20110731

Carta aberta a Ferreira Gullar:

Ferreira Gullar choraminga na Folha que atribuem o seguinte aforismo dele a outras pessoas (como Drummond, Machado, Gonçalves Dias): "A crase não foi feita para humilhar ninguém".

Num trecho do texto, ele diz que "essa mania de inventar aforismos veio dos surrealistas, que faziam uso deles com irreverência".

Gullar, Gullar, se houvesse alguma irreverência surrealista no senhor, a atribuição cruzada o divertiria.

Mas você só é uma velha chata.

Disse meu amigo Marcelino Freire, lá na Mercearia.

20110730

Falando sobre literatura de descrição, eis a descrição do inferno:

"Entre as atrações musicais, o telão exibiu uma apresentação de Frank Sinatra e Tom Jobim nos Estados Unidos em 1967, cantando "Garota de Ipanema" em português e inglês, enquanto Daniel Jobim, neto do maestro, acompanhava ao vivo no Rio na voz e no piano. A cantora baiana Ivete Sangalo também foi ao palco cantando "Acelera Aê" e "Aquarela do Brasil", acompanhada pela Orquestra de Heliópolis, composta por crianças da maior favela de São Paulo."

Falando em livros, algo me acomete na madrugada. De perceber o livro acabando, e a narrativa num crescente sem precedentes. Quase uma desfeita do autor, nem mesmo deixando capítulos ruins no meio, jogando alguma preguiça no terreno. E de repente o casal que tanto lhe apeteceu se desloca para a derradeira... puxa, lá se vai uma boa companhia.

E não digam que reler ajuda, ou auto-ajuda, pois é apenas zerar a máquina e girar até o mesmo derradeiro precipício de decisões e lugares transitórios. Tantas páginas e detalhes contidos num conjunto mais ou menos delimitado, que bate uma tristeza assim de se pegar no meio da noite lendo-o de trás pra frente e não o contrário como supostamente nos faria felizes, trapaceando com o tempo e com as decisões apaixonadas das personagens.

Até mesmo McCord. Bate uma saudade de sua descrição, de sua conversa raivosa naqueles bares decadentes, imemoriais, ao menos para nós, citadinos cinzentos.

E de ver, na página 174, sem lembrar de ter lido antes, a primeira indicação dos olhos verdes de Charlotte, o que me faz pensar justamente no post quase-abaixo deste quando se refere ao delay descritivo. Diria que imaginei castanhos, mas quando lido verdes o próprio castanho muda de cor, uma correção na memória, ativa, como se de repente sempre fôssemos felizes na infância, sempre vitoriosos com as mulheres. Um leve deslize do tempo, paradoxal, que desmancha o olho castanho e esverdeia alguma coisa mais importante. Talvez até mesmo o autor tenha dito castanho no início do livro, e a culpa seja inteiramente dele. Mas não importa. Quando seguimos o fluxo (quando o fluxo menstrual se torna elemento existencial-estrutural de um modo de escrever) não importa a ordem, mas como ela se desordena; sim, a ordem dos fatos altera o produto, mas triste mesmo é acabar um livro explosão.

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20110729

poema para anular a distância:

perto de você
(no verbo, nas costelas)
sinto, de certo, certeza

Um escritor menciona uma personagem secundária duas ou três vezes. Cinco páginas depois, quando eu já a tinha pronta na cabeça, ele resolve descrevê-la. Em detalhes. "Dedos longos", quem quer saber isso? Mais: o narrador a encontra em um escritório, troca meia dúzia de "palavras pequenas, funcionais" e já sai dizendo que ela "media um metro e setenta e pesava sessenta e dois quilos". Sério? Sessenta e dois? O cara tinha uma balança com ele e tirou as medidas entre uma palavra curta e outra funcional? Fora que... De que isso me adianta? Vou ter que achar alguém com essas medidas pra calcular quão magra a fulana (que eu já tinha toda imaginadinha) deveria ser?
Cuidado com essas coisas, pelamor.

20110728

A Folha.com.br tem monitorado e se inspirado nesse blog.

Ontem foram divulgados alguns nomes de vítimas do lokão noruega. De posse disso, eis que a folha chuta o balde e apela:



Clicando, tem uma série de pessoas normais, até um gordinho. Mas parece que as loiras de olho cristalino e perdidos, além de covinhas ohmeudeus acabam por aí.

Será que o jornalismo não podia ser só jornalismo?

20110722

Enquanto isso, em uma van prestes a se envolver em um acidente em uma estrada na Guatemala...

"You know, I like books that can teach me something, that give me information. I never read fiction."

sobre tudo,
sobretudo
sobretudo.

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20110719


I did it for the toys.

 

Não apenas se recomprovou a existência em 2011 do efeito Kulechov, como também se montou um belo quadro que pode ser admirado pelas famílias que nutrem apreço pela descoberta humana. O horror da morte também possui sua beleza, bem como sua emoção pode ser explicitada pelo recurso do campo (vemos uma árvore ao fundo na densa neve) e contracampo (o horror da morte por animais selvagens da neve sob suéter).


O tableaux que vemos a seguir se refere justamente ao efeito que se comprovou ativo na atualidade apesar das suspeitas de que o efeito Kulechov havia se dissipado em 1983 após medições equivocadas de Henrich Mikaelh e Ram-Tsa-Kah, falecido em maio passado. Observamos objetivamente que de acordo com o sentido estabelecido no segundo contracampo, a neve não causaria males aos seres que ali vivem se estes se protegessem de acordo com seu alto grau de luminosidade, permitindo eventuais fugas de animais selvagens, bem como a prevenção de acidentes com planadores de neve automotivos.

A pesquisa concluída em junho de 2011 permanece inédita, atualmente sob o domínio© do pelotão brasileiro de cientistas juvenis® e em negociação com blogs acadêmicos.

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20110717

3 mortes horríveis

último verso para anular o poema:

jogo os gestos — que pele bonita! — no dia aberto

20110715

haicai para anular o tema:

chega de cinturas
de falar de nosso jogo

que dia bonito!

20110713

poema para anular o último verso:

na sua cintura descubro
o seu corpo da coberta
descoberto, ele esfria
(coberto pela mão, sua)

inegável que eu incido
na repetição: de gestos,
de restos, de descobertas,
de traços sobre sua pele

cubro, Berta, fria, sua
incidem os gestos na pele aberta

Um rascunho

(Como o Quadrinhos Rasos não aceita sugestões, resolvi esboçar uma ideiazinha. Preguiçoso e medroso de fazer os desenhos eu-mesmo, roubei-os todos do Daniloz, quadrinista da Folha, da FAU e deste blogue. Infelizmente, embora tenha, por alguma razão, colocado um banner dizendo que não tem banners no blog, o Daniloz não explicitou sob que termos são disponibilizados seus desenhos e textos. Como acreditamos na LIBERDADE ACIMA DE TUDO, resolvi que isso não seria empecilho desde que ele não fique sabendo desde que meu uso seja justo. A baixa qualidade decorre da minha inépcia, e não, de jeito nenhum, das fontes em que bebi.)



20110712

estratégias para a vida (parte 4 de 13?)


VI - Há algum tempo trabalho no C. e tenho que responder muitos e-mails, várias vezes para mais de um destinatário de sexos diferentes. Sempre me embananei para decidir se mando "beijos", "abraços", "Um abraço!" ou o quê para as pessoas. Muitos fatores pesariam para a decisão: proximidade, sexo, tipo e conteúdo do e-mail etc. Há um pouco mais de um ano, decidi, sempre que ficasse em dúvida, mandar o seguinte ao fim dos e-mails:

bs.

VII - Minha mãe fazia (e ainda faz, se eu pedir) gemada para mim sempre que eu ficava doente. Sou apaixonado pelo gosto dos ovos, especialmente pelo da gema. Assim, a gemada sempre foi uma espécie de "power-up" para mim. Desenvolvi uma nova receita (gema, duas colheres de leite condensado, completar meia caneca com leite, esquentar) que parece exata para me satisfazer. Sinto-me um homem de verdade após tomar o primeiro gole. Dura só até o fim do quentinho.

20110711

meta nº1

O exercício de explicar alguma coisa – dar-lhe uma causa – consiste em escolher um motivo hipotético, dentre vários possíveis, e elaborá-lo. Às vezes isso acaba por revelar, mais do que o motivo da coisa qualquer, algo de substancial sobre o próprio “agente causador”.


Pensando em por que não escrevo “literatura” - muito embora o quisesse sinceramente - cheguei a conclusão de que me falta matéria. Não que não viva, tampouco que não habite o mundo; parece-me, no entanto, que não vivo em nenhum lugar. Ou melhor, que vivo em um solo vazio, em um não-lugar. Não possuo o Sertão de Guimarães nem o EUA de Faulkner: não possuo a cidade onde resido, São Paulo.


Livrar-me de culpa seria injusto: não percorri minha cidade com lupa, atentando aos costumes, a fala, ao pensamento. Mas, também, quem percorreu? São Paulo, parece-me, é uma grande massa amorfa. É gigante, de tamanho tal que não permite mesmo qualquer resolução, nem qualquer pesquisa. Seu gigantismo é um misto de pluralismo – ao que atentam os otimistas – com algo de inautenticidade. Nós, os paulistanos – e aqui me contradigo, claro, ao afirmar que a cidade é amorfa e logo em seguida falar de seus habitantes como tipos bem definidos – falamos pouco da nossa cidade. Gosta-se mais de Paris, Nova Iorque, Buenos Aires. Também gosta-se do Guarujá ou da Riviera de São Lourenço, variando conforme a renda mensal. Quando falamos de São Paulo, somos quase provincianos: falamos de nosso bairro. Da esquina de nossa casa, dos bares por ali, da videolocadora. Mas, pudera, em uma cidade desse tamanho ir para certos lugares não difere muito, ao menos espacialmente, de viajar.


Tudo isso nos faz inautênticos. Parece que há, agarrado às pedras, ruas, asfalto das cidades uma espécie de caldo poético que define do que e como podemos falar. Ninguém duvidará do grau de angústia de Raskólnikov, em meio as troikas, samovares e rublos da Rússia dostoievskiana. A tristeza parece escorrer-se pelas ruas de Lisboa na poesia de Álvaro de Campos, embalada pela guitarra portuguesa. Mas seria possível imaginar Bruno, na Avenida Paulista, questionando a existência de Deus e sondando a falta de sentido de todas as cousas? Parece que não. Parece que Bruno, Av. Paulista, comporte apenas uma existência que é um misto de referências em cacos trazidas de outros portos. Uma construção de si que é a coleção de memórias alheias, que em nada lhe pertencem. Ainda assim, São Paulo parece ser uma cidade meditativa (existem as meditativas e não-meditativas, segundo o Homem do Subsolo). Seria isso apenas uma prova cabal de nossa “síndrome de vira lata”? Parece que não, parece que não temos mesmo do que falar – que seja nosso, é claro, porque se fala em francês, inglês, russo em cada canto de nossa efervescência cultural.


Em São Paulo, somos todos atores: do all star vermelho com jeans apertado na rua augusta ao capuz que esconde a cara do “mano”. Só que isso não revela nenhuma verdade universal sobre o homem. Não revela que a inautenticidade é o cerne da vida nas cidades, ou mesmo da vida em sua potencialidade. Revela, apenas, que São Paulo – cidade das mil máscaras – possui um rosto por detrás de todas suas máscaras: outra máscara. (D)escrever São Paulo parece impossível: cidade sem centro gravitacional, palco da translação louca de signos vazios a que não se sucede ordem. Cidade dos acidentes, não da substância.


Sinto que a acabei de (tentar) fazê-lo. Toda escrita, claro, tem um quinhão de paradoxo.

resumo da ópera:

Orgu...































20110709

[nome] :
cara
esa tá en piroe notiued a inha vida

Otro De Mello Tiago:
oloko [nome]
quer falar que há?

[nome]:
piro noue d amuinhv uida
ru to completamentoe bedao

Otro De Mello Tiago:
sei

[nome]:
a amuikehr que eu amo vou tudo

Otro De Mello Tiago:
dá pra perceber.

[nome]:
vou dormir
boa bnoite
ti
é a pruoe oute da minhavida
ela viu tudo
ela iu tofd

Otro De Mello Tiago:
pois é cara
devia tomar mais cuidado...
mas amanhã cê resolve isso

[nome]:
,meu
ela ivu tudo]ep
ela viu tudop

Otro De Mello Tiago:
amanhã você conversa com ela cara..

[nome]:
eu tom muito engenharonahdo
as pesssoa sviram eu crando]
todas as pessas vram eu horando]
ti]

Otro De Mello Tiago:
agora já foi menino... relaxa...

[nome]:
eu naoi maguyejnt0 mais sofrer]
ti]
]wsyn bnOWY fywrom nU
RI]3
WU NO RBOE Nuaidreas]

20110706

FEAR

By Nancy Tune

I am afraid my cancer will come back. I am afraid I will not be ready for it, that I will not behave gracefully as I die. That is not exactly right. I am afraid I will behave disgracefully as I die, especially if there is a lot of pain. There are cancer patients about whom people say, “She had a lot more pain than she let on.” I am afraid they will say about me, “She just didn’t deal with pain well. Not nearly as well as —— did.”

I am afraid my husband, whose advanced Parkinson’s has robbed him of his physical and mental well-being, will die. I am afraid my husband will not die, that we’ll go on like this forever, cobbling together our days and nights into a bearable routine, sometimes stumbling and failing and finding that we cannot bear it after all. I am afraid of realizing, over and over, that there is no alternative but to act as if we can bear it.

I am afraid I will never write again, or that I will write and write and never produce anything worthwhile. I am afraid I won’t have the energy to rewrite and rethink and make decisions about what I have already written. I am afraid other people will think that what I write is silly. I am more afraid, though, that when I am done, I will think that what I write is silly.

I used to be afraid that the plane would crash. Now that seems odd. What is a plane crash but freedom from the real fears? For me, it turns out, it’s not dying that scares me; it’s what happens as you run out of time.

duas mortes

Photobucket

20110705

Por que me olhas assim, Lucrecia?



Pois quando assim me olham, penso coisas que não devia.

IMORTALIDADE

Como eles podem imaginar que vão matar alguém?
como se mata CAPITÃO GANCHO?
como se mata NAPOLEÃO?
como se mata HANNIBAL*?
vão matar o HULK?
pego meu dvd e LÁ ESTÁ ELE SALTANDO POR AÍ novamente.
pego meu quadrinho e MUITAS HISTÓRIAS EU POSSO LER.

não funciona assim, colegas. não funciona assim. esses meninos é que entenderam tudo.





*não gosto do Anthony Hopkins.
*imagem: aqui.

20110704

apócrifo espacial


Do olho aos chifres, a viagem lhe consome;
existe amor entre fantasmas?
lembrete, lembretes, reunir de uma vez só, num laço de edificações, tantas coisas possíveis simultaneamente, na ponta da língua, prestes a, cair em escombros, simultâneos, considerados no todo,

um vento leve sopra, e o que devia ser um planeta se transforma num casebre de madeira podre,
um vento leve sopra, e não amarrei o laço

puxa esqueci!.