20100930

Trecho excluído de uma história de ficção científica

Vamos nos encontrar? Foi Rafael quem perguntou, podia ter sido qualquer um deles, porque todos queriam. Eram treze horas, o que significava que as reproduções da videoconferência se apagaram e Rafael se levantou da cama e foi até o único outro cômodo da casa, que era o hall de acesso à esteira, então ele subiu nela e foi sendo levado devagar para o Pátio Comum, todos esses verbos sonorizados por uma voz mecânica e insistente que dizia que Todos devem se dirigir para o Pátio.
Victor amava essa hora do dia, embora a maioria das pessoas a odiasse. Ele adorava sair do quarto e andar pela esteira e ficar imaginando (porque só imaginava) o que poderia haver por fora das paredes brancas que cercavam todo o percurso, e ele amava chegar ao Pátio e pensar, todas as vezes, que aquilo era a prova de toda a grandiosidade humana e que fossem quais fossem os pecados da humanidade ao longo de seus séculos de história, fossem quais fossem suas vergonhas, tudo tinha valido a pena se o resultado fora a construção de algo como o Pátio. Um prédio de proporções surreais, com um sem fim de quartos e salas e ambientes e andares, todos igualmente gigantescos. Existiam centenas de milhares de Pátios pelo mundo, e cada um deles podia acomodar, de uma só vez, todos os habitantes de uma pólis, ou seja, dez milhões de pessoas.
Victor adorava todas as vezes em que a esteira deixava o apertado corredor branco e sem janelas que ligava sua casa ao Pátio, e adorava mais ainda a perspectiva de, por uma hora, conviver fisicamente com outras pessoas.
Quando as últimas pessoas chegaram no prédio enorme, as luzes de fora se apagaram, indicando que começava o reboot de todos os sistemas, repetido uma vez por dia e deixando todas as casas escuras, com exceção do enorme átrio em que, por uma hora, toda a pólis se reunia. Victor pegou seu smartdex e ativou a tela do pequeno computador portátil com um toque dos dedos. Depois, iniciou a localização de Rafael e Beatriz, fazendo com que duas setas vermelhas aparecessem em meio ao mapa do Pátio Comum exibido no visor. Seguindo-as, ele conseguiu encontrar os novos colegas, que também usavam rastreadores similares.
Frente a frente, curiosamente, nunca era tão fácil como diante das imagens ampliadas na parede de um quarto. Cada um deles não tinha tido mais do que uma hora por dia de contato pessoal com outros seres humanos em seus vinte anos de vida, e mesmo nesses momentos, as conversas costumavam ser impessoais. Era como entrar em uma sala de bate-papo e não conhecer ninguém e ficar apenas fazendo perguntas genéricas, e quem é você, nome, idade, hobbies etc. Mas dessa vez eles tinham alguma coisa anterior, nem que fosse só alguns minutos de videoconferência e uma matrícula em um curso de História do Direito.
– Oi, disse Victor. Oi. Oi.
Um ínfimo de passado comum e era isso, não conseguiam sair dos ois e de uns tímidos o que achou da aula? e outros boa, ótima, como resposta. Quarenta e cinco minutos se passaram e nem valeram muito a pena, mas Victor descobriu que Rafael escolheu Direito porque era coisa de família, enquanto Beatriz o fez pelo dinheiro, mesmo, e Victor ficou com vergonha de dizer que se interessava pelo assunto. Quanto à aula, Beatriz falou da diferença que antigamente existia entre a realidade fática do ser e a ideal, a prevista na lei, do dever-ser. Victor e Rafael e ela riram-se e torceram para que no dia seguinte, na aula de Direito Privado, aprendessem algo útil de verdade.
E então mais outros tantos minutos se foram e eles tinham já que voltar e obviamente foi o que fizeram, subindo nas esteiras, vendo as luzes se reacendendo e, no caso de Victor, imaginando o que havia do lado de fora das paredes brancas iluminadas dos corredores, das casas e da Pólis. Na esteira, encontrou sua mãe e seu pai, cada um indo para seu gomo da grande colméia que é a cidade, e deu um alô rápido, conversando talvez por não mais do que cinco segundos e então estava em casa, com as paredes já iluminadas e as telas acesas.

seis seis seis

insignificante, eu sei. acabo com o misticismo tornando-o um copo vazio.

20100928

LEMBRETE DE MÁXIMA IMPORTÂNCIA:

Recicle! — Um princípio de embasamento para a forma.

Quando se fala em arte, uma observação relevante diz respeito à dualidade que sempre se observa entre o artista e o público. De fato, diz-se sempre que a arte só se completa com a ação deste, e não somente com a daquele, e isso se dá justamente porque o trabalho artístico pressupõe algum esforço de interpretação; entendimento que dê ao trabalho um sentido — sendo este nem sempre igual ao que o próprio artista previu. Note que esse entendimento está intimamente relacionado à idéia de arte enquanto expressão. No entanto, corre-se o risco de dar demasiada importância à subjetividade interpretativa do receptor, ignorando-se a igual necessidade do esforço do artista. Ora, ainda que não exista arte sem a recepção, não se pode conceber a arte somente por via dela; não se pode obter um trabalho artístico por meio somente do significado apreendido, sem que tenha havido, em algum momento, a intenção de que se expresse.

Por isso, não pode existir arte sem a existência de um trabalho consciente de expressão e de atribuição de significação, ou seja: a arte é inerente à atividade racional, por mais que a arte em si pressuponha, muitas vezes, muito mais a emoção do que o intelecto. Para ilustrar esse conceito, recorreremos novamente ao exemplo de Duchamp e sua Fonte. Enquanto o objetivo do dadaísmo era justamente o de retirar a racionalidade da arte; enquanto o penico em forma de fonte era justamente uma crítica ao purismo do intelecto, não é difícil apreender o exercício racional que se superpõe ao processo criativo; é clara a idéia pautada na razão e que sustenta justamente a irracionalidade artística. Isso não é uma incoerência do dadaísmo e, pelo contrário, é justamente o que o torna um movimento artístico, e lhe permite criticar qualquer outra forma de arte.

Se, por exemplo, um animal causar acidentalmente algo que possa ser visto como expressão de alguma idéia, não será ele um artista, pois nunca pretendeu fazer-se entender, e ainda que uma pessoa interprete o resultado dessa ação aleatória de forma a atribuir-lhe sentido, não haveria, em princípio, a figura do artista, essencial à atividade artística. No entanto, ao expor o objeto como tendo significação, essa pessoa estará agindo justamente da maneira que um artista age quando dá à madeira ou à tela um sentido. Assim, ainda que seja o animal o responsável pela execução da atividade que levou à criação do objeto — e indubitavelmente ele é o criador do objeto enquanto elemento físico —, é o artista quem atribui um significado para tal objeto e, portanto, torna-o viável de ser tratado como obra de arte. Há, portanto, uma distinção clara entre o objeto material — uma pegada suja de terra sobre o rosto de alguém em um pôster, por exemplo — e o imaterial — a idéia da crítica irônica a uma personalidade, por exemplo.

O essencial à criação da propriedade imaterial é, portanto, a concepção da idéia e sua expressão, e não a forma como a idéia se expressa, embora esta seja essencial àquelas.

Entendemos, por essa razão, que o esforço artístico deve ser sempre baseado na racionalização que gera a idéia, e que a criação da obra deve, portanto, se dar somente com o esforço intelectual, sendo todo o restante mera conseqüência desse esforço ou, mais precisamente, simplesmente a exteriorização da criação artística, e não a criação em si mesma. Nesse mesmo sentido, embora entendamos que a forma possa ser parte essencial da idéia — caso, por exemplo, da poesia que tem na rima e na métrica elementos cruciais de seu ser —, questionamos a relação direta entre a obra e a forma em que se apresenta. Conforme se costuma dizer, a obra é criada em dois momentos distintos, quais sejam a atribuição de significado realizada pelo artista, através do esforço criativo — e não manual — e a atribuição de significado realizada pelo receptor, através do esforço interpretativo. São duas ações que ocorrem somente no intelecto, de forma que uma nova obra artística se cria quando um intelecto concebe uma nova expressão e outro intelecto percebe um novo significado.

Por isso, temos como claro que o conjunto de letras e a ordem em que, expostas, elas formam Romeu e Julieta, diferem inteiramente da obra de Shakespeare, porque essa está no conjunto de idéias, sentimentos e valores expressados pela obra — ainda que, sem aquela exata ordem de letras, tais idéias, sentimentos e valores jamais poderiam ser expressos. Por isso, quem se utiliza de trechos shakespearianos na criação de obras novas — obras derivadas —, desde que consiga criar uma nova idéia e expressar novos valores e sentimentos, não deve ser visto como um violador da obra do mestre inglês, mas sim como alguém que soube criar algo novo. A diferença está, como vimos, no fato de que, ao usar os trechos de Shakespeare, o novo artista deverá ter realizado uma atribuição diferente de significação, que será perceptível ao público que, por sua vez, fará uma interpretação diferente da que faria para o amor proibido da obra original. Não importa, nesse sentido, a grandeza do pensamento novo em comparação ao que lhe serviu de base.

Importante mesmo é que não se tema o exercício da criatividade no campo das idéias, por medo de violações no campo da forma. O respeito à criação alheia não deve impedir o desenvolvimento de obras novas, que tragam novas idéias e que resultem de um novo e distinto exercício de consciência e racionalidade, que levem a uma nova forma de expressão. Por isso, defendo: racionalize o irracionalizável, conceitue o inconcebível. E não se detenha se, para isso, for preciso repensar o que já é, para chegar ao que nunca foi.

Recicle!

20100923

Onacho: chama PIXEL PURGEL e é incrível!!!!!

slayer of the shoot king
kill kill fume king
scrotum blast at last

Nessas horas, eu me sinto em casa. Quase de cueca, sozinho. Pois é, estou com isso na cabeça. Melhor que cinema. Felizmente eu não conheço o suficiente de cinema para ficar com isso na cabeça, apesar de ter sido a Bruna que me mostrou, e falou, "Puta que pariu, que raiva de cinema!". Aí tirei sarro, perguntei, "Heh, e você conhece cinema, é?". Ah, mas não dá, não dá.

Minha conta vai vencer. Ah, porra, caralho, filhos-da-puta não vão me deixar chegar!...morri. Não, não..estava indo tão bem! Estava divertido.

Quarta à tarde







Agora só com uma mão!
AFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADA
SAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFAD
AAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFAD
ASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFA
DAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFA
DASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAF
ADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAF
ADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASA
FADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAA
FADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADAS
AFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADA




ela

o problema é que ele não estava morto nem nunca estaria, não enquanto ela estivesse viva também, ele só morre quando não existir mais e ainda existe no remorso e prazer dela e nos dedos dela que ele já beijou e nas paredes pelas quais ele já percorreu os dedos tanto tempo atrás e tão pouco tempo atrás, um fantasma em corredores e em televisões e em carros, só quando tudo que ele já tocou e pensou e comeu e amou virar pó e esse pó virar estrela e essa estrela se apagar em escuro ele vai deixar de existir e então vai ter sido ridículo e ineficaz tê-lo matado e é por isso que ela está andando por um corredor e percorrendo sua parede com os seus dedos como quem pensa em porque somos assim e talvez seja nisso que ela está pensando, talvez seja no quanto se arrepende ou talvez não esteja pensando nisso, talvez esteja pensando em não pensar nisso, com toda a força que ela tem, que não é pouca, andando um pouco bêbada e um pouco fora de si mas por isso totalmente si-mesma, mais do que antes, digitando em computadores confissões disfarçadas de imagens, sem nenhuma realidade que não a dela mesma, vendo a si mesma refletida em telas apagadas e acesas, com sons que ela não sabe mais ouvir a não ser a própria voz, ela luta com sua alma, mesmo sem acreditar ter uma, com palavras que não são mais do que eu sou, que são mais do que são, som e sim, ela uma moça bonita de futuro sem futuro, andando por paredes manchadas de velho que não mais, diz-se que não dizendo só uma palavra mas somente todas, coisas que ela já não sabe mais a não ser esquecer, verdade é aquilo que eu já descobri mas não me recordo, ela é pequenas manchas em sólidos não-euclidianos que vagam na velocidade dos sólidos não-euclidianos, mais e menos, ela ama a si mesma tudo o que podemos, ela só um abismo, sem tempo para nada que não nada, sentindo um, ela esquece.

20100922

Frangasso/rip me off [por um cinema mais grave]

homenagem a LFLabaki
imagens da Feira, onde a faca é a lei.


música: Heike Wubbe - "sonidobscuro"

poema: ogumM - "chicken love"

20100916

20100913

Quando ele começou a trabalhar no escritório, na baia ao lado, uma das primeiras coisas que ela percebeu foi que seria difícil agüentar o cheiro. Demorou um pouco mais pra ela entender o que era aquilo e quando ela percebeu, não ficou muito mais satisfeita, porque o cara exalava cheiro de pinto.
Lívia sentiu nojo, lógico. Ela ficou brava e quando ele chegava, ela fingia que estava ouvindo o ipod ou lendo um artigo muito longo e difícil, alguma coisa sobre farmacologia, com palavras grandes e então ela não o cumprimentava nem olhava para o lado que era para não mirar o nariz naquele cheiro todo de pinto, pau, de coisa suja.
Mas não adiantava muito (não adiantava nada), porque ela ainda tinha que passar o dia inteiro lá e aquele cheiro vinha que nem um miasma sufocante, uma fumaça contagiante, uma coisa degradante, mesmo. Porra. Cheiro de sovaco, de suor, de cu, tudo isso ela já tinha agüentado e agüentava, mas cheiro de pau era demais e ela tinha que ficar lá, afogada naquilo, como se respirando a pica dele, tomando banho de pica dele.
E é claro que o tempo todo que ela ficava lá, ela não conseguia pensar em nada que não fosse o pau dele. Durante cada segundo do expediente, ela mantinha plena consciência de que o pau dele estava lá, ao alcance do braço, da mão, do que mais fosse. Era que nem, sei lá, ser lembrada o tempo todo de que ele era bicho macho, de que ele tinha o que era preciso para o sexo ali, pertinho, tão pertinho que saía dele, mesmo, e já penetrava nela mesmo que pelas narinas. Pelos poros.
Foi uma semana, só, de asco e depois virou obsessão. Ou melhor era ser claro e dizer: tesão. Não chegava e nem podia
Chegar a ser paixão. Mas era algo perto, que é a perda da razão. Hormônios, talvez, feromônios ou seja lá como chamam essas coisas que se vendem na internet e que de repente podiam ser substituídas por um cheiro forte não de pinto, mas de hombridade, de masculinidade. Nada a ver, também, com sexismo, mas com algo muito anterior e mais inocente do que isso.
Ele chegava e, junto com o cheiro, vinham a ela as imagens que ela imaginava do pau dele, sempre grande e suado, sempre pós-coito, os fluidos dele e dela (sim, dela) escorridos all along, os cheiros agora misturados.
Um dia, quando não dava mais, ela esperou ele levantar, ir até o banheiro e foi também, ligando pouco para alguém que estivesse vendo. Fechou a cabine e os dois ali, ele meio assustado, mas não disse nada enquanto ela tirou sua camisa (a dela) e sua calça (a dele) e agarrou aquela cueca de cheiro forte, que ela esperava suada.
E aí, aquele tamanho médio, aquela limpeza toda, a decepção de uma foda normal, ainda com o desconforto e o aperto da cabine do banheiro.

20100910

Minhas férias:

Um escorrer-pelas-mãos de momentos que não podemos agarrar.

20100902

Revisão (a hora do chá).

Uma hora a literatura foge do nosso poder e então se torna um mundo por si só
[você pode escolher o estilo entre prosapoesiabomruiminteressanteintelectualconcretosimbóliconostradamusjoaquimdefreitas], e então você pode largar o livro ou segurá-lo ainda mais forte: o poder das frases feitas - ainda assim, pode parecer que não, mas só há um outro texto em toda a Internet (ao menos a parte atingida pelo Google) com a sentença "o poder das frases feitas".


Rebeca e Gustavo compartilhavam do bom sentimento que é olhar os olhos com os olhos: é aí que começa a confiança, é aí que se pode transar sem nenhum tipo de medo.
"Olho nos seus olhos e não noto sua barriga seus peitos pequenos as leves estrias de crescimento nas suas costas a celulite da bunda os pêlos em volta de seu cu seu gozo falseado."


Há 53 posts neste blog que contêm a palavra então em seu corpo. 54 com este. Isso diz bastante sobre o autor e sua noção de movimento, tempo e causalidade. A palavra átimo só aparece em 2 outros textos. Amor em 20. Há 9 em que amor e então coincidem. Amor e morte, 3. É a primeira vez que Rebeca e Gustavo aparecem; Carlos, em 11, Clara, em 4: se juntam em apenas 1. Só uma chance.


Era a primeira vez do casal, a primeira vez de cada um, e Gustavo olhava Rebeca nos olhos com os olhos, ele sabia que ela estava chorando e corando um pouco, ele gostava dela o bastante para segurá-la contra seu peito e esperar pacientemente pela calma. Seu cabelo cheirava bem - também, recém-lavado assim - e a toalha enrolada no corpo dela era tão macia quanto o corpo por baixo. Os fios negros molhavam o ombro esquerdo de Gustavo, que descia a mão pelo comecinho das costas (o de cima) dela e segurava sua cintura contra a dele.


O artifício de usar você como objeto da narrativa é relativamente recente, não vou apontar meu primeiro texto a usá-lo, porque foram vários e aos poucos. É uma forma de aumentar a capacidade de identificação das pessoas, de forçar a conjugação dos leitores, seja com o narrador, seja com o suposto receptor.


Rebeca não gostava de Gustavo.
Tentava se convencer disso, mas o cheiro do ombro dele era tão bom e familiar, tão suor e tão humano, enquanto ela fedia a sabonete e a água quente, a banho tomado numa tarde abafada. Se ela aceitasse tudo que ele oferecia a ela, certamente mudaria de cheiro, imundiciaria de Gustavo. E, ainda por cima, os olhos dele eram lindos.


Você pode sentir o autor por trás de tudo, semprissempre, não pode? O estilo é claro, posso mascará-lo de tantastantas formas, mas um leitor é sempre um leitor e sabe que eu não vou decepcioná-lo: pontualmente, intercalarei minhas anotações com a história que escrevo; não gosto de confundi-los, Rebeca e Gustavo.


Os dois se entreolharam, ela já não chorava e ele reconhecia algum tipo de beleza que desconhecia naquele rosto, aquela cara de cavalo dos olhos redondos e pretos, do cabelo preto, da sombra preta, da pele clara, ao contrário do moreno de seus próprios braços, de seus músculos adolescentes. Durante quanto tempo quisera beijá-la? Nem tanto. Ainda assim, naquele momento, ele queria jogá-la na cama e lamber seu rosto e sorrir tocando seu nariz com seu nariz, amar muito numa explosão de...


Carlos e Clara estavam sentados num banco de uma praça. Ela tentava explicar-lhe que possuía um namorado, que o esperava, que não queria conversa com nenhum estranho nesse meio-tempo, que estava lendo um bom livro, que odiava gente vindo pra cima dela, que odiava urubus, que odiava gaviões, que odiava todo tipo de animal que mata ou come, que era vegetariana convicta. Então Carlos convidou-a para o Gopala Prasada, ela o olhou decima abaixo e notou que era bonito, mais bonito que seu namorado, e que tinha boa dicção e que se vestia bem, que tinha mais ou menos a mesma idade que ela, que sorria, tinha cabelos muito bonitos; mas foram seus Olhos que a conquistaram em um só átimo: olho no olho no olho no olho. Era amor, era a morte.


Rebeca deixou a toalha soltar-se das costas, Gustavo começou a acariciá-la também ali, Rebeca virou a face para o outro lado, Gustavo fez com que ela virasse todo o corpo, Rebeca obedeceu, Gustavo retirou a toalha lentamente com as mãos, Rebeca estremeceu, Gustavo viu a toalha caindo no chão - deslizou menos suave do que havia imaginado - e passou a mão pela lateral do corpo dela, Rebeca estremeceu, Gustavo pegou-a com firmeza na cintura e tentou empurrá-la levemente para a frente, Rebeca disse que Daquele jeito não, Gustavo largou as mãos, confuso, Rebeca virou-se novamente para ele e sorriu, desajeitada, Gustavo olhou-a nos olhos, Rebeca puxou-o pela cintura, Gustavo caiu em cima dela, Rebeca caiu na cama.


Eu imagino que as pessoas não me entendam direito. Não sei o que as pessoas sentem quando leem meus textos, sei que algumas podem ter a impressão que escrevo para elas, e é verdade. Sempre escrevo para vocês, e aqui uso o artifício novamente. Todos vocês ou todas vocês? É fundamental que o autor consiga ser todas as personagens e que ele consiga escrever. A tarefa criativa é ingrata, no sentido que é provável que já tenham escrito e dito o que você pretendia de forma muito mais eficaz. Não sei se a eficácia é importante para o que pretendemos.


Ele sentiu frio e contraiu os músculos, ou vice-versa, e ela sentiu calor e contraiu os músculos e continou com calor quando o abraçou, um pouco assustada, depois de tudo. Ele retribuiu o abraço, um pouco desanimado, enquanto ela lhe dava um beijinho no peito, Rebeca disse que o amava muito e ele fez que sim com a cabeça. Gustavo estava vazio e não olhava para nada; embora não soubesse, estava feliz.


"may i feel said he/(i'll squeal said she/just once said he)/it's fun said she
(may i touch said he/how much said she/a lot said he)/why not said she
(let's go said he/not too far said she/what's too far said he/where you are said she)
may i stay said he/(which way said she/like this said he/if you kiss said she
may i move said he/is it love said she)/if you're willing said he/(but you're killing said she
but it's life said he/but your wife said she/now said he)/ow said she
(tiptop said he/don't stop said she/oh no said he)/go slow said she
(cccome?said he/ummm said she)/you're divine!said he/(you are Mine said she)"

20100901

diálogos (misc)

A: BARULHO barulho BAGULHO (!)
B: where is the love
A: Eu comecei no topo e só decaí desde então.
B: o amor que tu me destes era pouco e se acabou
A: Fui me transformando aos poucos em uma gigantesca lesma sem alma aos seus olhos e então era inevitável que tudo terminasse, para sempre - em um grande teatro.
B: nós não somos mais - totalmente, tragicamente, ternamente.
A: Se você voltar pra mim, eu prometo construir escolas, curar os doentes, libertar os detentos, alimentar os pobres, beijar os bebês.
B: quem é você, diga logo
A: Eu não sei mais, não sei mais não sei agora eu sou só um caminho que não leva a lugar algum, um homem sem irmãos que existe num vazio preto e não branco, sem paz só fim.
B: sussurro surdamente um algoz - nós.
A: Agora eu vou me matar e a culpa vai ser sua.


(um palhaço passa por eles - interlúdio - e entrega uma rosa para a bela moça, sorrindo, ela lhe sorri de volta dentes solares, todo o público engasga o ar pastoso, esperançoso, torcendo pelos seus doppelgangers incompetentes, uma nuvem pesada se retorce parafuso, os pais-sogros sentados já chorando, representação de algo inexprimível - um estampido)

A: Você não se importa nem um pouco e por isso eu não posso fazer nada.
B: vou sendo como posso.
A: Agora não dá mais, caralho, não dá, eu me saio daqui nessinstante e vou pro estrangeiro, sumo, esqueço, escafedo, um dia renasço virgem e feliz. Você, cruel...
B: só... fica.
A: não mais.
B: (beija, acaricia, enlaça) a beleza será convulsiva, ou não será
A:
B:
A:
B:

(um encontro)

B: e sim eu disse sim eu quero Sim.