as minhas palavras
não dizem
o que eu digo
elas dizem o que elas dizem
e eu apenas silêncio.
a minha voz não é abraços
não é beijos
não é amor
minha voz é só.
não sei mais entender
nem pensar
quero apenas um outro
qualquer
agora.
na rua do lado tem um castelo
- bonito e medieval e fantástico -
dentro dele tem uma pista de dança
- dinâmica e estroboscópica e venal -
nela tem uma moça
que nunca vai me perdoar
- e eu não sei a categoria do meu pecado.
juro ser bom
juro ser puro
juro ser santo
mas meu vício é pensar
em labirintos
e em torres
e então não sei mais.
tento sussurrar amor
meus punhos tateiam paz
sonho futuros
de hortelã
bêbado em uma poça de nada.
e então vomito idiotices sobre minhas intenções mal realizadas
buscando uma redenção dos covardes preguiçosos
e finjo dormir bem
porque senão
senão.
eu durmo na cruz porque a cama está longe.
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20120107
20111209
Análise crítica e reflexão sobre o vídeo "Escolinha do Pedagogo Alquiminto"
http://www.youtube.com/watch?v=VtyBlvhOX3A vídeo analisado
A arte política não é apenas panfleto - essa é uma acusação feita pelos seus detratores, e é uma acusação de tanta carga político-ideológica quanto a arte atacada. Fazer arte política não é musicar uma propaganda partidária nem dançar enquanto se recitam as teses de Marx - ao menos não só; a arte política é aquela que reflete e pensa criticamente o seu próprio tempo e produz conteúdo de valor estético-formal que remeta à "realidade" e tome posições diante dela.
Isso posto, deixo claro logo de início que considero louvável a produção de vídeos que se proponham a refletir sobre tudo que tem ocorrido na USP: é necessário que criemos contrapontos à Versão Oficial dos fatos, que expressemos nossos olhares sobre o que aconteceu e nossas exigências. Levando em conta a minha visão (acima expressada) acerca de arte política, considero necessidade básica que os vídeos produzidos não se valham apenas pelo "conteúdo" (se é que isso existe): se vamos criar "objetos artísticos de protesto", é óbvio que a estética segundo a qual eles existem seja tão pensada quanto "o que eles dizem" - ainda mais se tratando de uma peça ficcional, e não uma reportagem ou um ensaio.
Nesse sentido, considero o vídeo problemático em diversos aspectos.
A suposta "paródia" dos programas de tv do tipo "Escolinha do Professor Raimundo" e similares não é, em si só, um problema - a paródia é reconhecida como arma efetiva de crítica e ridicularização de idéias há tempos. A questão aqui é: o que estamos parodiando? Programas como "Escolinha" se baseiam em uma situação supostamente ordeira (aula) que se revela proto-anárquica, com a presença de diversos "tipos" engraçados e a falta de controle do professor sobre os alunos - é, basicamente, humor de personagem e de situação. A paródia realizada não parece compreender isso muito bem, apenas absorvendo o cenário - escola - e o título, sem emular verdadeiramente o "espírito" do programa. Constrói-se uma situação onde o único personagem verdadeiro é o professor (paródia de Geraldo Alckmin? é impossível saber: afora o nome ("Alquiminto"), não há nenhum tipo de estabelecimento de paralelos com o governador, nem com suas idéias, nem mesmo com o seu físico. tudo que vemos é um professor gritalhão e desagradável.), onde os alunos são rostos apagados, máscaras* ou corporificação de idéias básicas. Paradoxalmente, dessa maneira, dá-se muito mais "poder" ao professor do que nos programas parodiados - como só ele fala e tem personalidade definida, é apenas a sua presença que domina o vídeo.
(* abro aqui um parêntese para comentar as máscaras: o que elas significam? colocar os "rostos" de "inimigos" dentro de uma classe apática e aparentemente não alinhada ao professor totalitário não faz muito sentido - teoricamente, datena, rodas e quetais estariam totalmente aliados ao governador e não necessitariam de "aulas de democracia" para se colocarem ao seu lado. além disso, acredito que o rosto de reinaldo azevedo seja bem pouco conhecido e a sua presença lá acaba se tornando uma espécie de "piada interna" pouco interessante - ainda que eu o despreze etc.)
O problema principal que vejo no vídeo é, no entanto, um só: indecisão. Sendo grosseiro, existem duas modalidades possíveis de arte política: radical-revolucionária e reformista-controlada. As duas são válidas e cada uma tem prioridades diferentes: o primeiro modelo pressupõe-se mais objeto artístico do que necessariamente objeto de conscientização - há uma certa "integridade" por trás da obra proposta que não será violada nem "diluída" na tentativa de torná-la mais acessível/palatável a mais gente. Não há absolutamente nada de errado quanto a isso: existem exemplos históricos de arte radical bastante louvável, desde diversas bandas punks que não pretendem buscar consenso até os filmes do casal Straub-Huillet, de teor marxista-materialista inveterado que não se rende a concessões "clássicas" sobre narrativa ou espetáculo. É importante notar, no entanto, que essas obras pautam-se pelo encontro de um conteúdo radical aliado a uma estética tão extrema quanto - uma noção que vem fortalecida desde a arte revolucionária soviética. Cria-se um objeto que não só "diz" revolução mas também "é" revolução.
O segundo modelo, de "conciliação", teria uma preocupação maior com um suposto contato com o público-alvo e a transmissão de idéias de maneira talvez "homeopática" - evita-se a violência das verdades gritadas e procura-se o caminho do convencimento gradual. Nesse caso, adotam-se modelos formais já convencionais e reconhecíveis, numa tentativa de acesso ao público por uma via que ele já conheça - é o caso, por exemplo, de reportagens que emulem os formatos da grande mídia, de documentários como "Uma Verdade Inconveniente", etc. Procuramos mostrar "o nosso lado" de uma maneira que evoque as fabulações já propostas pelo "outro lado".
O que o vídeo analisado parece fazer, para mim, é bambear entre essas duas propostas sem ter certeza do que pretende. No sentido de "conciliação", adota um formato pretensamente reconhecível - a paródia de um programa televisivo familiar a grande parte da sociedade brasileira. No sentido "radical", a retórica adotada é extremamente violenta e cheia de gritos. No sentido de "conciliação", há um momento extremamente didático de explanação de porque certas atitudes seriam anti-democráticas. No sentido "radical", há a reprodução de imagens bastante violentas e perturbadoras (tortura, insinuação sexual forçada, etc). O resultado final acaba sendo esquizofrênico - um vídeo que, do nosso lado, só traz os gritos e o ódio, mas cujo formato é uma emulação precária do pior que o formalismo-conservador tem a oferecer.
Eu não seria contrário a um vídeo que fosse puro ódio - ainda que não saiba exatamente a que "propósito" se prestaria, que não seja o da arte extremamente individualista e pessoal -, caso ele se inspirasse em formas verdadeiramente diferentes e radicais e novas. Eu não seria contrário, também, a um vídeo "proselitista" que emulasse formatos "batidos" na tentativa de comunicar uma idéia que precisa urgentemente ser comunicada. O que me incomoda nesse caso é que o vídeo realizado parece não ter "função" alguma.
Como objeto-artístico-em-si-só, é de realização precária e confusa - a decupagem alterna entre o utilitarismo do plano geral-plano detalhe sem se propôr nem à paródia bem realizada da estética dos programas televisivos (que têm suas especificades), nem a uma tentativa de outra estética nova ou pensada, que fuja um pouco do básico-lavado imposto ao mundo pelas câmeras digitais de alta-definição. Há momentos de pura confusão estética: o interlúdio "bossa-nova", o trecho regado a música erudita (e o aparente regojizo frente às imagens de violência), o final "quebrando a quarta parede" que parece desconexo do resto do filme, etc. As piadas parecem evocar apenas o mais pueril e vulgar e simplista da programação de comédia da tv aberta, numa operação que acaba associando essa vulgaridade às "idéias" que tentamos propagar - quando, no fim, faz-se a piada com "dedo no cu", não estamos sendo quebradores de paradigma nem revolucionários: estamos apenas perpetuando um discurso vulgar, simplista e reacionário quanto a sexo e corpo, agora associado aos "nossos ideais".
Como objeto-político-de-conscientização, é um produto extremamente confuso: assisti o vídeo algumas vezes e ainda tenho dificuldade em compreender o que ele "quer dizer", afora talvez "Não gostamos de Geraldo Alckmin.". Não há nenhum momento real de discussão ou refutação de idéias, de reflexão sobre os acontecimentos ou mesmo de esclarecimento real sobre "qual é a questão": o instante mais "sério", a pergunta do personagem "Pedrinho", perde a maior parte da sua força por ser direcionada a um interlocutor tão obviamente estúpido (a ponto de não representar absolutamente nada) e por ser executada de maneira ultra-didática-professoral que destoa agressivamente do resto do vídeo. A impressão passada pelo conteúdo do vídeo é que nós, alunos da USP, odiamos alguma visão distorcida de Geraldo Alckmin (embora nem saibamos direito o que ele acha ou pensa) e não temos nada a propor ou falar sobre isso. Esse procedimento, aliás, de ridicularizar o interlocutor e atribuir a ele idéias estúpidas para mais fácil refutá-las tem um nome, "Falácia do Espantalho", e é uma das estratégias mais comuns da chamada "mídia golpista" que tentamos criticar (é só pensar na palavra de ordem "Ah, mas que vergonha/achar que a greve é por causa da maconha", que só existe para refutar esse tipo de simplificação sobre o nosso movimento).
Não escrevo isso com o intuito de ridicularizar nem de destruir: proponho apenas uma reflexão sobre o vídeo, suas características e seus objetivos: no meu contato com a obra, a impressão que ficou foi de algo de teor extremamente vulgar, pouco pensado, sem objetivo claro e cujo "efeito" final, caso tenha algum contato com o "público", seria apenas o de associar a nós uma imagem raivosa, pouco construtiva, nada aberta ao diálogo e incapaz de criar um discurso coerente e atrativo.
Gostaria que pensássemos: o que queremos obter com a nossa "produção de greve"? Gostaria que refletíssemos no intuito de criarmos obras que sejam reflexo do que pensamos: que explorem novos formatos, que explorem novas idéias e que procurem, verdadeiramente, um diálogo e uma maneira de expormos O Que Vemos E Pensamos Aqui Na Usp. Não quero uma arte "coxinha" nem "pelega": não acho que devemos apenas emular formatos jornalisticos e nos portarmos como "bons meninos" - isso não seria justo nem interessante. Acredito que seja possível, no entanto, praticarmos uma arte que seja "nossa", genuinamente, e que seja baseada nas nossas preocupações estéticas e políticas sem se render ao ódio fácil e "espontâneo" e pouco pensado.
Guilherme Assis, 09/12/2011
Aluno do Curso Superior do Audiovisual - ECA - USP.
A arte política não é apenas panfleto - essa é uma acusação feita pelos seus detratores, e é uma acusação de tanta carga político-ideológica quanto a arte atacada. Fazer arte política não é musicar uma propaganda partidária nem dançar enquanto se recitam as teses de Marx - ao menos não só; a arte política é aquela que reflete e pensa criticamente o seu próprio tempo e produz conteúdo de valor estético-formal que remeta à "realidade" e tome posições diante dela.
Isso posto, deixo claro logo de início que considero louvável a produção de vídeos que se proponham a refletir sobre tudo que tem ocorrido na USP: é necessário que criemos contrapontos à Versão Oficial dos fatos, que expressemos nossos olhares sobre o que aconteceu e nossas exigências. Levando em conta a minha visão (acima expressada) acerca de arte política, considero necessidade básica que os vídeos produzidos não se valham apenas pelo "conteúdo" (se é que isso existe): se vamos criar "objetos artísticos de protesto", é óbvio que a estética segundo a qual eles existem seja tão pensada quanto "o que eles dizem" - ainda mais se tratando de uma peça ficcional, e não uma reportagem ou um ensaio.
Nesse sentido, considero o vídeo problemático em diversos aspectos.
A suposta "paródia" dos programas de tv do tipo "Escolinha do Professor Raimundo" e similares não é, em si só, um problema - a paródia é reconhecida como arma efetiva de crítica e ridicularização de idéias há tempos. A questão aqui é: o que estamos parodiando? Programas como "Escolinha" se baseiam em uma situação supostamente ordeira (aula) que se revela proto-anárquica, com a presença de diversos "tipos" engraçados e a falta de controle do professor sobre os alunos - é, basicamente, humor de personagem e de situação. A paródia realizada não parece compreender isso muito bem, apenas absorvendo o cenário - escola - e o título, sem emular verdadeiramente o "espírito" do programa. Constrói-se uma situação onde o único personagem verdadeiro é o professor (paródia de Geraldo Alckmin? é impossível saber: afora o nome ("Alquiminto"), não há nenhum tipo de estabelecimento de paralelos com o governador, nem com suas idéias, nem mesmo com o seu físico. tudo que vemos é um professor gritalhão e desagradável.), onde os alunos são rostos apagados, máscaras* ou corporificação de idéias básicas. Paradoxalmente, dessa maneira, dá-se muito mais "poder" ao professor do que nos programas parodiados - como só ele fala e tem personalidade definida, é apenas a sua presença que domina o vídeo.
(* abro aqui um parêntese para comentar as máscaras: o que elas significam? colocar os "rostos" de "inimigos" dentro de uma classe apática e aparentemente não alinhada ao professor totalitário não faz muito sentido - teoricamente, datena, rodas e quetais estariam totalmente aliados ao governador e não necessitariam de "aulas de democracia" para se colocarem ao seu lado. além disso, acredito que o rosto de reinaldo azevedo seja bem pouco conhecido e a sua presença lá acaba se tornando uma espécie de "piada interna" pouco interessante - ainda que eu o despreze etc.)
O problema principal que vejo no vídeo é, no entanto, um só: indecisão. Sendo grosseiro, existem duas modalidades possíveis de arte política: radical-revolucionária e reformista-controlada. As duas são válidas e cada uma tem prioridades diferentes: o primeiro modelo pressupõe-se mais objeto artístico do que necessariamente objeto de conscientização - há uma certa "integridade" por trás da obra proposta que não será violada nem "diluída" na tentativa de torná-la mais acessível/palatável a mais gente. Não há absolutamente nada de errado quanto a isso: existem exemplos históricos de arte radical bastante louvável, desde diversas bandas punks que não pretendem buscar consenso até os filmes do casal Straub-Huillet, de teor marxista-materialista inveterado que não se rende a concessões "clássicas" sobre narrativa ou espetáculo. É importante notar, no entanto, que essas obras pautam-se pelo encontro de um conteúdo radical aliado a uma estética tão extrema quanto - uma noção que vem fortalecida desde a arte revolucionária soviética. Cria-se um objeto que não só "diz" revolução mas também "é" revolução.
O segundo modelo, de "conciliação", teria uma preocupação maior com um suposto contato com o público-alvo e a transmissão de idéias de maneira talvez "homeopática" - evita-se a violência das verdades gritadas e procura-se o caminho do convencimento gradual. Nesse caso, adotam-se modelos formais já convencionais e reconhecíveis, numa tentativa de acesso ao público por uma via que ele já conheça - é o caso, por exemplo, de reportagens que emulem os formatos da grande mídia, de documentários como "Uma Verdade Inconveniente", etc. Procuramos mostrar "o nosso lado" de uma maneira que evoque as fabulações já propostas pelo "outro lado".
O que o vídeo analisado parece fazer, para mim, é bambear entre essas duas propostas sem ter certeza do que pretende. No sentido de "conciliação", adota um formato pretensamente reconhecível - a paródia de um programa televisivo familiar a grande parte da sociedade brasileira. No sentido "radical", a retórica adotada é extremamente violenta e cheia de gritos. No sentido de "conciliação", há um momento extremamente didático de explanação de porque certas atitudes seriam anti-democráticas. No sentido "radical", há a reprodução de imagens bastante violentas e perturbadoras (tortura, insinuação sexual forçada, etc). O resultado final acaba sendo esquizofrênico - um vídeo que, do nosso lado, só traz os gritos e o ódio, mas cujo formato é uma emulação precária do pior que o formalismo-conservador tem a oferecer.
Eu não seria contrário a um vídeo que fosse puro ódio - ainda que não saiba exatamente a que "propósito" se prestaria, que não seja o da arte extremamente individualista e pessoal -, caso ele se inspirasse em formas verdadeiramente diferentes e radicais e novas. Eu não seria contrário, também, a um vídeo "proselitista" que emulasse formatos "batidos" na tentativa de comunicar uma idéia que precisa urgentemente ser comunicada. O que me incomoda nesse caso é que o vídeo realizado parece não ter "função" alguma.
Como objeto-artístico-em-si-só, é de realização precária e confusa - a decupagem alterna entre o utilitarismo do plano geral-plano detalhe sem se propôr nem à paródia bem realizada da estética dos programas televisivos (que têm suas especificades), nem a uma tentativa de outra estética nova ou pensada, que fuja um pouco do básico-lavado imposto ao mundo pelas câmeras digitais de alta-definição. Há momentos de pura confusão estética: o interlúdio "bossa-nova", o trecho regado a música erudita (e o aparente regojizo frente às imagens de violência), o final "quebrando a quarta parede" que parece desconexo do resto do filme, etc. As piadas parecem evocar apenas o mais pueril e vulgar e simplista da programação de comédia da tv aberta, numa operação que acaba associando essa vulgaridade às "idéias" que tentamos propagar - quando, no fim, faz-se a piada com "dedo no cu", não estamos sendo quebradores de paradigma nem revolucionários: estamos apenas perpetuando um discurso vulgar, simplista e reacionário quanto a sexo e corpo, agora associado aos "nossos ideais".
Como objeto-político-de-conscientização, é um produto extremamente confuso: assisti o vídeo algumas vezes e ainda tenho dificuldade em compreender o que ele "quer dizer", afora talvez "Não gostamos de Geraldo Alckmin.". Não há nenhum momento real de discussão ou refutação de idéias, de reflexão sobre os acontecimentos ou mesmo de esclarecimento real sobre "qual é a questão": o instante mais "sério", a pergunta do personagem "Pedrinho", perde a maior parte da sua força por ser direcionada a um interlocutor tão obviamente estúpido (a ponto de não representar absolutamente nada) e por ser executada de maneira ultra-didática-professoral que destoa agressivamente do resto do vídeo. A impressão passada pelo conteúdo do vídeo é que nós, alunos da USP, odiamos alguma visão distorcida de Geraldo Alckmin (embora nem saibamos direito o que ele acha ou pensa) e não temos nada a propor ou falar sobre isso. Esse procedimento, aliás, de ridicularizar o interlocutor e atribuir a ele idéias estúpidas para mais fácil refutá-las tem um nome, "Falácia do Espantalho", e é uma das estratégias mais comuns da chamada "mídia golpista" que tentamos criticar (é só pensar na palavra de ordem "Ah, mas que vergonha/achar que a greve é por causa da maconha", que só existe para refutar esse tipo de simplificação sobre o nosso movimento).
Não escrevo isso com o intuito de ridicularizar nem de destruir: proponho apenas uma reflexão sobre o vídeo, suas características e seus objetivos: no meu contato com a obra, a impressão que ficou foi de algo de teor extremamente vulgar, pouco pensado, sem objetivo claro e cujo "efeito" final, caso tenha algum contato com o "público", seria apenas o de associar a nós uma imagem raivosa, pouco construtiva, nada aberta ao diálogo e incapaz de criar um discurso coerente e atrativo.
Gostaria que pensássemos: o que queremos obter com a nossa "produção de greve"? Gostaria que refletíssemos no intuito de criarmos obras que sejam reflexo do que pensamos: que explorem novos formatos, que explorem novas idéias e que procurem, verdadeiramente, um diálogo e uma maneira de expormos O Que Vemos E Pensamos Aqui Na Usp. Não quero uma arte "coxinha" nem "pelega": não acho que devemos apenas emular formatos jornalisticos e nos portarmos como "bons meninos" - isso não seria justo nem interessante. Acredito que seja possível, no entanto, praticarmos uma arte que seja "nossa", genuinamente, e que seja baseada nas nossas preocupações estéticas e políticas sem se render ao ódio fácil e "espontâneo" e pouco pensado.
Guilherme Assis, 09/12/2011
Aluno do Curso Superior do Audiovisual - ECA - USP.
isto é:
arte política,
crítica,
guilherme assis,
um grito de protesto,
vídeo
20111202
carta aberta a inimigos
é isso
que você quer semear?
areia jogada no asfalto?
seus dedos
já são calejados?
já morreram, viraram papiro?
seus olhos
já vitrificaram?
já aprenderam a ser telescópios?
sua boca
já apodreceu?
já arrombou-se a ponto de avesso?
seus pés
já são uma escada?
já alcançaram seu mau paraíso?
sua testa
já enobreceu?
já tornou-se um trono de piche?
seu corpo
já se vendeu?
já dilui-se em feira pagã?
o abismo da própria dureza
a jaula cavada no escuro
tristeza das mentiras desditas
espreitando sem crer sem futuro.
você
já nem existe.
você
tateia com unhas.
você
é uma abstração.
você
grasna sozinho.
você
não possui a palavra.
você
procura seus chinelos.
você
abdica de tudo.
você
vai sumir.
que você quer semear?
areia jogada no asfalto?
seus dedos
já são calejados?
já morreram, viraram papiro?
seus olhos
já vitrificaram?
já aprenderam a ser telescópios?
sua boca
já apodreceu?
já arrombou-se a ponto de avesso?
seus pés
já são uma escada?
já alcançaram seu mau paraíso?
sua testa
já enobreceu?
já tornou-se um trono de piche?
seu corpo
já se vendeu?
já dilui-se em feira pagã?
o abismo da própria dureza
a jaula cavada no escuro
tristeza das mentiras desditas
espreitando sem crer sem futuro.
você
já nem existe.
você
tateia com unhas.
você
é uma abstração.
você
grasna sozinho.
você
não possui a palavra.
você
procura seus chinelos.
você
abdica de tudo.
você
vai sumir.
isto é:
arte política,
carta aberta,
guilherme assis,
inimigos,
poesia
20111127
ode aos colunistas da folha ilustrada
oh!, como deve ser belo
ser um dos colunistas do caderno "Ilustrada" da Folha!
oh!, os heróis modernos
que se escondem na última página do caderno "Ilustrada" da Folha!
quando estou triste e quero me alegrar
leio os pensadores do caderno "Ilustrada" da Folha!
joão pereira coutinho, mestre da ironia
pena afiada
sangue português dos bons!
embeleza o caderno "Ilustrada" da Folha!
luiz felipe pondé, filósofo do contemporâneo!
homem que sabe pôr a mulher em seu lugar!
que sabe reconhecer os falsos intelectuais!
revigora o caderno "Ilustrada" da Folha!
(quando meu pai morreu
todos vieram ao enterro
e me abraçaram.
isso precisa ser dito!)
álvaro pereira júnior, messias dos jovens!
guia do futuro! líder infalível e apolítico! senhor do bom gosto e do bom tom!
enobrece o caderno "Ilustrada" da Folha!
ferreira gullar, poeta do porvir!
garrote das palavras! ancião da seriedade! homem renascido e bom!
amadurece o caderno "Ilustrada" da Folha!
marcelo coelho, analista do cotidiano!
rei do pormenor! embaixador da ciência belíssima!
obedece ao caderno "Ilustrada" da Folha!
contardo calligaris, psicólogo do absurdo!
mestre dos sonhos! senhor das acácias!
psicanalisa o caderno "Ilustrada" da Folha!
drauzio varela, doutor dos venenos!
conde da miséria! humanitário do destino!
cura o caderno "Ilustrada" da Folha!
chega o fim
desse poema
e desse engodo:
era um cavalo de tróia.
ó Deuses do cotidiano terrível
deixem-me dizer:
Eu vos perdôo!
sei que o que escrevem é trabalho
e que todos já fizemos coisas terríveis
pelo pão.
perdôo de pondé o machismo
e a vigarice
e a baixaria.
perdôo de joão a deselegância
a desonestidade
o desbunde.
perdôo de contardo o genérico
o enfadonho
o cansativo.
perdôo de coelho o desinteresse
os achismos
a mediocridade.
perdôo de varela os exageros
e a chatice
ainda que bem intencionada (??).
perdôo de álvaro a burrice
a velhice
o atraso.
perdôo de gullar a traição
o horror terrível de cada uma de suas rugas senis.
mas a verdade
é que não perdôo nenhum
e o mundo será melhor sem vocês.
ser um dos colunistas do caderno "Ilustrada" da Folha!
oh!, os heróis modernos
que se escondem na última página do caderno "Ilustrada" da Folha!
quando estou triste e quero me alegrar
leio os pensadores do caderno "Ilustrada" da Folha!
joão pereira coutinho, mestre da ironia
pena afiada
sangue português dos bons!
embeleza o caderno "Ilustrada" da Folha!
luiz felipe pondé, filósofo do contemporâneo!
homem que sabe pôr a mulher em seu lugar!
que sabe reconhecer os falsos intelectuais!
revigora o caderno "Ilustrada" da Folha!
(quando meu pai morreu
todos vieram ao enterro
e me abraçaram.
isso precisa ser dito!)
álvaro pereira júnior, messias dos jovens!
guia do futuro! líder infalível e apolítico! senhor do bom gosto e do bom tom!
enobrece o caderno "Ilustrada" da Folha!
ferreira gullar, poeta do porvir!
garrote das palavras! ancião da seriedade! homem renascido e bom!
amadurece o caderno "Ilustrada" da Folha!
marcelo coelho, analista do cotidiano!
rei do pormenor! embaixador da ciência belíssima!
obedece ao caderno "Ilustrada" da Folha!
contardo calligaris, psicólogo do absurdo!
mestre dos sonhos! senhor das acácias!
psicanalisa o caderno "Ilustrada" da Folha!
drauzio varela, doutor dos venenos!
conde da miséria! humanitário do destino!
cura o caderno "Ilustrada" da Folha!
chega o fim
desse poema
e desse engodo:
era um cavalo de tróia.
ó Deuses do cotidiano terrível
deixem-me dizer:
Eu vos perdôo!
sei que o que escrevem é trabalho
e que todos já fizemos coisas terríveis
pelo pão.
perdôo de pondé o machismo
e a vigarice
e a baixaria.
perdôo de joão a deselegância
a desonestidade
o desbunde.
perdôo de contardo o genérico
o enfadonho
o cansativo.
perdôo de coelho o desinteresse
os achismos
a mediocridade.
perdôo de varela os exageros
e a chatice
ainda que bem intencionada (??).
perdôo de álvaro a burrice
a velhice
o atraso.
perdôo de gullar a traição
o horror terrível de cada uma de suas rugas senis.
mas a verdade
é que não perdôo nenhum
e o mundo será melhor sem vocês.
isto é:
arte política,
guilherme assis,
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ode,
ódio,
poesia
20111123
um dia na praia com jesus
Jesus Cristo reencarnou na forma de um triângulo desenhado na areia de uma praia no Guarujá. Era um dia comum de outono. A praia não estava nem cheia nem vazia - havia banhistas o suficiente para que os vendedores habituais julgassem valer a pena trabalhar.
Ainda que Jesus concentre em si uma parte considerável da onipotência característica de seu Molde Primordial, o formato "desenho semi-bidimensional traçado na areia" traz consigo algumas dúzias de limitações, sendo possível logo de cara citar a invisibilidade para quem não olha para o chão, a fragilidade frente as intempéries do mundo e, sejamos francos, uma certa banalidade estética.
(Mesmo Jesus está sujeito à loteria cínica da reencarnação, pode um leitor mais sacana inferir. Não sei, não coloquem palavras na minha boca.)
Jesus é, porém, Jesus, e está carmicamente predisposto a lidar com desafios e situações desavantajosas, portanto, ao notar-se emplastrado na areia, pensou (com seus neurônios de silício): "Poderia ser pior" e pôs-se a fazer funcionar os seus poderes místicos.
De início, a autopreservação - irradiou uma aura que impedia (ou, sendo mais preciso, insistia fortemente) que passantes distraídos o pisoteassem e inadvertidamente obliterassem o salvador instantaneamente. Foi bem sucedido: um garoto correndo de uma ponta a outra da praia (sabe-se lá por quê) desviou seu caminho de maneira bastante antinatural, e Jesus sorriu (imaginariamente) aliviado e contente consigo mesmo. Percebeu, algum tempo depois, porém, que essa magia agia a favor e contra Seus desígnios: se, por um lado, salvava sua vida; por outro impedia que qualquer possível seguidor se aproximasse o suficiente para que pudesse ser influenciado. Jesus percebeu, não sem uma certa amargura, que, mais uma vez, sua eficiência como Homem Sábio estava diretamente ligada à sua capacidade de abnegação e sacrifício.
Levantou, então, seu campo de força, e esperou um pouco. Logo um vendedor de sorvete meio lânguido se aproximou e Jesus imediatamente violou a sua mente: "Irmão. Oi."
O vendedor, como era de se esperar, se assustou. Toda a gama de pensamentos que se associa com esse tipo de situação - tumor, loucura, aliens, FBI, sereias -passou por sua mente. Jesus tentou de novo:
"Irmão. Sou eu, Jesus. Olha pra baixo."
".........!!!!!!1111aaaaaaa"
"Tá vendo esse triângulo? Na areia? Sou eu, Jesus. Pois é, voltei. Daora, né?"
"!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!q"
"Eu. Jesus. Reenacarnei em forma de triângulo. Quero te contar algumas coisas sobre a vida."
"Q kralho q"
(Façamos uma pausa para notar que é extremamente difícil organizar pensamentos de maneira estética e gramaticalmente satisfatória, e que Jesus passara 300 anos estudando e meditando no céu para aprender a fazer isso, enquanto o sorveteiro jamais precisara de tal habilidade.)
"Bom. Vamolá. A regra de amar o próximo continua valendo. Acho que essa a gente nem precisa revisar. Continua bacana."
"+ e c o proxim for assassin/"
"Ele continua merecendo a nossa compreensão e amor pois somos todos filhos de Deus/Eu/Pai"
"mesmo c matah minha filia/?"
"Sim. Enfim. A próxima regra de ouro é:
(e nesse momento, assim como a natureza humana contaminara a divindade de Jesus 2011 anos antes, a natureza triangular começou a exercer sua influência)
o papel padrão pra impressoras tem que começar a ser triangular, e não retangular."
"q/"
"É. O papel triangular é esteticamente muito mais interessante e menos tedioso, e ainda dá pra juntar dois triângulos lado a lado e guardar mais eficientemente as folhas."
"ok"
"Além disso, todo sábado deve ser o dia em que as mulheres--
E então começou a chover e Jesus morreu e o sorveteiro fingiu que aquilo tinha sido só um derrame sem maiores consequências (e talvez tenha sido.)
Ainda que Jesus concentre em si uma parte considerável da onipotência característica de seu Molde Primordial, o formato "desenho semi-bidimensional traçado na areia" traz consigo algumas dúzias de limitações, sendo possível logo de cara citar a invisibilidade para quem não olha para o chão, a fragilidade frente as intempéries do mundo e, sejamos francos, uma certa banalidade estética.
(Mesmo Jesus está sujeito à loteria cínica da reencarnação, pode um leitor mais sacana inferir. Não sei, não coloquem palavras na minha boca.)
Jesus é, porém, Jesus, e está carmicamente predisposto a lidar com desafios e situações desavantajosas, portanto, ao notar-se emplastrado na areia, pensou (com seus neurônios de silício): "Poderia ser pior" e pôs-se a fazer funcionar os seus poderes místicos.
De início, a autopreservação - irradiou uma aura que impedia (ou, sendo mais preciso, insistia fortemente) que passantes distraídos o pisoteassem e inadvertidamente obliterassem o salvador instantaneamente. Foi bem sucedido: um garoto correndo de uma ponta a outra da praia (sabe-se lá por quê) desviou seu caminho de maneira bastante antinatural, e Jesus sorriu (imaginariamente) aliviado e contente consigo mesmo. Percebeu, algum tempo depois, porém, que essa magia agia a favor e contra Seus desígnios: se, por um lado, salvava sua vida; por outro impedia que qualquer possível seguidor se aproximasse o suficiente para que pudesse ser influenciado. Jesus percebeu, não sem uma certa amargura, que, mais uma vez, sua eficiência como Homem Sábio estava diretamente ligada à sua capacidade de abnegação e sacrifício.
Levantou, então, seu campo de força, e esperou um pouco. Logo um vendedor de sorvete meio lânguido se aproximou e Jesus imediatamente violou a sua mente: "Irmão. Oi."
O vendedor, como era de se esperar, se assustou. Toda a gama de pensamentos que se associa com esse tipo de situação - tumor, loucura, aliens, FBI, sereias -passou por sua mente. Jesus tentou de novo:
"Irmão. Sou eu, Jesus. Olha pra baixo."
".........!!!!!!1111aaaaaaa"
"Tá vendo esse triângulo? Na areia? Sou eu, Jesus. Pois é, voltei. Daora, né?"
"!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!q"
"Eu. Jesus. Reenacarnei em forma de triângulo. Quero te contar algumas coisas sobre a vida."
"Q kralho q"
(Façamos uma pausa para notar que é extremamente difícil organizar pensamentos de maneira estética e gramaticalmente satisfatória, e que Jesus passara 300 anos estudando e meditando no céu para aprender a fazer isso, enquanto o sorveteiro jamais precisara de tal habilidade.)
"Bom. Vamolá. A regra de amar o próximo continua valendo. Acho que essa a gente nem precisa revisar. Continua bacana."
"+ e c o proxim for assassin/"
"Ele continua merecendo a nossa compreensão e amor pois somos todos filhos de Deus/Eu/Pai"
"mesmo c matah minha filia/?"
"Sim. Enfim. A próxima regra de ouro é:
(e nesse momento, assim como a natureza humana contaminara a divindade de Jesus 2011 anos antes, a natureza triangular começou a exercer sua influência)
o papel padrão pra impressoras tem que começar a ser triangular, e não retangular."
"q/"
"É. O papel triangular é esteticamente muito mais interessante e menos tedioso, e ainda dá pra juntar dois triângulos lado a lado e guardar mais eficientemente as folhas."
"ok"
"Além disso, todo sábado deve ser o dia em que as mulheres--
E então começou a chover e Jesus morreu e o sorveteiro fingiu que aquilo tinha sido só um derrame sem maiores consequências (e talvez tenha sido.)
20110919
renascença cristã no burburinho
Duas pessoas sentadas são essencialmente um conluio, conspiração - ainda que não saibam. Adicionando-se álcool, os acordos & planos se tornam ainda mais confusos & ainda mais ambiciosos (em toda a acepção dessa palavra) & de repente toda palavra (toda sílaba!) tem dezesseis degraus de significação, cada fonema saindo da minha boca tem uma nuance secreta que flutua como nota musical mecânica que abre cofres hi-tech. Toda palavra é um abre-te-sésamo, podemos dizer, mas as portas estão todas invisíveis & são iguais & não se sabe para onde levam.
Aí eu levanto e vou ao banheiro e deixo ela sentada esperando porque sinceramente eu não faço mais idéia do que tou dizendo e no banheiro lambuzado de espelhos eu me olho totalmente vestido e penso em me masturbar mas lembro da minha regra - masturbação em banheiros, só na escola, só quando tiver pelo menos outra pessoa na cabine ao lado (e aqui nem tem cabine ao lado) então desisto e só vomito no chão todo e saio.
(é bom lembrar que contrariando a opinião popular o álcool não muda quem você é & sim quem os outros são & por isso existem pessoas que ficam muito melhores depois da cachaça & existem pessoas que ficam piores & existem pessoas que ficam outras mas ainda assim.)
Quando eu chego a conta já foi paga e alguém levou a outra cadeira embora, nada na mesa, só um copo tombado, meio triste, mas é a vida, o bar totalmente lotado e pulsante e irritante e barulhento e vivo (isso é negativo) tremendo em um ponto só que nem um beija-flor balançante ou um átomo vibrante e televisões por todos os lados silenciosas como se estivessem mortas, e aí você vira e passa pela primeira pessoa que vê (uma mulher falando no telefone na porta do bar, na verdade escutando alguém falar) e simplesmente agarra, com as mãos e a boca, e o gosto de cigarro mais do que a língua (mas a língua vem) é a experiência (muito mais agradável do que se imaginaria, caso você não fosse fumante), desisto em uns 15s e a mulher me olha meio feio, saio de lá por uma fresta.
E então não há resposta nenhuma, claro, não se deve esperar respostas nem narrativa, frustração garantida, só alguns passos ruabaixo ou acima, no horizonte alguns robôs dançam lenta e languidamente algum tango desfiado. Não é nem mesmo possível imaginar uma casa agora.
Aí eu levanto e vou ao banheiro e deixo ela sentada esperando porque sinceramente eu não faço mais idéia do que tou dizendo e no banheiro lambuzado de espelhos eu me olho totalmente vestido e penso em me masturbar mas lembro da minha regra - masturbação em banheiros, só na escola, só quando tiver pelo menos outra pessoa na cabine ao lado (e aqui nem tem cabine ao lado) então desisto e só vomito no chão todo e saio.
(é bom lembrar que contrariando a opinião popular o álcool não muda quem você é & sim quem os outros são & por isso existem pessoas que ficam muito melhores depois da cachaça & existem pessoas que ficam piores & existem pessoas que ficam outras mas ainda assim.)
Quando eu chego a conta já foi paga e alguém levou a outra cadeira embora, nada na mesa, só um copo tombado, meio triste, mas é a vida, o bar totalmente lotado e pulsante e irritante e barulhento e vivo (isso é negativo) tremendo em um ponto só que nem um beija-flor balançante ou um átomo vibrante e televisões por todos os lados silenciosas como se estivessem mortas, e aí você vira e passa pela primeira pessoa que vê (uma mulher falando no telefone na porta do bar, na verdade escutando alguém falar) e simplesmente agarra, com as mãos e a boca, e o gosto de cigarro mais do que a língua (mas a língua vem) é a experiência (muito mais agradável do que se imaginaria, caso você não fosse fumante), desisto em uns 15s e a mulher me olha meio feio, saio de lá por uma fresta.
E então não há resposta nenhuma, claro, não se deve esperar respostas nem narrativa, frustração garantida, só alguns passos ruabaixo ou acima, no horizonte alguns robôs dançam lenta e languidamente algum tango desfiado. Não é nem mesmo possível imaginar uma casa agora.
20110913
jornada de júlio, saída e infiltração
no momento em que esqueci quem era janaína
abri um cofre do qual tirei meus vinte seis mil, trezentos e sessenta e seis [reais remanescentes
e abandonei uma casa razoavelmente bem conservada pela qual nutro [sentimentos apenas neutros.
poderia ser carteiro, policial, agente de saúde, corretor de ações, motorista, [carpideiro, venenoso, juiz, terrorista, bailarino, mestre de obras, bondoso, relojoeiro, estivador
mas decidi dissolver.
infiltra-se nas rachaduras das calçadas
um tipo diferente de chuva
feita de plástico translúcido e neurônios
feita de raízes e réguas
feita de cabelo e pão.
desce grave até o núcleo
e se torna um ardil.
só os planos revelam
o futuro roubado.
nós roubados nós ausentes
nós impossíveis.
flutuo lamacento pelos vãos das portas de aço
as câmaras de decisão. as câmeras de silício.
os olhos sem olhos sem olhos.
me disseram: "só um homem sem amor poderá detonar o aparato".
acordar de um sonho em uma cela.
nossa ausência árvores que brotam do vão.
o novo nome dado a um homem novo.
lago feio
refúgio não
o golpe bem sucedido subtrai também o passado possível
minhas mãos sem marcas me acariciam/torturam
um jogo sem resultados
nem fim.
abri um cofre do qual tirei meus vinte seis mil, trezentos e sessenta e seis [reais remanescentes
e abandonei uma casa razoavelmente bem conservada pela qual nutro [sentimentos apenas neutros.
poderia ser carteiro, policial, agente de saúde, corretor de ações, motorista, [carpideiro, venenoso, juiz, terrorista, bailarino, mestre de obras, bondoso, relojoeiro, estivador
mas decidi dissolver.
infiltra-se nas rachaduras das calçadas
um tipo diferente de chuva
feita de plástico translúcido e neurônios
feita de raízes e réguas
feita de cabelo e pão.
desce grave até o núcleo
e se torna um ardil.
só os planos revelam
o futuro roubado.
nós roubados nós ausentes
nós impossíveis.
flutuo lamacento pelos vãos das portas de aço
as câmaras de decisão. as câmeras de silício.
os olhos sem olhos sem olhos.
me disseram: "só um homem sem amor poderá detonar o aparato".
acordar de um sonho em uma cela.
nossa ausência árvores que brotam do vão.
o novo nome dado a um homem novo.
lago feio
refúgio não
o golpe bem sucedido subtrai também o passado possível
minhas mãos sem marcas me acariciam/torturam
um jogo sem resultados
nem fim.
20110831
isso não é um manifesto nem mesmo uma obra é só
sempre quis escrever ("criar") algo que verdadeiramente incomodasse ao próximo
não se sabe se isso se alcança com imagens grotescas e perturbadoras ou com uma sintaxe desnivelada entortante de-mente
(nem se sabe se isso se alcança)
(nem o que é grotesco)
o caminho talvez seja como dizem amigos uma perturbação política seguindo a máxima (capitalista) de que o órgão mais sensível do mundo é o bolso
bando de frouxos sem sexo
talvez seja o ad hominen ou a edição despudorada da foto de familiares com cacetes arrombando orelhas
ou então o estupro real das mães do público-alvo e o relato flaubertiano da experiência: "Todas as famílias são infelizes, principalmente você."
"Mariazinha, a filha do governador, um dia foi para a montanha. Seu pai achava que ela precisava de ar puro e natureza para ser mais feliz & contente & saudável. Lá chegando bebeu da água límpida do rio e observou as estrelas e então se transformou em um urso e defecou até que uma montanha de bosta ganhasse vida e engolisse a cabeça de todos os grilos (que na verdade eram os rivais políticos do supracitado governador) que por lá coaxavam. Foi reeleito assim sem mais delongas e agradeceu ao senhor lucifer pela graça alcançada sodomizando sua filhinha repetidas vezes com um ventilador de quatro pás. Vida longa ao governador!!"
os alvos fáceis
a falsa luta de classe de todos os coxinhas
meu pau é uma beterraba coberta de fungos usado/a apenas para bater em policiais que dormem. a lei não devia dormir.
minha revolução pessoal é a não capitalização das palavras "deus", "gozo" e "são paulo". isso basta. a revolução verde de cada um, pois se todos nós plantarmos árvores bonitas os viados vão parar de dar o cu. a revolução a revolução a revolução será um parquinho.
veremos vamos ver a salvação de todos nós a salvação de todos nós a salvação dos nossos pés. sem pés não se anda e andar é importante o retardado sempre alcança.
"Todo homem tem direito a uma mulher." a distribuição igualitária de cus. todos queremos cus. os nossos não nos bastam. toda mulher tem direito a um cu.
perguntei aos meus 3 conselheiros espirituais (um comentarista político, um artista e um líder religioso) como alcançar meus objetivos. em jogral-fonético, disseram que a coisa mais assustadora e ofensiva que se pode dizer a alguém é "eu te amo" e foi isso que eu fiz. se apaixonaram por mim e brigaram pelo direito de chupar o meu cacete. foi medíocre.
(na verdade só quero salvar a áfrica. sou o bono vox da verdade. eu amo vocês.)
(não sei o que fazer.)
ora hora. tudo que eu escrevo é status quo. espero que sim. adoto os seus filhos indesejados no tarot. eu sou uma boa pessoa. por ora só. ora.
vagabundeio.
não se sabe se isso se alcança com imagens grotescas e perturbadoras ou com uma sintaxe desnivelada entortante de-mente
(nem se sabe se isso se alcança)
(nem o que é grotesco)
o caminho talvez seja como dizem amigos uma perturbação política seguindo a máxima (capitalista) de que o órgão mais sensível do mundo é o bolso
bando de frouxos sem sexo
talvez seja o ad hominen ou a edição despudorada da foto de familiares com cacetes arrombando orelhas
ou então o estupro real das mães do público-alvo e o relato flaubertiano da experiência: "Todas as famílias são infelizes, principalmente você."
"Mariazinha, a filha do governador, um dia foi para a montanha. Seu pai achava que ela precisava de ar puro e natureza para ser mais feliz & contente & saudável. Lá chegando bebeu da água límpida do rio e observou as estrelas e então se transformou em um urso e defecou até que uma montanha de bosta ganhasse vida e engolisse a cabeça de todos os grilos (que na verdade eram os rivais políticos do supracitado governador) que por lá coaxavam. Foi reeleito assim sem mais delongas e agradeceu ao senhor lucifer pela graça alcançada sodomizando sua filhinha repetidas vezes com um ventilador de quatro pás. Vida longa ao governador!!"
os alvos fáceis
a falsa luta de classe de todos os coxinhas
meu pau é uma beterraba coberta de fungos usado/a apenas para bater em policiais que dormem. a lei não devia dormir.
minha revolução pessoal é a não capitalização das palavras "deus", "gozo" e "são paulo". isso basta. a revolução verde de cada um, pois se todos nós plantarmos árvores bonitas os viados vão parar de dar o cu. a revolução a revolução a revolução será um parquinho.
veremos vamos ver a salvação de todos nós a salvação de todos nós a salvação dos nossos pés. sem pés não se anda e andar é importante o retardado sempre alcança.
"Todo homem tem direito a uma mulher." a distribuição igualitária de cus. todos queremos cus. os nossos não nos bastam. toda mulher tem direito a um cu.
perguntei aos meus 3 conselheiros espirituais (um comentarista político, um artista e um líder religioso) como alcançar meus objetivos. em jogral-fonético, disseram que a coisa mais assustadora e ofensiva que se pode dizer a alguém é "eu te amo" e foi isso que eu fiz. se apaixonaram por mim e brigaram pelo direito de chupar o meu cacete. foi medíocre.
(na verdade só quero salvar a áfrica. sou o bono vox da verdade. eu amo vocês.)
(não sei o que fazer.)
ora hora. tudo que eu escrevo é status quo. espero que sim. adoto os seus filhos indesejados no tarot. eu sou uma boa pessoa. por ora só. ora.
vagabundeio.
isto é:
arte política,
bondade,
caridade,
guilherme assis,
satanismo
20110816
poema clandestino sem gatos
todos os poemas são compostos por gatos.
compostos, nota-se, e não escritos.
um bom poema é uma boa sinfonia
e não-vice não-versa.
isso não é segredo ou paranóia
ou sensacionalismo incrível e empolgante.
é apenas verdade entediante e depressiva;
tão banal quanto os números e fórmulas que usamos para calcular impostos
calculamos impostos em noites instantâneas com gatos aos nossos pés
gatos que calculam poemas
poemas que calculam milênios
poemas de fazer o mundo relojoar.
uma vez tentei escrever um poema.
totalmente sozinho, com a total ausência de gatos.
terminei-o e achei bom.
assim como deus, achei bom.
passaram apenas algumas horas e deus e uma comitiva de gatos bateram à minha porta.
(aliás, deus é mais baixo do que diz-se por aí)
disseram que representavam um sindicato.
sindicato bem poderoso.
e que eu devia parar de roubar os empregos de cidadãos trabalhadores,
cidadãos que tinham filhos e famílias e hipotecas e amor.
desesperado, pedi perdão
e queimei todos os meus pêlos e minha pele.
desde então tenho composto
em grama e fogo e lama e lã.
ainda há risco, claro que há
mas as palavras reluzem mais
me beijam mais
me dão coragem para enfrentar os gatos.
quando eles chegarem
eu serei um poeta
e seja o que deus quiser.
compostos, nota-se, e não escritos.
um bom poema é uma boa sinfonia
e não-vice não-versa.
isso não é segredo ou paranóia
ou sensacionalismo incrível e empolgante.
é apenas verdade entediante e depressiva;
tão banal quanto os números e fórmulas que usamos para calcular impostos
calculamos impostos em noites instantâneas com gatos aos nossos pés
gatos que calculam poemas
poemas que calculam milênios
poemas de fazer o mundo relojoar.
uma vez tentei escrever um poema.
totalmente sozinho, com a total ausência de gatos.
terminei-o e achei bom.
assim como deus, achei bom.
passaram apenas algumas horas e deus e uma comitiva de gatos bateram à minha porta.
(aliás, deus é mais baixo do que diz-se por aí)
disseram que representavam um sindicato.
sindicato bem poderoso.
e que eu devia parar de roubar os empregos de cidadãos trabalhadores,
cidadãos que tinham filhos e famílias e hipotecas e amor.
desesperado, pedi perdão
e queimei todos os meus pêlos e minha pele.
desde então tenho composto
em grama e fogo e lama e lã.
ainda há risco, claro que há
mas as palavras reluzem mais
me beijam mais
me dão coragem para enfrentar os gatos.
quando eles chegarem
eu serei um poeta
e seja o que deus quiser.
isto é:
deus,
gatos,
guilherme assis,
poesia,
regras do jogo
20110628
versículo 1000
aí o bispo disse estupro não existe e segurou uma tampa de caneta e disse pra moça "tenta colocar a caneta aqui dentro" e ficou mexendo a tampa e dizendo "BLUUUUU" fazendo biquinho e disse "viu eu disse" e a moça deu um murro na cara dele e agarrou ele e jogou ele no chão e pisou na cara dele e mijou no cabelo dele e cagou na boca dele e amarrou ele com uma corda e enforcou ele e chutou a cara dele e quebrou ele todo e aí ela enfiou a caneta na tampa e disse "é mesmo"
isto é:
guilherme assis,
imbecil,
morellianas,
notícia,
ready-made,
religião
20110627
detalhe (ou pedaço(ou velhice é somente
Mesmo dentro de um apartamento (veneno antinatural) as pernas dele sabiam trabalhar, sabiam correr jornadas simbolicamente válidas. Os rituais persistem.
É por isso que o chão de madeira nua é mais cavado em curvas estranhas e sinuosas e sensuais. E então pronto:
(pois os pés ardem mas tudo bem e a mente derrama mas tudo bem e os olhos emudecem mas tudo bem e o cabelo viceja mas tudo bem e a língua gruda mas tudo bem e o ventre fome mas tudo bem e o ouvido riacho e a alma não)
(...)de uma mulher que se não maravilhosa, ao menos o queria. Não ardia - não-meteoro. Mas o amava. E seus pés molhados se secaram. E, infeliz, se acolheu. Às 19h quando o sol já era uma lembrança de teocratas emudecidos ele abraçou uma moça no meio da av. Ipiranga e cumpriu seu destino, tão pequenino.
[leu aquilo feito hieróglifo na parede do banheiro, em letrinhas de aranha que pareciam se esfregar nas suas bochechas. o cheiro do lado de dentro se tornara intangível. desejava o saara.]
É por isso que o chão de madeira nua é mais cavado em curvas estranhas e sinuosas e sensuais. E então pronto:
(pois os pés ardem mas tudo bem e a mente derrama mas tudo bem e os olhos emudecem mas tudo bem e o cabelo viceja mas tudo bem e a língua gruda mas tudo bem e o ventre fome mas tudo bem e o ouvido riacho e a alma não)
(...)de uma mulher que se não maravilhosa, ao menos o queria. Não ardia - não-meteoro. Mas o amava. E seus pés molhados se secaram. E, infeliz, se acolheu. Às 19h quando o sol já era uma lembrança de teocratas emudecidos ele abraçou uma moça no meio da av. Ipiranga e cumpriu seu destino, tão pequenino.
[leu aquilo feito hieróglifo na parede do banheiro, em letrinhas de aranha que pareciam se esfregar nas suas bochechas. o cheiro do lado de dentro se tornara intangível. desejava o saara.]
isto é:
guilherme assis,
piracema,
sina,
trecho,
veneno,
WORK IN PROGRESS
20110614
vencedores
MAS AFINAL, QUEM VENCEU O CARNAVAL DE 1937?
- jorge mourão, que inventou o terceiro lugar em pódios
- o povo romanche, finalmente livre do imperialismo subcutâneo
- todos aqueles que já imaginaram como seriam mais felizes caso suas mãos fossem grandes o suficiente para agarrar adequadamente os órgãos erógenos de seus parceiros
- o herói anônimo que descobriu a facilidade humana para abstrair mentalmente as doenças sexualmente transmissíveis
- marina messalina, a heroína de nome improvável que previniu a guerra do golfo 53 anos antes que ela se tornasse necessária, usando apenas a sua prodigiosa habilidade para a dança do frevo e seus olhos enigmáticos de protagonista de romance romântico cujos lábios derretem generais e cujas pernas enfeitiçam bruxas até que elas se tornem porcos que só sabem gemer feito poças
- o desejo (abstrato) de venerar os céus frios absurdos para essa época do ano, um desejo sem raízes ou razões, baseado apenas em um certo (e ultrapassado) éter inexplicável que inebriava certas cabeças e certos olhos ao ponto do torpor zumbi daqueles que passam os dias admirando as nuvens sem expressão e encontram nisso prazer inigualável
- os unidos dos samurais sem pé, esquecidos para sempre após 1939, mas por alguns instantes tão importantes quanto o papa, imponentes estátuas sem chão
- você, marcela, que me escapou como um pedaço de mentira escapa a um louco, enganando a quem se engana por hábito, e me deixou num labirinto sem nome dentro do qual eu grito que estou bem.
- jorge mourão, que inventou o terceiro lugar em pódios
- o povo romanche, finalmente livre do imperialismo subcutâneo
- todos aqueles que já imaginaram como seriam mais felizes caso suas mãos fossem grandes o suficiente para agarrar adequadamente os órgãos erógenos de seus parceiros
- o herói anônimo que descobriu a facilidade humana para abstrair mentalmente as doenças sexualmente transmissíveis
- marina messalina, a heroína de nome improvável que previniu a guerra do golfo 53 anos antes que ela se tornasse necessária, usando apenas a sua prodigiosa habilidade para a dança do frevo e seus olhos enigmáticos de protagonista de romance romântico cujos lábios derretem generais e cujas pernas enfeitiçam bruxas até que elas se tornem porcos que só sabem gemer feito poças
- o desejo (abstrato) de venerar os céus frios absurdos para essa época do ano, um desejo sem raízes ou razões, baseado apenas em um certo (e ultrapassado) éter inexplicável que inebriava certas cabeças e certos olhos ao ponto do torpor zumbi daqueles que passam os dias admirando as nuvens sem expressão e encontram nisso prazer inigualável
- os unidos dos samurais sem pé, esquecidos para sempre após 1939, mas por alguns instantes tão importantes quanto o papa, imponentes estátuas sem chão
- você, marcela, que me escapou como um pedaço de mentira escapa a um louco, enganando a quem se engana por hábito, e me deixou num labirinto sem nome dentro do qual eu grito que estou bem.
isto é:
borges,
carnaval,
guilherme assis,
lista,
mitologia,
vencedores
20110610
retrato de uma sombra
a eterna fragilidade do homem conversou comigo e me disse que caso eu crescesse poderia viver. não sabia como reagir isso, eu, eu um homem de meias rasgadas por pura vaziez. talvez num gole mais profundo eu pudesse ter reagido melhor mas a minha reação foi patética por não ser patética o suficiente, não gargalhei nem gaguejei, não fiquei congelado no tempo como um homem sem país, apenas disse que não sabia o que fazer e não recebi resposta. só fiquei sozinho. mas é difícil ficar sozinho por tanto tempo, e logo pensei na morte de meu pai e em todas as pessoas que já magoei e nos mendigos para quem já menti, sempre sem remorso, nos amigos que já roubei e nas mulheres que eu deixei de tocar por arrogância, nunca por pena ou respeito, sentindo o tempo todo na palma de minha mão uma espécie de fogo frio que era invisível só a mim. não obtive resposta alguma e logo precisaria voltar ao trabalho e continuar vivendo, e então percebi que aquilo devia ser uma exceção, a exceção. pensei em muitos jogos cujas regras não consegui entender e entendi que não era mais uma questão de querer mas sim de precisar. eu nunca passei fome e ainda assim gemi, e os meus problemas engoliram o mundo. eu não vivi mais.
20110608
eu, um osso
devagar
mais que devagar: silenciosamente
eu preencho
os espaços.
certa vez tentei perguntar a um amigo se ele achava que eu era uma boa pessoa mas antes que eu conseguisse começar qualquer frase ele morreu sem nem piscar os olhos e desde então não tenho resposta portanto nem me pergunte
somos refrães
(isso é, plurais difíceis)
de momentos difíceis.
nem chegam a me pedir fé
conhecem minhas alergias
mas não conhecem meu marca-passo
nem bengala
nem as lentes
nem os remédios
nem o tigre.
meu peito de sangue
não
meu peito de carne
não
meu peito de nada.
não meu. não. um trem
de vago.
o céu diz
intraduzível
meu legado intransponível de cobra sem asas
transparece sob a lividez de quem disse
disse disse disse
disse
disse
diz se disse disso
os jogos não são o suficiente.
os jogos não são o suficiente
então marcho
mar sem ondas
destino bordado
infelizmente tangível
the dernière blague
beijo em cobre
desconversão.
luta-pela-luta
é.
veneno de chumbo.
os jogos não são o
jogos são
jogos não
eu.
mais que devagar: silenciosamente
eu preencho
os espaços.
certa vez tentei perguntar a um amigo se ele achava que eu era uma boa pessoa mas antes que eu conseguisse começar qualquer frase ele morreu sem nem piscar os olhos e desde então não tenho resposta portanto nem me pergunte
somos refrães
(isso é, plurais difíceis)
de momentos difíceis.
nem chegam a me pedir fé
conhecem minhas alergias
mas não conhecem meu marca-passo
nem bengala
nem as lentes
nem os remédios
nem o tigre.
meu peito de sangue
não
meu peito de carne
não
meu peito de nada.
não meu. não. um trem
de vago.
o céu diz
intraduzível
meu legado intransponível de cobra sem asas
transparece sob a lividez de quem disse
disse disse disse
disse
disse
diz se disse disso
os jogos não são o suficiente.
os jogos não são o suficiente
então marcho
mar sem ondas
destino bordado
infelizmente tangível
the dernière blague
beijo em cobre
desconversão.
luta-pela-luta
é.
veneno de chumbo.
os jogos não são o
jogos são
jogos não
eu.
20110404
turismo socialista
a linha FUNKEADA de um baixo DESAFINADO finalmente EXPÕE o que há de ERRADO com o MUNDO: a MISÉRIA nas ALMAS dos seres que se consideram HUMANOS mas são apenas DESUMANOS. não se IMPORTAM com seus COMPANHEIROS de ESPÉCIE e só querem ENCHER A CARA de GIM TÔNICA e fazer SEXO com garotas MENORES DE IDADE enquanto pensam nos VIDEOGAMES que vão comprar. foi por isso que EU decidi escrever esse TEXTO explicando os PROBLEMAS da HUMANIDADE. espero que VOCÊS entendam e façam ALGO pra MELHORAR essa BOSTA de MUNDO.
enquanto vocês PENSAM, leiam esse POEMA legal:
uma moça uma moça uma moça
morreu
em 3d
foi bonito
aplaudi.
e vejam essa FOTO de uma PRIMA que você NÃO CONHECIA:

agora TCHAU.
enquanto vocês PENSAM, leiam esse POEMA legal:
uma moça uma moça uma moça
morreu
em 3d
foi bonito
aplaudi.
e vejam essa FOTO de uma PRIMA que você NÃO CONHECIA:
agora TCHAU.
isto é:
ANARQUIA,
guilherme assis,
mudar o mundo,
presença,
República
20110331
fragmento azul
José sempre soube que ver as coisas era questão de escolha; obviamente pode-se desviar o olhar mecanicamente, com torções do pescoço ou movimentos de corpo inteiro e até mesmo fechares de pálpebras, mas esquece-se às vezes que a visão é um processo cognitivo e, portanto, passa necessariamente por uma etapa de reconhecimento semântico - a imagem "bruta" absorvida é submetida a uma transformação em significado. Esse processo é, sabia José, totalmente voluntário e controlável.
Foi assim que José não viu a morte - com a combinação ágil de piscadelas de ginasta e uma espécie de autismo fabricado, desfez o que se fazia à sua frente: um corpo de mulher desabando como tijolo em nada, já sem sentido. Dizer que continuou andando daria um tom maior à dramaticidade, mas é mentira: nem mesmo estava em movimento quando aconteceu, os pés plantados no chão como quem vê a lua com telescópio, um suíngue lentíssimo balançando-lhe os quadris enquanto admirava o que quer que fosse que caía. E então -- nada.
Gabriel lhe perguntou desesperado, bêbado talvez, afinal o que acontecia ou acontecera - mais cinco ou seis ao redor, círculo do telefone-fogueira, queriam saber, aflitos. José não o via, não é preciso falar, e a voz de Gabriel era quase um slogan alienígena surgindo metálica. Disse apenas que não sabia, que não tinha como saber, e desligou.
Viu-se no espelho de relance, distraído, e reconheceu sangue nos seus sapatos, antes que pudesse evitar. Fechou os olhos mas não foi suficiente
[apenas um adendo de qualidade duvidosa
e veneno histórico:
josé era o filho do neto do longínquo descendente
de um famoso bandeirante cujo nome já se perdeu
homem de grande bravura
de grande corpo
de longa espada.
desgraçado pelo sexo
(de uma nativa)
atocaiou-se em minas gerais
em uma gruta
em uma cachoeira
tornou-se bruxo
renascido Hermes
e viveu de cogumelos
até se tornar constelação]
pois o que estava visto estava visto, sem negociação. Naquele bar, quase gentrificado a ponto de se tornar uma padaria familiar, não havia ninguém que se importaria, creu ele. Comprou um café, uma cachaça, uma cerveja e uma coca-cola e bebeu-os nessa ordem, o mais rápido possível. Ao fim, tão enebriado quanto sóbrio, dirigiu-se ao banheiro e lá se trancou.
José também sabia outra coisa que esquecemos: morrer. Morreu, então.
dentro de uma estrela que na verdade é fria como todas as estrelas porque estão no espaço dentro de uma sala mobiliada como uma mesa de bilhar dentro de um armário de madeira de lei composto por mozart está josé de olhos abertos vendo ela dançar sobre desenhos de giz que talvez sejam o retrato de um ex-general sem nome e a dança é incrivelmente bonita e lhe faltam palavras
Foi assim que José não viu a morte - com a combinação ágil de piscadelas de ginasta e uma espécie de autismo fabricado, desfez o que se fazia à sua frente: um corpo de mulher desabando como tijolo em nada, já sem sentido. Dizer que continuou andando daria um tom maior à dramaticidade, mas é mentira: nem mesmo estava em movimento quando aconteceu, os pés plantados no chão como quem vê a lua com telescópio, um suíngue lentíssimo balançando-lhe os quadris enquanto admirava o que quer que fosse que caía. E então -- nada.
Gabriel lhe perguntou desesperado, bêbado talvez, afinal o que acontecia ou acontecera - mais cinco ou seis ao redor, círculo do telefone-fogueira, queriam saber, aflitos. José não o via, não é preciso falar, e a voz de Gabriel era quase um slogan alienígena surgindo metálica. Disse apenas que não sabia, que não tinha como saber, e desligou.
Viu-se no espelho de relance, distraído, e reconheceu sangue nos seus sapatos, antes que pudesse evitar. Fechou os olhos mas não foi suficiente
[apenas um adendo de qualidade duvidosa
e veneno histórico:
josé era o filho do neto do longínquo descendente
de um famoso bandeirante cujo nome já se perdeu
homem de grande bravura
de grande corpo
de longa espada.
desgraçado pelo sexo
(de uma nativa)
atocaiou-se em minas gerais
em uma gruta
em uma cachoeira
tornou-se bruxo
renascido Hermes
e viveu de cogumelos
até se tornar constelação]
pois o que estava visto estava visto, sem negociação. Naquele bar, quase gentrificado a ponto de se tornar uma padaria familiar, não havia ninguém que se importaria, creu ele. Comprou um café, uma cachaça, uma cerveja e uma coca-cola e bebeu-os nessa ordem, o mais rápido possível. Ao fim, tão enebriado quanto sóbrio, dirigiu-se ao banheiro e lá se trancou.
José também sabia outra coisa que esquecemos: morrer. Morreu, então.
dentro de uma estrela que na verdade é fria como todas as estrelas porque estão no espaço dentro de uma sala mobiliada como uma mesa de bilhar dentro de um armário de madeira de lei composto por mozart está josé de olhos abertos vendo ela dançar sobre desenhos de giz que talvez sejam o retrato de um ex-general sem nome e a dança é incrivelmente bonita e lhe faltam palavras
20101208
faits divers, literatura de guerrilha: wikileaks
julian assange é um homem branco de cabelos brancos e foge por túneis negros de paredes negras de homens brancos de cabelos negros com cassetetes negros de contornos vermelhos que querem lhe mostrar o que é verdadeiramente o estupro a violação anal que consiste em inserir um cassetete negro no ânus do indivíduo a ser educado até que o cassetete negro adquira contornos vermelhos portanto você deve entender porque ele foge ele que é um revolucionário porque quando criança um deus azul de olhos verdes lhe disse garoto você nunca deve mentir nem tolerar mentiras e então ele decidiu que isso era verdade e usando sua mente que se estende uma mente de telepata ele invadiu com projeções astrais transparentes de olhos brancos os mais fechados bancos do mundo capitalista e de lá tirou planos de dominação e de entreguismo e de venda e de compra e de morte e disse a todos vejam só o que eles fazem e então agora querem matá-lo porque ele é um herói de talentos diferenciados e todos os heróis devem morrer em poças negras de sangue vermelho ele que vive em iglus feitos de chips verdes de coração branco agora um technhomem um ubermensch benigno feito de cabos negros e coração de silício que voam no céu arco-íris de cores muitas e deixam pó mágico cair sobre as nossas cabeças dizendo amanhã vão chegar homens novos de cores novas com vozes que viajam pela luz e não pelo som homens do vácuo que vão extinguir o vácuo preenchê-lo com cores novas e sons e agora ele foge porque é humano assim como todo herói e é essa sua perdição ter esporrado em alguém essa sua queda como a de todos um pecado original de uma cor só uma cor sem nome que deus egoísta guardou para si e suas maquinações e então toda a biblioteca de um mundo em fuga dentro desse homem explodindo em confete um enforcamento ao vivo pois assim sem sangue e o mundo segue o mesmo era um falso messias anticristo sem chance e os segredos continuam mudos e de cor cinza morta enquanto eles matam nossas mães.
20101205
história & veneno
em 1955 aos quatorze anos ricardo
rodrigues dos santos
um alemão exilado
sem nome(
e portanto
sem alma)
perdeu
(sempre perde-se)
chance única e prodigiosa de felicidade
(algo que ele como alemão nem mesmo merecia)
:
uma mocinha de quinze
(ou dezesseis)
(ou treze)
anos
que amava.
ninguém
(de importante)
chorou.
"
meu peito é um rombo
de sangue seco
vazio
anticoagulado e vazio
e seco
sem mira e sem tiro
estéril ainda bem.
eu
sou um míssil
v4
oco
falho
sem explosão.
eu sou sem explosão."
um pouco foi escrito sobre ele
(todos sabem):
um pouco discreto
(um por
co secreto)
detonou zyklon ontológico penetrante como a alma de um zumbi
algo-herói algo-épico
(por critérios gregos)
sem espada
rasgante
(pequeno)
grande
, um poeta sim
(naquilo que há)
faltaram-lhe vitaminas
(garoto vitorioso
)perjúrio(perdeu)
fugitivo
(tudo) um déjà vu
sem sangue.
rodrigues dos santos
um alemão exilado
sem nome(
e portanto
sem alma)
perdeu
(sempre perde-se)
chance única e prodigiosa de felicidade
(algo que ele como alemão nem mesmo merecia)
:
uma mocinha de quinze
(ou dezesseis)
(ou treze)
anos
que amava.
ninguém
(de importante)
chorou.
"
meu peito é um rombo
de sangue seco
vazio
anticoagulado e vazio
e seco
sem mira e sem tiro
estéril ainda bem.
eu
sou um míssil
v4
oco
falho
sem explosão.
eu sou sem explosão."
um pouco foi escrito sobre ele
(todos sabem):
um pouco discreto
(um por
co secreto)
detonou zyklon ontológico penetrante como a alma de um zumbi
algo-herói algo-épico
(por critérios gregos)
sem espada
rasgante
(pequeno)
grande
, um poeta sim
(naquilo que há)
faltaram-lhe vitaminas
(garoto vitorioso
)perjúrio(perdeu)
fugitivo
(tudo) um déjà vu
sem sangue.
isto é:
bildunsgroman,
ensaio,
guerra,
guilherme assis,
poesia,
turbilhão,
veneno
20101122
20101016
certeza
Era aos sábados que Júlio saía de casa, de chinelo, e ía até o bar na esquina, comprava meia dúzia de chicletes, dois isqueiros e voltava pra casa, sem correr e sem arrastar o pé, entrando rápido pelas portas entreabertas como se fosse uma savana, se estendendo pelo deserto recortando o chão com descaso. Entrava, então, sem sorrir, olhando baixo à moda outonal e evitando o próprio olhar reprovador nos quadros e fotos e espelhos e desenhos que o acompanhavam caricaturalmente corredor adentro, um corredor longo, esticado quase dimensionalmente, um wormhole de desenho animado tornando seu trajeto mais agradável. Entrava, enfim, sem grandes intenções, um grande homem em si mesmo e em seus trejeitos, pequeno em tudo mais, e deixava escapar o gás dos isqueiros enquanto mascava enormes chicletes, e assim era feliz.
Foi num sábado, portanto, óbvio, evidente, que eu conheci Júlio, entrando em sua casa de maneira direta e pontual, portando um sorriso. Eu sabia que Júlio era inocente e oval como um pião, girando em sua órbita falsamente elíptica e deformada, porém autocontida e totalmente alheia ao universo, em seu loop definitivo, olhos virados para dentro como os de um monstro, mas sem o ser. Eu sabia que ele era um homem fraco, no plano objetivo, de mãos quebradiças e de unhas mal-comidas, rosto de poucas camadas, que mal seria capaz de levantar uma cadeira para me acertar. E eu sabia que ele era um homem sem imaginação, e os grandes monstros são apenas figuras de imaginação, românticas, excessivamente transbordantes de romantismo apodrecido, como o vinho, que quando passa do tempo se torna cianureto, uma poção mortal de lenda donzelas, e que portanto não poderia ser um monstro, nenhum horror lá, só o tédio. Eu sabia, portanto, que ele era inocente, mas isso não poderia importar, porque eu já fora pago e Júlio era um homem estranho que não sabia dizer cumprimentos a ninguém de maneira satisfatória, e mais de três meninos já tinham sumido, e havia tantos pais preocupados, raivosos, sedentos, babando, esporrando necessidades, e alguém precisava sumir que não fosse um menino de seis anos, encontrado duas semanas depois com o cu arrombado e cheio de sangue seco e poeirento, e então esse alguém era Júlio, porque os pais precisam de paz.
Foi num sábado, portanto, óbvio, evidente, que eu conheci Júlio, entrando em sua casa de maneira direta e pontual, portando um sorriso. Eu sabia que Júlio era inocente e oval como um pião, girando em sua órbita falsamente elíptica e deformada, porém autocontida e totalmente alheia ao universo, em seu loop definitivo, olhos virados para dentro como os de um monstro, mas sem o ser. Eu sabia que ele era um homem fraco, no plano objetivo, de mãos quebradiças e de unhas mal-comidas, rosto de poucas camadas, que mal seria capaz de levantar uma cadeira para me acertar. E eu sabia que ele era um homem sem imaginação, e os grandes monstros são apenas figuras de imaginação, românticas, excessivamente transbordantes de romantismo apodrecido, como o vinho, que quando passa do tempo se torna cianureto, uma poção mortal de lenda donzelas, e que portanto não poderia ser um monstro, nenhum horror lá, só o tédio. Eu sabia, portanto, que ele era inocente, mas isso não poderia importar, porque eu já fora pago e Júlio era um homem estranho que não sabia dizer cumprimentos a ninguém de maneira satisfatória, e mais de três meninos já tinham sumido, e havia tantos pais preocupados, raivosos, sedentos, babando, esporrando necessidades, e alguém precisava sumir que não fosse um menino de seis anos, encontrado duas semanas depois com o cu arrombado e cheio de sangue seco e poeirento, e então esse alguém era Júlio, porque os pais precisam de paz.
isto é:
crime,
guilherme assis,
justiça,
perfis,
plágio
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