Mostrando postagens com marcador casal. Mostrar todas as postagens
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20131018
20120611
20110513
ensaio para festa
isto é:
Anna Vah,
casal,
ciao miao,
diálogo,
fetiches,
fotografia,
H.Chiurciu,
Potiguary
20110206
Anna&Poti
isto é:
alegria canina,
Anna Vah,
casal,
cocota,
dístico,
fotografia,
H.Chiurciu,
máscara,
peitinhos,
Potiguary,
tristeza felina
20101201
20100802
Um dono e seu cão
* estica seu braço e agarra as bochechas de # com a mão. # beija seus dedos, sua palma, se aninha com carinho na mão pequena de *. * é sério e olha de longe. Ele gosta de ter o controle, de dizer quando é hora de ser adorado e obedecido e quando não. * se sente bem como homem; amanhã, quem sabe, ele passe a ser mais carinhoso. Mas # não se importa; ela ama *.

20100502
Agee - "O que poderia ter dado na telha"
Dois meeiros: vestem macacões surrados e camisas de algodão branco. Ambos têm menos de quarenta anos:
Old McKernel: 32, chapéu largo.
Buddy Horace: 36, bigode juvenil.
Eles dividem um quarto de uma casa.
A casa fica em uma cidade.
Na verdade, deixaram de ser meeiros, mas mantém o costume.
Tradicionalmente se vestem assim.
Não plantam nada: recebem dinheiro para compras em supermercados quase diariamente.
Dinheiro é entregue pelo correio.
Com eles vive um homem de cinqüenta anos.
Ele trabalha em uma tabacaria.
Especialista em charutos.
Old McKernel sabe plantar folhas de tabaco como ninguém, mas o solo do quintal mostra-se progressivamente mais infrutífero.
Buddy Horace pratica pandeiro.
Quem cozinha para os dois é “Phud”, o tabaqueiro.
Ele é o dono da casa. Suas roupas são mais modernas do que se esperaria de um homem de cinqüenta anos.
Que trabalha em uma tabacaria.
Sua filha, Georgette, mudou-se para Buenos Aires há pouco tempo: não conheceu ainda os meeiros.
Na verdade, quem mais interage com os dois é o irmão de “Phud”, Don, de 65 anos. Ele é professor de artes.
Uma questão atormenta Buddy Horace profundamente: ele não gosta de Old McKernel, que teria desvirginado sua esposa uma semana antes do casamento.
O casamento foi anulado, e Buddy Horace ficou muito triste.
Buddy Horace empurra Old McKernel para o meio da rua num dia desses.
McKernel, obviamente, não morre nem nada: um carro vinha mas desviou.
Quem mais se emputece é o motorista.
Old McKernel: 32, chapéu largo.
Buddy Horace: 36, bigode juvenil.
Eles dividem um quarto de uma casa.
A casa fica em uma cidade.
Na verdade, deixaram de ser meeiros, mas mantém o costume.
Tradicionalmente se vestem assim.
Não plantam nada: recebem dinheiro para compras em supermercados quase diariamente.
Dinheiro é entregue pelo correio.
Com eles vive um homem de cinqüenta anos.
Ele trabalha em uma tabacaria.
Especialista em charutos.
Old McKernel sabe plantar folhas de tabaco como ninguém, mas o solo do quintal mostra-se progressivamente mais infrutífero.
Buddy Horace pratica pandeiro.
Quem cozinha para os dois é “Phud”, o tabaqueiro.
Ele é o dono da casa. Suas roupas são mais modernas do que se esperaria de um homem de cinqüenta anos.
Que trabalha em uma tabacaria.
Sua filha, Georgette, mudou-se para Buenos Aires há pouco tempo: não conheceu ainda os meeiros.
Na verdade, quem mais interage com os dois é o irmão de “Phud”, Don, de 65 anos. Ele é professor de artes.
Uma questão atormenta Buddy Horace profundamente: ele não gosta de Old McKernel, que teria desvirginado sua esposa uma semana antes do casamento.
O casamento foi anulado, e Buddy Horace ficou muito triste.
Buddy Horace empurra Old McKernel para o meio da rua num dia desses.
McKernel, obviamente, não morre nem nada: um carro vinha mas desviou.
Quem mais se emputece é o motorista.
20100404
Da hood.
Há uma gorda no prédio vizinho ao meu. Eu moro no primeiro andar e vejo o pátio onde ela, que é uma criança - ou uma pré-adolescente - brinca, talvez umas três vezes por semana.
Ela tem um irmão que também é gordo. Lá está ele no jogo de pingue-pongue com um amigo, que é mais magro. Agora não sei se são eles que estão jogando ou se é o som de uma obra por perto que me confundiu e me fez achar que é a bolinha, mas ele apareceu agorinha com uma raquete.
A voz dele é igual a da irmã, percebi agora que ele riu do amigo que perdeu o ponto. Deve ser hábito, nessa família: o gordo fica dando risada da cara do amigo que erra, mas é só aparecer a irmã mais gorda e mais velha que ele é que apanha.
Mas ela é pior, porque não só ri, gritando, como acaba com o jogo se começa a perder. Já vi não sei quantas vezes ela reclamando que o irmão tinha chutado a bola bem na cara dela, quando é tudo mentira. E aí ela esperneia, esperneia até voltar o ponto. E aí ela dá mais risada.
Minha mãe também odeia essa gorda reclamona. Mas ainda bem que a minha mãe não é que nem a mãe da gorda, que é pior do que só uma gorda reclamona. Ela é a SÍNDICA.
Ela odeia os jardineiros e quase já matou o filho uma madrugada aí (não o filho gordim, um outro cuja voz eu acompanhei mudando nos últimos anos), que ela gritava que ele tava desacordado e não respondia e ela pediu desculpas por todas as brigas que eles tem - também umas três vezes por semana, com "Sai daqui! Já! JÁ! Você quer me matar? Você quer me matar!" - mas, enfim, não fez muito efeito, porque tudo continuou.
Até o carro dela é barulhento, daqueles com madeira decorativa na porta, porque da minha sala eu vejo a saída da garagem deles, e lá estava ela, minha amiga a Gordona, reclamando com o porteiro enquanto o carro PÔU, PÔU, PÔU ali. Pra piorar, minha televisão está velha e desliga sozinha a cada três minutos aleatórios, e eu moro perto de Congonhas. Foi-se o som do "Friends".
Acho que eu só queria dar um abraço neles.
Ela tem um irmão que também é gordo. Lá está ele no jogo de pingue-pongue com um amigo, que é mais magro. Agora não sei se são eles que estão jogando ou se é o som de uma obra por perto que me confundiu e me fez achar que é a bolinha, mas ele apareceu agorinha com uma raquete.
A voz dele é igual a da irmã, percebi agora que ele riu do amigo que perdeu o ponto. Deve ser hábito, nessa família: o gordo fica dando risada da cara do amigo que erra, mas é só aparecer a irmã mais gorda e mais velha que ele é que apanha.
Mas ela é pior, porque não só ri, gritando, como acaba com o jogo se começa a perder. Já vi não sei quantas vezes ela reclamando que o irmão tinha chutado a bola bem na cara dela, quando é tudo mentira. E aí ela esperneia, esperneia até voltar o ponto. E aí ela dá mais risada.
Minha mãe também odeia essa gorda reclamona. Mas ainda bem que a minha mãe não é que nem a mãe da gorda, que é pior do que só uma gorda reclamona. Ela é a SÍNDICA.
Ela odeia os jardineiros e quase já matou o filho uma madrugada aí (não o filho gordim, um outro cuja voz eu acompanhei mudando nos últimos anos), que ela gritava que ele tava desacordado e não respondia e ela pediu desculpas por todas as brigas que eles tem - também umas três vezes por semana, com "Sai daqui! Já! JÁ! Você quer me matar? Você quer me matar!" - mas, enfim, não fez muito efeito, porque tudo continuou.
Até o carro dela é barulhento, daqueles com madeira decorativa na porta, porque da minha sala eu vejo a saída da garagem deles, e lá estava ela, minha amiga a Gordona, reclamando com o porteiro enquanto o carro PÔU, PÔU, PÔU ali. Pra piorar, minha televisão está velha e desliga sozinha a cada três minutos aleatórios, e eu moro perto de Congonhas. Foi-se o som do "Friends".
Acho que eu só queria dar um abraço neles.
isto é:
amigos,
boa vizinhança,
casal,
drama familiar,
família,
gordo,
janela indiscreta,
Swordfishtrombone,
vizinho
20091116
É da vida, é da vida...
Ontem, enquanto dois pernilongos me picavam, pude ouvir a conversa deles: o primeiro começou falando sobre mim mesmo, que no momento era o assunto óbvio. Mas com a mesma rapidez com que me considerou “degustável” o segundo passou às questões mais práticas, em torno de como alcançar meu antebraço direito (estavam no esquerdo).
Eu quis me intrometer, porque fui com a cara dos dois, e sugeri um novo tema. Em troca, tive que oferecer o braço que cobiçavam, mas não vi grandes problemas. Sendo assim, pude contemplar um dos melhores diálogos sobre sinestesia que já ouvi. A definição do primeiro era bem pouco ortodoxa: o mesmo que um músico de formação erudita tentando tocar jazz. O outro foi mais simplório e a definiu como um truque racional que visa à sensação ébria de um copo de sangue pelo ouvido.
E falando em ouvido, foi aí que eles se aproximaram e eu comecei a me incomodar com o zumbido insuportável, que se sobrepunha às vozes singelas dos dois – que nada tinham de esganadas, é importante dizer, e se pareciam mais com uma versão aveludada de Mariana Ximenes. Bem, logo dei cabo dos dois e entrei no banho.
Mas a verdade é que só imaginei ter dado cabo dos dois. O segundo, de quem eu gostava menos, havia conseguido escapar e, sem guardar mágoas, acompanhou-me no banho. Parecia suportar bastante bem uma gota ou outra de água que ocasionalmente escorriam sobre sua cabeça.
Engatamos um papo e desenvolvemos a temática “afrescos”, sugerida pelo acúmulo de gotículas na janelinha do banheiro, que o fizeram lembrar-se de algumas obras de arte decorativa que vira uma vez em Porto Alegre. Minha esposa juntou-se a nós (a mim, consciente; a nós, sem dar-se conta de meu amigo) e, bem, tive que interromper a conversa por alguns instantes para começar outra:
-O lençol está com uma manchinha de sangue...machucou?
-Eu? Bom, eu não me machuquei...
Falar sobre meu homicídio dessa maneira me constrangia e eu tentei rapidamente mudar de assunto. Minha mulher é burra, de modo que pude logo inventar um jogo, que consistia em tentar lembrar se a sessão das quinze e dez era no multiplex ou no shopping. Valha-me deus, como funcionou.
Saímos juntos do banho e eu me distraí por uns instantes – sendo preciso, exatamente quando me secava e colocava a toalha de volta, pendurada -, o que foi suficiente para que perdesse meu novo amigo de vista. Isso me deu tempo para pensar numa próxima temática. Coloquei minha roupa pensativo, riscando idéias ruins que apareciam e fazendo pré-seleções das razoáveis.
Enquanto isso, minha mulher já se vestira e, com pressa, dava-me um beijo de “até mais tarde”.
Olhei em volta e não o encontrei. Peguei o jornal e comecei a ler. Ando de saco cheio dos cadernos culturais e dos editoriais. Sobre estes últimos, me incomoda o jeito com que tratam todos como se fossem ignorantes, ou melhor, ao menos soubessem menos do que aquele que escreve. É uma arrogância. Meu sindicato ontem fez dez anos e a cobertura foi pífia. Disseram que somos “uma máfia”. Bem, na verdade, eu não sou do sindicato, só fui o membro fundador, mas logo me retirei quando caí no, digamos, “show business”. De todo modo, é terrível imaginar como eu estaria constrangido hoje se lesse o tal artigo. Sobre os cadernos culturais...vou me abster. São quase como enemas pré-preparados, de tão desgostosos.
Mas não tive mais tempo na vida para nada disso. Enquanto folheava, não vi a quina da estante de livros, bati a cabeça com força descomunal e caí, já moribundo. Eu sangrava muito na testa e senti que o ferro enferrujado tinha cravado fundo. Dificilmente sobreviveria. Vi o sangue se acumulando na minha frente. Aí ouvi o zumbido – que logo cessou, gentilmente – e vi meu amigo me olhando. Não impedi que se servisse de meu sangue espalhado. Nem fiz qualquer movimento que encerrasse o monólogo:
-Pois é, mas pior do que esses afrescos mal feitos é sangue de gato, que é azedo. Você me falou sobre como prefere aquarela. Pois bem, mas guache é mais grossa e menos divertida. Borrifadores são mais caros, é verdade, mas prefiro do que uma tinta que você pode comprar em qualquer lugar e é só começar a jogar numa tela que fica tudo bem. Agora, soube de um colega que conseguiu ler dois livros em um dia só, e livros grandes. Outro teve que fazer uma limpeza intestinal, em casa mesmo, mas porque comeu muito enquanto lia, ficou lá sentado e nem percebeu o que aconteceu, enfim, quase explodiu! Aliás, foi o meu colega que foi-se lá no seu quarto, sabe?, mas sem mágoas, acontece, é assim mesmo. Vou compor uma música sobre isso. Prefiro acordes aumentados, que dão mais tensão...hô, hô, entende?, “tensão”, nos dois sentidos, musical e dramático, sabe? Pois é, mas aqui já começa a coagular, e eu não gosto.
Eu quis me intrometer, porque fui com a cara dos dois, e sugeri um novo tema. Em troca, tive que oferecer o braço que cobiçavam, mas não vi grandes problemas. Sendo assim, pude contemplar um dos melhores diálogos sobre sinestesia que já ouvi. A definição do primeiro era bem pouco ortodoxa: o mesmo que um músico de formação erudita tentando tocar jazz. O outro foi mais simplório e a definiu como um truque racional que visa à sensação ébria de um copo de sangue pelo ouvido.
E falando em ouvido, foi aí que eles se aproximaram e eu comecei a me incomodar com o zumbido insuportável, que se sobrepunha às vozes singelas dos dois – que nada tinham de esganadas, é importante dizer, e se pareciam mais com uma versão aveludada de Mariana Ximenes. Bem, logo dei cabo dos dois e entrei no banho.
Mas a verdade é que só imaginei ter dado cabo dos dois. O segundo, de quem eu gostava menos, havia conseguido escapar e, sem guardar mágoas, acompanhou-me no banho. Parecia suportar bastante bem uma gota ou outra de água que ocasionalmente escorriam sobre sua cabeça.
Engatamos um papo e desenvolvemos a temática “afrescos”, sugerida pelo acúmulo de gotículas na janelinha do banheiro, que o fizeram lembrar-se de algumas obras de arte decorativa que vira uma vez em Porto Alegre. Minha esposa juntou-se a nós (a mim, consciente; a nós, sem dar-se conta de meu amigo) e, bem, tive que interromper a conversa por alguns instantes para começar outra:
-O lençol está com uma manchinha de sangue...machucou?
-Eu? Bom, eu não me machuquei...
Falar sobre meu homicídio dessa maneira me constrangia e eu tentei rapidamente mudar de assunto. Minha mulher é burra, de modo que pude logo inventar um jogo, que consistia em tentar lembrar se a sessão das quinze e dez era no multiplex ou no shopping. Valha-me deus, como funcionou.
Saímos juntos do banho e eu me distraí por uns instantes – sendo preciso, exatamente quando me secava e colocava a toalha de volta, pendurada -, o que foi suficiente para que perdesse meu novo amigo de vista. Isso me deu tempo para pensar numa próxima temática. Coloquei minha roupa pensativo, riscando idéias ruins que apareciam e fazendo pré-seleções das razoáveis.
Enquanto isso, minha mulher já se vestira e, com pressa, dava-me um beijo de “até mais tarde”.
Olhei em volta e não o encontrei. Peguei o jornal e comecei a ler. Ando de saco cheio dos cadernos culturais e dos editoriais. Sobre estes últimos, me incomoda o jeito com que tratam todos como se fossem ignorantes, ou melhor, ao menos soubessem menos do que aquele que escreve. É uma arrogância. Meu sindicato ontem fez dez anos e a cobertura foi pífia. Disseram que somos “uma máfia”. Bem, na verdade, eu não sou do sindicato, só fui o membro fundador, mas logo me retirei quando caí no, digamos, “show business”. De todo modo, é terrível imaginar como eu estaria constrangido hoje se lesse o tal artigo. Sobre os cadernos culturais...vou me abster. São quase como enemas pré-preparados, de tão desgostosos.
Mas não tive mais tempo na vida para nada disso. Enquanto folheava, não vi a quina da estante de livros, bati a cabeça com força descomunal e caí, já moribundo. Eu sangrava muito na testa e senti que o ferro enferrujado tinha cravado fundo. Dificilmente sobreviveria. Vi o sangue se acumulando na minha frente. Aí ouvi o zumbido – que logo cessou, gentilmente – e vi meu amigo me olhando. Não impedi que se servisse de meu sangue espalhado. Nem fiz qualquer movimento que encerrasse o monólogo:
-Pois é, mas pior do que esses afrescos mal feitos é sangue de gato, que é azedo. Você me falou sobre como prefere aquarela. Pois bem, mas guache é mais grossa e menos divertida. Borrifadores são mais caros, é verdade, mas prefiro do que uma tinta que você pode comprar em qualquer lugar e é só começar a jogar numa tela que fica tudo bem. Agora, soube de um colega que conseguiu ler dois livros em um dia só, e livros grandes. Outro teve que fazer uma limpeza intestinal, em casa mesmo, mas porque comeu muito enquanto lia, ficou lá sentado e nem percebeu o que aconteceu, enfim, quase explodiu! Aliás, foi o meu colega que foi-se lá no seu quarto, sabe?, mas sem mágoas, acontece, é assim mesmo. Vou compor uma música sobre isso. Prefiro acordes aumentados, que dão mais tensão...hô, hô, entende?, “tensão”, nos dois sentidos, musical e dramático, sabe? Pois é, mas aqui já começa a coagular, e eu não gosto.
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