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20091021

despedida, prólogo.

Lara: 'Confesso que não sinto falta de você'

20090505

um comentário futuro de um hoje jovem kineasta/escritor brasileiro sobre sua magnus opus, Previsão de.:

"Sim, é do mesmo gênero que Bande à part, que é um filme muito ruim. Lembro-me de que, numa página de publicidade que fiz, empregara uma frase de Griffith que dizia: 'O que é cinema? É 'a gun and a girl'. E eu acreditava nisso."



20090217

Um Céu Sem Lua (ou tudo de ruim que eu deixei para o Mundo)

        Toquei a caixinha do seu “cereal-radical”. Quando digo tocar, não pense em João Gilberto, mas sim em algo mais como Neil Peart ou Keith Moon, porque só pode ser bateria – e só pode ser estranjeira, é claro. Não lhe dei nada de minha prestidigitação Thelonieska e não sorria como Art Tatum faria. Surdo e prato e bumbo e caixa, comigo não tinha nada além de gritos e não eram nem de perto gemidos ou grunhidos ou qualquer coisa que te dê prazer, eu não era isso. Um paranóide, OK? Gritava e era como uma gaivota, a minha gaivotinha de areia!

        Isso já tem tempo, de qualquer jeito, uns dez ou quinze anos, sim. Tinha que ser, hoje em dia ia ficar estranho pra mim tocar uma coisa já tão construída, concluída, porque meu som era puro, cru, rotten pra xuxu! Puro.

        Hoje quando eu paro e penso, tudo não passa de um borrão... Os dentes, deles eu lembro. Esgarçados numa coisa horrível de se ver, mas que era lindo na minha mão. Eu sei que no fundo de tudo tinha um sorriso, mesmo que fosse só o meu nos dentinhos brilhantes.

       Contando isso hoje eu não quero perdão antes da cova nem nada assim, que perdão é só pra santo e santo é um saco. Eu só quero mesmo é te lembrar de todo aquele tempo em que vivemos na mesma casa feito uma família bonita e feliz. Juntinhos, vocês e eu.

20090209

ensolarado (a bondade do mundo)

Giravam. Bailavam as gaivotas, como eles. crianças, desenhavam formas improváveis no céu, adivinhando nuvens. Da pedra, pés fincados, desta vez como espectador. Um dia de sol como aquele.

Surgia o rosto, impreciso, mas constante: a boca pequena mas bem marcada por covinhas dos dois lados, os olhos claros, aqueles que pregados nos cantos lhe davam um ar mais misterioso, e um cabelo loiro-castanho-quase-liso, normalmente despenteado. A menina girava. Na imagem, porém, com o sol de frente, suas feições quase se apagavam. Não só isso, o movimento a distorcia, como se ela passasse, e, de repente, não estivesse mais. O que ficava fixo? Ficava o sorriso, presente em todos os momentos em que abriu os olhos e venceu o medo dela soltar a mão. Sorriso-borrão-branco, mas constante, sempre, ainda agora, com as gaivotas, alegria da brincadeira de menina, liberdade longínqua.

Se lembrava como correndo, faceira, lhe escondeu os olhos, e levou-lhe até um canto escuro, nas escadas de serviço. Ali, tirou as mãos, o beijou e saiu correndo. Ele, atordoado, deu voltas atrás a procurando, mas não a achou, se perdendo por ela. Desde então, nenhuma lembrança intacta (porta-retratos).

Saia rodada, a menina rodava. Se lembrava que era um domingo, que fora puxado por ela, e, mesmo rejeitando, se deixou levar até os giros no pátio que terminaram com ela tonta, caindo sobre ele, beijando-o (rapidamente), deixando-se ficar olhando o céu, até esquecer a tonteira e sair correndo para outro canto. Entendeu: Ela, congelada-em-movimento, não era exatamente o que ele pretendia, não podia ser. Não eram os borrões do sol que a marcavam, mas a lembrança. Ela era idéia: a memória pinta a vida em tons pastéis, impressionistas.

Sua cabeça rodava: Surgia o questionamento,: o que era, afinal, aquela menina? Fração de alguma bondade perdida? A menina girava,girava dentro de sua cabeça, com o mesmo sorriso repetido, sempre no mesmo lugar, e naquele lugar onde ela estivera um segundo antes ele procurava o vazio que lhe faltava. Afinal, a menina, sorriso no rosto, escapava a si, girando a toa pela alegria do mundo? Ou, extinguindo o nada, marcava seu papel buscando significados pouco convencionais? Estático, a hipótese se abriu, e a liberdade pareceu atravessar sem ser vista, mas ele olhava de canto de olho.

A gaivota que viu naquele momento, asas de cristal, deu um giro, e bailou entre o mar e o céu, sonsa do que era o que. Talvez não fosse culpa dela, mas das cores que se confundiam, inexistindo o horizonte a sua volta. Já ele não, ele consciente, preso na pedra, vendo á sua frente os seres brincarem na amplitude.

Já em si, viu as gaivotas se aproximarem mais da onde estava. Seria algum cardume de peixes que passava por ali, provavelmente? Não, Era hora de se lançar a frente, e desta vez por espontânea vontade. Enquanto os giros, a imagem da menina ia se desfigurando: Se desfizeram olhos, suas formas infantis: mudava, quanto mais rápido. E a mesma imagem, a menina estampada em luz, o sorriso. Ela, girando. Ele sequer sentia seus pés, e nem tinha medo de soltar as mãos, já de olhos abertos. Á sua frente, o fundo azul, o tempo que passava borrado e o mesmo sorriso. Entendia: estava solto, ela a seu lado, amor,, o baile, mãos na cintura, nada em volta. mais rápido, e o pátio e o rosto: um borrão, ensolarado. as mãos não tão firmes, o sorriso convertido em luz, jogados na amplitude, giravam como as gaivotas: decresceu: bondade do mundo não existir.