais escura porque alguma nuvem devia ter coberto a lua, ou porque algum vizinho devia ter apagado a luz que brilhava pela janela, mas fosse qual fosse a razão, eu não conseguia enxergar qualquer coisa a mais de quatro ou cinco metros de distância e aquilo me apavorou. Eu me arrependi de ter ido, olha só, me arrependi de verdade de ter feito algo de que eu queria me orgulhar muito.
Então eles surgiram. Milhares deles, acho. Eu nunca havia visto tantos. Eles pularam em cima de mim, esconderam toda a luz, me encheram de um medo absurdo. Eu não sei direito o que achei que fosse me acontecer, porque era um medo meio irracional, era como o medo de uma montanha-russa que sabemos ser segura ou como, sei lá, como se apaixonar.
Eu fechei os olhos, me encolhi, gritei com todo o meu fôlego e então ela veio, a mesma menina de antes. Do meio dos fantasmas, do meio do escuro do meu mundo ela veio e me puxou e a gente correu pra sempre, pra longe dali, pra um lugar qualquer com luz e que pra mim foi o lugar mais lindo do mundo.
Foi nesse dia que eu a conheci e que eu decidi que aquilo era o que eu ia fazer pra sempre: andar do lado dela fosse como fosse, caçando fantasmas.

***

A reação inicial não foi das melhores. As pessoas não aceitaram bem, no começo. Pensando bem, não aceitaram bem até agora. Meus pais, minha família próxima, os amigos mais chegados, esses não tiveram muito o que fazer além dos esperneios que lhes são habituais e, seja por boa vontade ou cansaço, acabaram entendendo.
Depois de um primeiro momento é até possível que tenham achado bom que eu tenha me encontrado, assim. Mas os outros, esses que são mais distantes e que menos deveriam se intrometer na minha vida, bem, são esses os que mais se chocam, os que me olham como se a alguma aberração da natureza ou como se eu portasse alguma insanidade incurável.
E eu até entendo, um pouco. Não gosto, mas entendo. Não deve ser fácil, afinal, para uma pessoa qualquer na farmácia ou em um órgão do governo me passar um formulário qualquer para preencher e ver lá, entre meus dados, a declaração escrita e inegável do completo absurdo, do impossível, do imoral: atividade profissional: caça de fantasmas. Paciência. É quem eu sou. É o que eu sou.
Também é óbvio que não faltaram as conversas pretensamente sérias, as orientações supostamente visantes ao meu bem. Não é uma vida fácil, eles diziam e era óbvio, você vai ter que lidar com a rejeição dos outros, com as dificuldades extras, com o preconceito.
Diziam e diziam por bem, claro; diziam com intenções boas, mas isso lá é coisa que se diga? Como se caçar fantasmas fosse algo assim que se possa abandonar a gosto, como se eu fosse chegar pra ela, a companheira que eu escolhi e fosse dizer é só você, agora, eu não gosto mais dessa coisa, desse negócio de caçar fantasmas. Não ia, claro.
Ou podia ser ainda pior e talvez eu dissesse, talvez eu abandonasse mesmo minha arte escolhida (melhor dizendo: minha arte e minha escolhida) e aí me parece que tudo seria ainda pior, que o ressentimento seria infinito, a culpa mútua e o constrangimento, também. Então, não disse nada, apenas sorri aos avisos todos, disse que agradecia as dicas, mas que agora precisava pegar minhas armas, meu maço de cigarros, minhas citações favoritas do Neruda e sair para a noite, que é onde os fantasmas vivem melhor.

***

Na nossa primeira noite fora, resolvemos começar nosso trabalho em um bar que ela conhecia. Era um lugar com fama de ser supostamente apreciado por outros como nós, mas isso não pesou demais na decisão, tendo contado mais que os coquetéis fossem bons e os preços razoáveis.
Logo depois de nos encontrarmos à porta e já enquanto nos apertávamos entre todas as outras pessoas dali, à procura de algum lugar onde sentar, eu percebi que havia uma quantidade imensa, absurda, impossível de fantasmas espalhados entre as mesas, sobre o balcão. Mais, certamente mais do que os que eu vira naquela outra noite, no escuro, e de algum jeito, eu sabia que era porque eu estava ali, porque eu estava ali com ela.
Pedimos margaritas, canapés, tudo que podíamos pra espantá-los, mas eles se juntavam de novo, se faziam lembrar. É curioso, porque quando eu explico para as pessoas, elas costumam fazer associações erradas sobre tudo isso.
Talvez seja por causa das menções ao álcool, às músicas, não sei; sei que tem gente com a tendência a achar que os fantasmas aparecem quando estamos tristes ou com medo ou sozinhos ou vulneráveis. Que fogem da alegria acéfala, da entorpecência, da irresponsabilidade ou da ausência de compromisso. Existe mesmo quem acredite que os da nossa estirpe, porque lutam contra fantasmas, sejam mais promíscuos, menos virtuosos, até, por louco que pareça, instáveis emocionalmente.
Não é, óbvio, o que acontece, como espero que esse episódio demonstre.
Estávamos, disse, num bar e nos divertíamos e eu ria com sinceridade, pois me encontrava então tão feliz quanto jamais estive. Eu havia acabado de tomar uma das decisões mais importantes e mais fáceis da minha vida, que era fazer aquilo que era meu desejo óbvio.
Não havia medo, indecisão, solidão ou vulnerabilidade que pudesse justificar aquela concentração desconcertante de fantasmas. Pelo contrário, eu poderia facilmente entregar minha vida em prol daquilo tudo que eu havia escolhido e não me custaria fazê-lo. E por certo, não havia infelicidade alguma, também.
E se assim era, por que vinham?
Vinham pelo mesmo motivo por que vêm os predadores todos: vinham porque percebiam em mim uma fraqueza que me fazia de presa.
A gente enfraquece, às vezes, ainda que estejamos felizes, ainda que saibamos estar no caminho certo. Talvez, mas isso é só uma tese, seja até mais fácil enfraquecer nesses momentos, pois são neles que temos mais a perder. E os fantasmas sabem disso. Por isso é que se juntavam no bar à nossa volta, ligando pouco para as outras pessoas (incluindo outros tantos caçadores que certamente os viam, também) ali presentes, cercando-nos, chegando cada vez mais perto. Uma hora, não restava outra coisa que pudéssemos fazer e portanto atacamos.
A luta durou, não sei, meses. Em alguns momentos, parecia que tínhamos tudo sobre controle, recorríamos com facilidade a alguma máxima piegas dessas que nos chegam por e-mail ou a alguma nova comédia romântica que estreasse em nossos cinemas. Em outros, nossos recursos pareciam escassos, nossos inimigos numerosos demais, nossa resolução infundada.
Por fim, quando finalmente tivemos decretada a vitória (e era uma vitória temporária, é claro, como bem sabíamos), havíamos perdido peso, o sono, saúde. Mas era difícil se importar com isso ou com qualquer outra coisa — com os que olhavam, com os que faziam questão de não olhar, com tudo o que falavam e todos os preconceitos do mundo foram sumindo com os fantasmas enquanto estávamos ali e o mundo girava ou era ela ou eu ou nós e já não importava mais quando finalmente nos beijamos.

***

E a gente saía todas as noites. Íamos pelas ruas cantando, bebendo, nos tocando e fingindo que era sem querer. Pode-se dizer que era uma vida dura a nossa, tendo que conciliar nossas manhãs escuras com nossas madrugadas em claro, mas a verdade mesmo é que não queríamos nada que não fosse aquilo.
Nos dias – nos anos – que se seguiram, nós arriscamos nossas vidas incontáveis vezes, quando os vultos negríssimos dos fantasmas de nossa cidade nos rodeavam. Talvez uma afirmação dessas soe incoerente com meu comentário anterior de que os fantasmas, por não terem existência corpórea, não poderiam nos machucar. Não podem, mesmo, fisicamente. No entanto, eles podem destruir nossas certezas; se deixássemos, podiam destruir uma vida inteira.
Por isso que a gente caça.
Não é só pelo fato de termos a habilidade de vê-los. Se fosse, podíamos simplesmente evitá-los, com mais facilidade, inclusive, do que os evitam as demais pessoas. Caçar é uma coisa totalmente diferente, porque define-se justamente pela busca, pela perseguição, pela postura ativa de aproximação. Caçar é sair conscientemente da nossa relativa tranqüilidade, é procurar problema. É admitir que dói e não querer que pare.

***

A maioria das pessoas é igualmente atormentada por esses espíritos ruins, mas a facilidade da rotina, das atividades cotidianas, esses analgésicos todos da contemporaneidade parecem fazer com que ignorem ou finjam ignorar os episódios desses encontros. Mas existem outros como nós, que, por escolha ou falta dela, assumem suas visões e não têm vergonha de valerem-se das armas que tiverem à mão (os filmes mais chulos, as memórias mais distantes, os pássaros mais coloridos) e de usarem-nas para espantar como podem os fantasmas que virem pelo caminho.
Como nós, eles devem saber que às vezes é difícil cantar no escuro. Se assim for, então nessas horas eles provavelmente também questionam suas decisões e pensam infinitamente que teria sido muito mais fácil, muito mais incrivelmente inteligente se tivessem simplesmente seguido em suas vidas caminhos menos inversos às marés e às correntezas. Teria, talvez, sido muito mais racional.
E seria tão simples, reconhecido o engano, voltar atrás! As portas das casas estariam abertas, é claro. Mas eles não voltam, como nós não voltávamos de nossas excursões noturnas pelas ruas escuras do centro de São Paulo.
Não importava quantas vezes eu ou ela caíssemos de surpresa no escuro sem fim de ataques inimigos, sempre voltávamos sob maior influência da euforia do resgate do que do horror das horas sem luz. E o resgate vinha sempre.
Nenhuma vez que ela tenha sido pega por fantasmas eu deixei de estender a mão, sempre levando alguma inspiração qualquer que a tirasse dali. Mesmo quando meus meios eram falhos (ela não fumava, afinal, não gostava exatamente das mesmas bandas e das mesmas citações do Bandeira que eu), algo sempre dava certo, de um jeito ou de outro. E nenhuma vez que eu tenha caído e chorado e querido morrer ela deixou de se oferecer, também, trazendo tudo o que tinha e que era tudo.
No fim, caçar fantasmas era nosso próprio analgésico, acho. Nosso próprio entorpecente. Quanto mais improvável parecesse ser a fuga de uma emboscada, mais críamos que alguma coisa nos tiraria de lá. Que alguém nos tiraria de lá.
No fundo, se nem todo mundo percebe, é porque nem todo mundo se prontifica à caça de assombrações. Porque no final das contas, o que importava não era nem o álcool, nem o fumo, nem os decibéis, mas a gente, ali. Podiam vir as dores que viéssem, nós não nos abalaríamos; cem vezes nos fosse dada a opção de fugir, sem vezes resistiríamos. Essa é a coisa mais importante na vida, não é? A vontade de se machucar por alguém. Que mais importa além disso?
E não, também, sermos homens ou sermos mulheres. Somos humanos e é por isso e é só isso.

20110115

resposta viscosa a ricardo: um péssimo começo (mas estou de férias, ainda)

Ele cai no chão e olha pra cima e não acredita – não na dor, porque a dor não se deixa negar, mas sim no que ela significa. A dor, o soco invisível no nariz, o chão embaixo dele, tudo isso podia fazer sentido, mesmo que não fizesse muito. Mas aí tinha os dedinhos e a mão, o braço saindo até o cotovelo e se agarrando no seu rosto, nos galhos das árvores, se puxando (bebê-parteira) pra fora do seu ouvido. Caiu no sono porque era tudo o que podia fazer, as forças sem força nem pra cair.
O dia seguinte foi estranho, sol, mato, mas tudo não passou de um sonho, um mal súbito (ah!, claro, os chocolatinhos mentolados no café, aquilo não podia fazer bem!, ou o chope com fanta, quem sabe) e toda a questão foi ralo abaixo no seu banheiro de luxuosos 2m². Ajeitou uma roupa qualquer no corpo e saiu empurrado por uma agonia que não queria deixar de passar – fome ou ressaca, mas de quê?.
Verde, apressou o passo, verde, verde, verde, correu, verde, vermelho e vermelho e uma combe, uma moto, três carros, um ônibus (verde, mas escuro). A faixa lhe encarou tipo “qualé”, a rua vazia rugiu e ele sabia que não tinha problema, o silêncio de domingo, uma corridinha e ele estava quase lá, claro, e foi andando e estaria lá, não fosse aquele som horrível, mugido-buzina e cheiro de pneu queimando.
Dobrou a esquina com raiva, criança terrível tentando lhe arrancar o couro, isso não!, e foi jogá-la contra o poste ou o muro ou o ponto infinito entre o vácuo e o cosmo centrípeto de uma curva exageradamente rápida, mas ela se agarrou e balançou e quase lhe cravou um espinho nas costas antes da árvore abraçar e jogar o corpinho bem-exercitado longe no espaço, sobre as pedras e o asfalto e o poste, poste, poste, faixa-faixa-faixa-faixa-faaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaixa...
Blam!: ela veio voando e ele não conseguiu nem terminar o primeiro passo na primeira das faixas de pedestres. Um abraço instantâneo e aí rolar no chão ouvindo um grito de pneus e o motor rugindo selvagem pra longe dali. Ela desacordou em cima dele, logo dele, e ele caiu no chão e olhou pra ela e não acreditou em nada daquilo, naquela mão.
Acordou, acordou?, incrível, não se quebrou ao meio nem nada, quem é?, quem é o qual. Foram pra fora buscar a fresca.
Coalhada, sério?
Sério, você nunca comeu?
Não desse jeito, não. Mas, enfim, é a vida, e vocês todos ainda fumam, assim?
Embaixo da ponte, ela mordia o sanduíche, ele enrolava um cigarro e ria dizendo que não, era mania, selou na língua olhando pro rosto sujo de uma coisa que não era bem lama nem sangue. Você saiu do meu ouvido?
Sim, claro.
E isso, é... ?
Lambeu o rosto com o dedo e olhou: óleo, do Monstro.
O carro?
Não!, o Touro.

20101225

Manhã de Natal

Fui dormir espremido entre uma crise de bronquite e uma barriga cheia demais de comes-e-bebes natalícios. Com a digestão comprometida pela falta de ar, meus amiguinhos tiveram que vir em meu auxílio, os sempre-nobres Beroteque e Atrovente. Caí no sono, enfim.
Fui abduzido por alienígenas que me transformaram em um desenho sem cores, congelado no desespero de olhar o mapa que me mostravam, dizendo onde estávamos, para onde estávamos indo (seu planeta) e de onde estávamos vindo (minha casa): o caminho que minha raça teria que percorrer para me resgatar, diziam. Enquanto isso, eles preenchiam minha cara com traços fortes de lápis-de-cor, laranja para a pele e azul nos vincos ao redor dos olhos para representar minha angústia (algo razoavelmente parecido, no fim das contas, com aquele álbum do Crimson King, só que um bocado mais rústico). Era impossível voltar, porque eu e minha raça não tínhamos a Compreensão: das coisas, dos lugares, do espaço. A Compreensão era só deles, prova disso era que nosso GoogleMaps ainda mostrava o território brasileiro como ele sempre fora, quando na realidade, no GoogleMaps DELES, Pernambuco estava preso em um oceano estranho ao lado de uma ilha cor-de-rosa - seu planeta (leur planète). Saí em busca de ajuda pela nave labiríntica, enquanto os alienígenas se riam de mim, de minha incapacidade congênita, meu desespero. Mas eu encontrei, filhosdasputas, eu encontrei!! Aquela garrafinha abaloada com o líquido que me traria a Compreensão! Esfreguei um pouco dele, como fosse uma colônia, na minha testa e na minha nuca. Fui, como se diz, Iluminado. Passei a Compreender, e dizia com grande propriedade, <<todas as coisas são todas as coisas, e todas as coisas não são coisa nenhuma!>>, enquanto eles, malditos despressurizados, me diziam para parar com aquele fingimento, aquela pseudo-iluminação de banca de jornal, aforismo patético, etc.etc., mas eu fui até o computador e VI, num fléche de luz e o mapa era um zoom infinito que ia e voltava e não seguia pra parte alguma, um aproximar e re-aproximar da pequena ilha cor-de-rosa mas cada vez de uma maneira diferente. Eu quebrei as regras, eu me livrei, eu tinha a Compreensão de que não significava nada eu estar aqui ou ali ou no fundo do espaço indo pruma ilha cor-de-rosa transformado em desenho, eu era e estava (i was) o que/onde/quando eu quisesse. E assim dei por mim com a garrafinha abaloada ensinando aos outros, amigos meus ou coisa assim, a como passar o líquido, como ter a Compreensão.
Acordei com a bexiga explodindo de tanto mijo e só me dei conta que já eram onze da manhã quando comecei a escrever aqui, nessa ilha cor-de-rosa.

20101019

Literatura Publicista

Dois pequenos-bois encontravam-se atónitos. À frente deles (na hierarquia, porque no carro era de trás que estralava o chicote) estava um senhor admirável que já há algum tempo cuidava de imaginar ser possível plantar algo bom, mas se via sem perspectivas e com os dois tocava para a rodovia. Ao menos seu filho continuava na chaloça pra ver se surgiam uns brotinhos, hêm. E, bem, cansados demais para andar ou não, lá iam os pequenos-bois em frente balangueando com músicas na cabeça.



O que estava mais à esquerda já parara de ruminar o último matinho que arrancara do campo há um tempo, mas ainda guardava ali entre os dentes tudo que seu maior companheiro do passado – também boi, mas já aposentando-se com honras - lhe dera: um broto especial, que todos queriam saborear e que ele havia sido bom o bastante para guardar para o momento em que pudesse dividir com todos.

Olhava para frente quando dava e o sol estava deixando ele vermelho, mas não ligava, porque pelo menos o mantinha acordado. A despeito de tudo, ele ainda tem mais fôlego do que seu companheiro, que já se anuncia mais velho...também, pudera, era um boi que circulara mais por essas fazendas ditas importantes. Havia sido de outros donos, de outros tempos, já fora até mesmo garanhão e até mesmo se achava meio pastor às vezes. Mas dessa vez estava uns dois passos atrás e até um pouco amarelado de sabe-se lá o que. Bolsas fundas lá nos olhos dele.

Uns passarinhos bicudos ora pousavam nele, ora se rebuliçavam por cima e davam umas mordiscadas, mas... ele não parecia se incomodar muito, não. Resmungava, fingia que não estavam lá, mas era quase que necessário. “Coitados, veja só o sol. Pelo menos assim têm companhia de alguém maior...”

“Hêm. Boi é tudo igual. Boi é tudo igual”, resmungava o senhor que bem ou mal tinha lá o freio e o chicote nas mãos.


E enquanto passavam e passavam devagar, os dois bois sentiam que não agüentariam. Bem, um deles teria que permanecer para carregá-lo...o outro, que se esfalfe, que não vai ter jeito. O sol cada vez mais forte....e eis que um dos dois, que infelizmente não pude ver pois na hora fiquei de ponta-cabeça e perdi as noções de direita e esquerda, se desprendeu, foi chicoteado pelo dono por isso e ainda se espreguiçando e mugindo meio fraco caiu na beira da estrada. O dono e o boi ainda atrelado olharam por alguns instantes, mas tem-se que prosseguir e tiveram que deixá-lo lá mesmo.

O boi caído continuava achando que poderia voltar, mas...que baita sol e que tristeza de se ter solto, que grande vergonha. Cedo ou tarde iria acontecer, mas...nunca se sabia quando e ele muito menos, todos diziam que ele agüentaria certeiro até o fim, mesmo quando duvidavam de sua capacidade no começo...

Ele respirou fundo, levantou o pescoço e deu uma olhada em volta para ver se encontrava alguém, e ei-lá que viu um espantalho mirrado, mirrado, mas de porte ainda sisudo que o encarava de longe. O sol devia fazer mal igual pros dois, ele pensou, que não tinham nada ali.
O boi conseguiu se arrastar até o espantalho, que meio antipático ou não era a única companhia no momento. Ele levantou o que conseguiu do pescoço e esperou o espantalho se manifestar. Ele se virou ali, mostrou ao boi que os dois tostariam, mas...arre, que dali a alguns anos tudo aconteceria de novo. O boi caiu morto.

O espantalho suspirou e...ainda encontrando ânimo, disse:



- Viva o Brasil!

História sem glória

Ninguém se lembra de Eomar Riss. Ninguém esperou por ele no cais. Ficou lá ele e ninguém mais. Ninguém quis pegar-lhe as malas, levar-lhe às salas, ouvir-lhe as máguas - e foram tantas águas, enchentes e serpentes, tanto rio que ele cruzou e quando o navio aportou (no cais), ficou lá ele e ninguém mais. Nem os jovens (porque viris) que vinham, quase servis, prestar às madames de lis serviços em troca de gis... Nem eles, que vis!, lembraram-se de Eomar Riss. Não lhe ofereceram os braços pobres para, em troca duns cobres, fazerem-se nobres, levarem-lhe os coldres, as malas e roupas e chamarem-lhe jovem.

O velho, que era, sequer ficou à espera, tomou logo a bagagem e sem titubeagem, seguiu pela trilha que levava pra vila. Era um caminho comprido e seu corpo torcido não aguentou sem gemido o exercício exigido. Teve que parar. Arfar. E então, ali mesmo na estrada, envolto de mata, de meio de nada, sem ter caduceu, Eomar Riss, sem mais nem menos, morreu.

Era primavera e há algo de triste na morte de um homem que sequer existe, mas podia existir, como tantos -- que vivem suas vidas de guerreiros ou santos e ganham as lutas ou choram os prantos e morrem depois, sozinhos nuns cantos.