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20140907

sobre: dois pontos no espaço



há um tempo, estive em frankfurt, muito brevemente, enquanto esperava o próximo voo para meu destino final

sem planejamento e nada, fui com meu amigo até o centro da cidade e me impressionou terrivelmente como as pessoas se sentavam no lado de fora dos restaurantes e bares e afins e conversavam animadamente e, ainda assim, não conseguíamos escutar nada. passávamos a poucos metros e não parecia que aquelas bocas emitissem som algum

isso foi frankfurt

me assombrou.

* * *

hoje fui almoçar no bar do jeová na esquina da benedito calixto a uns 120  210 metros de casa e ainda era bem cedo

comi (é muito caro de fim de semana que horror) e o lugar começou a encher e voltei preguiçosamente pra casa e vi que os outros lugares também estavam cheios, ou: as mesas externas estavam ocupadas e as pessoas falavam animadamente e se vestiam bem e sorriam e não dava pra ouvir o que eles falavam

só tinha um ruído baixo, um blablabla muito suave parecido com o que faz uma tevê bem baixinha pela madrugada, quando você acorda e tem alguém vendo tevê quase no mudo

que coisa.

20140416

nascimento do brasil





ora, vocês se enganaram, diziam os índios a Cabral.
Os portugueses nada entendiam; não falavam a língua dos índios. Cabral sentia fortes dores no pé do estômago, e por isso queria sair rápido de sua caravela. Os nativos tentavam explicar que ali não era nenhum paraíso, que não havia ouro, que eles não davam conta do trabalho, que aquilo tudo era um absurdo, Tupã, ilumine essas cabeças brancas! Eles tentaram de tudo. Ninguém entendeu. Cabral começou a ficar de mau humor por conta das dores, desceu do barco irritado; um índio tentou acalmá-lo, eles brigaram na areia - uma confusão só, até que Cabral pegou sua arma a atirou no peito do inimigo - esse selvagem queria meu mal! 

20100617

variação em fagote

“(...) a opressão impõe ao dominado limitações que vão além do espectro político (tanto a negação democrática mais direta quanto a manipulação ideológica definida pelos exemplos dominantes) e do óbvio alijamento que se dá pela influência esmagadora da cultura opressora – a condição de oprimido, até mesmo quando autoconsciente, é uma prisão exclusivista : o dominado se descobre dominado e passa a se definir por isso – é apenas oprimido, sua personalidade sendo suprimida ante um traço tão forte – e isso se reflete na arte “rebelde” dos dominados, sempre preocupada com sua condição, sempre voltada para si mesma em um solipsismo preocupante, sempre nervosamente ciente de sua situação desfavorável, nunca capaz da leveza (irresponsável, burguesa, alegre) inconsequente da arte dominante. Os oprimidos somos incapazes de sorrir.” Paulo Emílio Salles Gomes in “Êxodo”


nunca na vida eu queria ser assim um moço pequeno e aleijado, não mesmo, queria ter perna-de-pau e ser pinóquio crescido, voando, elementar que nem carbono, fonte, fui passando pelo beco com os dedos cobertos de melaço - me chamo juca, sou esperto, pego duas moças pelo preço de uma; gêmeas, uma não sabe quem é a outra, escapo-já em tumtumtá - acusando crime: LADRÃO, assassino!, enfiei o braço na botija mas não sabia que tudo ficava tão feio, achei que era só uma moça-estátua-recipiente-de-felicidade, enfarto não é minha culpa...

CORO:

Veja só
o menino
que fugiu
da escola!
Pé-de-pato
sorridente
morre logo,
joga bola!

E Juca, agora, sem chance alguma de escapar - uma vida inteira de marginalidade resumida em um instante, decisivo, clássico, definidor, autocontido - fractal (um conceito que não sabemos entender; chegamos no máximo até a teoria dos fluidos ilustrada pelo carrossel holandês, no máximo, e a polícia cabisbaixa cercando o prédio olhando no relógio, 15h25, o Robinho já deve tar na quinta marcha, e aqui... Ele não existe mais, é só arquétipo e, droga, pera) agora sim, ele não existe mais, acuado em um barraco (se fosse desenvolvido (entre aspas, já que detroit ACABOU, ouviu, A-CA-BOU, a queda do império, agora só vivem ratos e astrólogos lá) seria uma fábrica abandonada - símbolo do quê, exatamente?, não sei) com uma bazuca, isso mesmo, BAZUCA nas mãos, ameaçando estourar tudo se não deixam sair, a rua vazia, ninguém




e aí, bumpaticurungudum, um salto temporal - o capitão major tenente olha o relógio e, nããããão!!!!, 17h40 já, uma gritalhada danada, na rua uma escola de samba chamada POVO, explodindo, balançando, logo Juca já sumiu, colorido, e vai votar esse ano, jájá todo mundo vota, eu sou assim, aqui, sambote, ê-ô-ê, eu

Queria falar sobre o que não bate mais no meu peito e o medo de
não, preciso explicar porque pensar numa solução já é
agora, só agora, murmuro sobre os gatos e as suas caudas
meu deus do céu eu

Os detetives John e Adolph nunca encontraram ninguém; "isso é passado, garoto, poeira de sonho" ----- não,!, num deserto sacando uma pistola e matando Cai-Sentado com fumaça mas não tem, não, eu ----- cambalhotando com voz-em-tudo rindo, Eu gosshtow dee voucêee, nossas mulheres, não, fiquem!!, fugindo pro abrigo agora

JOÃO: VEM VAGABUNDA
ELA: SUA.
beijo, sem pôr-do-sol.

NÃO DÁ MAIS, explodindo (mas não, explodir não é meu, não, pulando)


Juca segue dançando, ô danado, êêê.

20100525

Não exatamente o Josimar Melo, mas...

Admito que gosto do corre-corre de Cannes, que é regozijante, de certa maneira. É que durante o festival é impossível ir à praia...pelo menos pra mim. Praia só o Rio, e quando dá. Sou exigente com essas coisas, isso eu admito também. Quando eu volto pra lá...

Com os meus amigos! Purumpum!
Eu vou lá com meus amigos!
Margem direita, ta tá tá!
Pu pu, pu pu bli cá!
Bãm-bão, mestre-macarrão!
Critica meu prato, senhor sabichão!
Veio um, veio dois, movimentão!
Margem esquerda, preste atenção!
Mas só isso não bastará!
Cansei de só degustá! (e odiá!)
Para fazer a massa
fazer a massa é facil fazer a massa
vamos todos fazer a massa
e melhorar pra massa
a mensagem que a gente passa
é a da união!
a gente come nosso próprio macarrão!
criticar o freezer com nossas
ferramentas de televisão!
e achar que com isso a gente é
bom de garfo, bom de cozinha,
bom de garfo, bom de cozinha
bom de garfo, bom de cozinha
Ah, a Croisette.

20090625

Atividade_8: Árido Movie

índia flor-de-lis
cai outono, pede bis
opulento colo.

20090531

A TODOS: alistamento

oi, tudo bem? você sabe que eu faço cinema, né? então, tou trabalhando numa produtora há um tempo, como assistente de direção, participando de várias filmagens, tá muito legal, tou aprendendo bastante e até que ganhando bem. enfim, tou procurando gente pra atuar em uns filmes que a gente vai rodar em julho. se chama Vadias e Pau grande, a gente tá pagando 50 mil pra mulher e 30 pra homem. tá afim?



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20090525

DELÍRIOS DA CLASSE PODRE - feminismos de butick e piadas de descarga

O cinema nacional tem uma característica muito clara: ele é como que baseado no social, seja pelo lado bom ou pelo lado ruim. O lado bom da base social do nosso, digamos, "cinema nacional" (não acredito nessa 'unidade', que acho necessária para um país se constituir como uma nação que pode, talvez, definir um cinema próprio dela mesma e acho que o brasil não tem) é que ele espõe mazelas - os podres, por assim dizer - que os anos e anos de escravidão - voltando muito no tempo, mas o que me parece preciso nesses instantes - e exploração do povo trouxe, e geralmente, a tela do cinema vem como que um CARIMBO pra autenticar que essa mazela existe e deve ser sarada.

O lado ruim acho que está explícito: vende pelo mundo afora que somos um país subdesenvolvido, de terceiro mundo sub-saariano, uma republiqueta de bananas corrupta em que só os negrinhos do morro tem poder. Um erro grave, ao meu modo do ver. Nósso país não é isso, está longe de ser só isso, São Paulo é uma metrópole de fazer inveja às européias (em Paris, quando estive lá, vi que todos os restaurantes fecham às onze horas - situação impossível na capital paulista, coração econômico). Esse é o lado que não é mostrado no geral.

Com muita satisfação o público recebe então um filme como "Divã", ad priori. Como que uma forma de de-sufocar o 'cinema nacional' (que com raras excesções, como essa e talvez a linha Renato Aragão, Xuxa, etc. e o fenômeno Se Eu Fosse Você) tirando do universo da favela-morro, a trama que concatena as cenas; é uma forma de trazer para as telas a classe média, média-alta.

Lília Cabral é uma mulher de meia idade, classe média, meio feliz, meio triste, cujo casamento vai bem nas aparências e no consciente dela mesma, mas que esconde, no subconsciente, uma grande insatisfação.

Temas-tabus, chocantes, são abordados de um modo muito saudável que parece querer deixar tudo em pratos limpos também no mundo do público-alvo (justamente as mulheres de meia idade). Masturbação é discutida, ela fala sem grandes constrangimentos, e transforma em piada o desconforto que isso causa em certas mulheres e em outras. Lília Cabral se masturba pensando em Mel Gibson (índice de nossa dependência imperialista: por que não colocar que a personagem se masturba pensando em Herson Capri, em Marcos Palmeira?) , e sua amiga que estranha um pouco as liberdades da amiga, ao final, morre. Mas não é uma morte punitiva, é uma morte bonita, mais uma forma de aceitar as coisas da vida. Tudo isso acompanhado da figura-chave: o analista.

O analista-espectador (e é aqui que está o pulo do gato: somos nós os analistas, que assistimos á vida da protagonista, pelo olhar filtrado, é claro, mas nós que analisamos e pensamos sobre ela), que sabiamente não aparece em quadro (apenas em uma brincadeirinha final) faz com que Lília Cabral se modifique aos poucos, libertando-se das amarras de sua condição de boa-esposa-classe média. Ela fuma maconha, em ato não-condenado, ela tem um caso -enquanto é casada - com um rapaz mais jovem (o sempre galã Reynaldo Gianechinni), não tem medo de ser vaidoza.

Tudo seria uma amostra de avanços na mentalidade cinematográfica do cineasta brasileiro: sem pretensões de crítica social, mostra uma mulher realmente moderna, e sem que seja criticada por isos, e sim feliz, uma "diva (~)". Mas e qual o sentido verdadeiro do filme?

O público das salas não ri das piadas que são realmente engraçadas. O que chama a atenção e o que faz o público-alvo gargalhar é Lília Cabral fingindo estar corcunda na balada, ela pulando gritando "Tô na vibe!" ou parecendo estar se masturbando (novamente) na cabine do banheiro.

Será que o público então não percebe os verdadeiros avanços e ri das piadas de descarga? Será que todo o progressivismo do filme passará por um simples desfile de roupas classe-média de boutick barata? Temo ser esse o destino deste filme de nossa cinematografia. Se assim for...qual o sentido?