20130427

Balada da amora que não como


No meio do caminho tinha uma amoreira
e ir trabalhar era encher-me de amora
e o mundo era bom e havia ordem –
mas a prefeitura achou por bem a poda.

A amoreira lá ficou: ainda é viva
e ainda a vejo todo dia, mas agora
me esvazia, pois só onde não alcanço
seus galhos curtos ainda se enchem de amora

E em casa, tanta fruta: tem banana
tem pêra, e até (quando tem feira)
tem ameixa – e as como, mas comê-las

é um ato de patética vileza:
como-as com a boca, mas minha mente
e meu coração estão com a amoreira

20130425

tartaro

você coça coça coça
mas aquilo não sai


você bebe bebe bebe
mas aquilo não sai

você assoassoassoa
mas a quilo não sai

você tenta tenta tenta
[coro: é a paixão de viver]




EDIT:

20130424

desaforismos

abro o facebook e constato mais uma vez que meus novos conhecidos fazem parte do mesmo círculo de velhos conhecidos. círculo este que, por atrevimento, chamarei de "artístico".

leio no carro mais um conto de murakami: o protagonista trabalha num banco coletando dívidas. frequentemente, os personagens vão para as mais diversas regiões do japão. não sei se existe rigor no modo como murakami os representa, mas imagino que sim.

li no carro porque aconteceu um acidente na av. brasil. levei pouco mais de uma hora até o trabalho. dois carros não deram passagem para o carro do resgate. um deles, a meu lado, era dirigido por um homem de terno, que gesticulou nervoso ao resgate: "passa por cima!".

para alguém que está dentro do círculo "artístico", com amigos "artistas" (pessoas que orbitam em torno da arte, de seus sistemas e problemas), um homem que trabalha num banco é tão "outro" quanto os índios da floresta atlântica (eles ainda sobrevivem).

como é possível falar sobre os "outros" sem se sentir simplificador, mentiroso, corajoso de um jeito burro?

já vi algumas pessoas surpresas porque minha namorada é farmacêutica, está em outro mundo. eu, pelo contrário, fico surpreso que as pessoas fiquem tranquilas num ambiente como a abertura de uma exposição.

quando estive em berlim, com henrique rocha, fui a algumas festas com ele, conheci alguns de seus amigos. todos eles estudavam coisas "outras": engenharia, administração, economia, as ciências que podem dar dinheiro etc. ninguém se interessava em ouvir nada sobre cinema ou qualquer coisa de meu mundo.

quando estive em bruxelas, com henrique chiurciu, quase todos que conhecemos não paravam de falar em cinema e na cena local e em suas notas no trabalho prático de conclusão do mestrado. de 0 a 20, 15 era uma nota alta e isso parecia fazer toda diferença para eles.

um filme (uma carreira, uma vida) medido por uma nota de 0 a 20.

20130423

noblesse oblige

se o trabalho dignifica o homem
todo trabalho trabalhoso é dignificante e edificante e valorizante

empilhar caveiras
limpar trincheiras
fazer besteira


uma força nova tem que surgir com a força de uma força nova
mesmo que isso signifique ter que pedir desculpas logo depois.


eu sou força nova
e forcei minha força por algo que acreditava ser bom


desculpa.




20130420

20130416

soarsso - coisas encontradas no meu quarto


homenagem a nomes esquecidos: MARCELOS


marcelo
mar celo
sinfonia do mar
liquidez instrumental
que se dissolve nos ouvidos das sereias

marcelo
conquistador de mundos outros
já que nunca houve neste mundo um imperador marcelo
mas em outros, em marte...
marcelo conquista as areias vermelhas
os indícios de água...

marcelo
amar celo

fracasso verídico (cantiga de roda)






foram mais de três
em vezes que senti
três picos na ponta
até que cuspi.

vai-te, bomba
cuia, parte
escorre tudo
cabou-se o mate

eu quis chimarrão
veio dor de barriga
tomei um tantão
com muita formiga

20130414

hoje sonhei com o holocausto

acordei me sentindo um carneirinho.




20130413

20130412

hateio de visão




xateio o xá
tão mermão
sirene queime chama
pomar

o xá tão nobre
mim pedia tudo
"fique" eu flicava
"vá" eu vaiava
refluxo de ar e o
fim libertar e o
de Ming

Ming - eu
mata dor indo pomar
sirene que estrinda
queime chama
lança ar pão

mor tipo fome
porto do tipo
de doença
trans miscível
núcleo ar mente

você mente
seed is
que Ming não entende
que é ousado
porto do povo
do mar
pra cabar com a sirene
que o toca

Nereida
positivo
é aids
estamos perdidos.


Ainda a metaverdade

Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas
Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:
"Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações".
(Hesíodo, Teogonia - tradução de Jaa Torrano)

20130406

hoje me mostraram um mapa

ele me dizia que eu devia dar mais valor a vocês, amigos;

que a minha vida não tem nenhum valor sem a co-operação;

que a cor-de-rosa deveria me fazer muito bem de tempos em tempos, como uma forma de re-energizar meus pontos vitais mais íntimos;

que não há nenhum futuro.


Adotamos a propaganda?