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20131018

se a vida fosse assim tão complicada...

a porta tava aberta. bom, muito bom, porque eu tinha esquecido a chave e se tivesse fechada eu taria totalmente, com todo perdão, fodido. não tava não, tava destrancada e que bom que eu tinha também esquecido de trancar, se bem que se eu tivesse lembrado eu não teria esquecido a chave, acho, uma coisa levaria a outra, trancar, levar. mas poderia ter esquecido na fechadura e isso ia ser pior ainda do que ter esquecido no quarto em cima da tevê porque qualquer um podia ter entrado em casa e roubado, por exemplo, a tevê, então que bom que a porta ficou destrancada. se bem que alguém pode ter entrado em casa e roubado a tevê e até roubado minha chave, assim, com a porta destrancada, ela podia até ter trancado a porta e eu ficaria do lado de fora, preso, e aí seria a tragédia cem por cento trágica, eu ia ficar preso do lado de fora e lá dentro eu não teria minha tevê, que pelo menos seria inútil enquanto eu ficasse do lado de fora. eu teria que esperar fora sem nem assistir tevê, mas no fim das contas seria melhor, porque eu ia saber que lá dentro não ia ser muito melhor, nem tevê teria. teria cama, ninguém nunca rouba cama, a não ser que destruíssem o colchão procurando a chave, mas a chave ia tá em cima da tevê, então o colchão taria lá, pra mim, eu ia ficar deitado sem fazer nada. isso só depois de ter arranjado um jeito de abrir a porta, provavelmente precisaria ligar prum chaveiro e ele ia gostar, porque os chaveiros gostam quando as pessoas ficam fora de casa. eles gostam de tudo que pode dar dinheiro pra eles, são gente perigosa, os chaveiros, eles podem entrar em qualquer lugar. até num lugar trancado, com o tempo e a ferramenta eles entram mesmo. e aí não ia fazer diferença nenhuma se eu tinha trancado a porta ou não, e aí o chaveiro não ia ligar pra minha chave em cima da tevê, talvez até ignorasse a tevê toda. não, nesse caso ele também ia levar a tevê, mesmo ela sendo velha e de tubo, isso porque chaveiro gosta desse tipo de coisa, de coisa velha, mecânica, com uma pegada rústica. com a pegada de um chaveiro qualquer fechadura cede, mas eles precisam de grafite e não tem grafite na fechadura e ela tava aberta. claro que tava aberta, ele já tava lá dentro, provavelmente a tevê ainda tava lá, com minha chave, pelo tempo que eu levei com certeza ele ainda tá lá dentro, a não ser que eu tenha esquecido a porta destrancada, nesse caso ele pode ter fugido rápido. não é fácil fugir com uma tevê de tubo, essa é uma das vantagens dela, ela é pesada e desajeitada, mas essas novas bem grandonas são piores ainda de carregar e quebram muito fácil no transporte, então ele ia levar mais tempo ainda. minha tevê de tubo facilitaria a fuga dele, mas não vai ter fuga nenhuma, porque ele ainda tá dentro e se tem uma coisa que eu nunca vou esquecer é de quebrar a cara dele.

20130806

diário de bordo - frango assado (km 44)

vinte horas na estrada e meus olhos estão borrados de cansaço.
saí da pista com medo de ter atropelado o tio patinhas.

(...)

encostado no balcão, encaro de frente mais uma batalha tremenda:
cafeína vs. omeprazol.

20130309

janela - ponderações a respeito de alguém a quem chamarei de P.

eu sei porque vocês apagaram as luzes.
eu sei justamente porque vi quando vocês apagaram as luzes, uma a uma, enquanto olhavam desconfiados pra minha janela. que bosta essas janelas.

eu realmente não me importo, e é provável que eu nem ficasse olhando pra sua janela.
mas e se a minha janela estivesse fechada?
se você não pudesse de fato ver que eu te via?
será que você teria apagado as luzes - uma a uma, gesto muito mais interessante que qualquer outro que possa ter acontecido depois, com aqueles re-enquadramentos audaciosos e quebracabeçantes.

e se não tivesse, você, apagado as luzes, com aqueles olhares e risadas irritadas de me ver assim tão indiscretamente na sua janela, o que eu teria feito?
se eu estivesse, de fato, com minha janela fechada, mas podendo lhe olhar, e você deixasse as luzes acesas. eu teria olhado? teria fugido? teria me embrenhado mais ainda nos meus tiros-laseres de sábado-à-tarde?

eu nunca fechei a minha janela.

malditos arquitetos.

20130208

"prendam-me, por favor! já não posso mais!!"

dirigia pra casa numa madrugada qualquer quando me botei a pensar (eu tinha assistido recentemente a um filme que falava de freud e coisas do tipo, e estava um pouco confuso) me botei a pensar que a gente, ou pelo menos eu, raramente sinto que eu posso algo; o sentimento só existe quando eu não posso fazer alguma coisa - por incapacidade física, ou força das circunstâncias.

tenho a mais absoluta certeza que isso é um fato já conhecido e exaustivamente estudado por uma miríade de senhores e senhoras muito mais competentes do que eu, de forma que não quero aqui me colocar como um grande sábio nem nada do tipo...

mas passei a pensar, por exemplo, a respeito do modo como eu dirijo: completamente repreensível, ainda mais de madrugada, ainda mais quando sob força de pressões das mais variadas formas (o tempo, um compromisso, o sono, etc. etc.) e em como eu quase nunca sou parado nas ruas. eu, rapaz de figura quase decente, acima de tudo branco e guiando aquele carro japonês. me ocorreu então o óbvio, que eu posso mais do que outras pessoas, em outras circunstâncias (e, evidentemente, não posso tanto quanto outras, em circunstâncias ainda diferentes das duas primeiras).

isso me pareceu errado, absurdamente errado.
a minha formação de caráter (caractere, character, charque) se dá, acima de tudo, por um constante tatear de limites, do espaço estreito entre poder e não poder.

essa desigualdade [social, que se reflete] no campo das escolhas e das possibilidades gera inúmeras aberrações de personalidade (caráter) na sociedade; tanto o excesso de poderes quanto o excesso de não poderes deforma o cidadão.

e isso é (também) violência.
violência pra caralho, quando você para pra pensar.

.
.
.

então eu decidi abandonar minha vida, queimar meus pertences e rumar sem nome.
a partir de hoje, vou me dedicar a caçar todas as Aberrações que eu encontrar pela frente.

porque nenhum homiciodiozinho pode ser comparável a tamanha violência...
né?

20120530

Quando eu era pequeno

Eu queria ser modelo
Mas acabei modelado
Pelos clichês
Da arte
De denúncia
Metalinguística
Autocrítica
Irônica
Espertinha
Vazia
Terminada em uma bela chave de ouro

20111012

urgência - uma série de merda em nove capítulos

cap.1

sete mil dardos muito pequenos e cheios de veneno chegaram de uma só vez ao corpo do bravo Piripi Moana. cercado, sem ter mais o que fazer, ele soltou um grito e virou mosca no último segundo.

agora ele tem exatamente vinte e quatro horas para desvendar o Segredo do Universo e retomar sua forma humana.

cap.2

não demorou muito para Piripi Moana atravessar o mar até as terras prósperas de Yerevan. encontrou Roberto, a vespa, e logo lhe perguntou do Segredo do Universo.

"como vou saber? sou só uma vespa!"
mas se era homem, como virou vespa e como iria voltar a ser homem?
"ora, isso pouco me interessa. virei vespa porque quis e agora não preciso trabalhar nem usar roupas, vivo muito feliz como um inseto. mas se quiser mesmo saber, vá para o norte e pergunte ao Velho Hermetão - só que é bom se apressar! que logo logo ele sai pro almoço e só o diabo sabe quando volta."

nosso bravo guerreiro lambeu as duas patas da frente e as esfregou nos seus olhos imensos, pensativo por um instante. mas não havia tempo para pensamentos em sua cabeça de mosca.
aproveitando uma lufada de vento, alçou vôo e seguiu viagem.

cap.3

nadando no vento fortuito, o corajoso Piripi Moana pôde enfim relaxar e deixar sua mente flutuar pelos prazeres de ser mosca.

como era vasto e lindo o mundo que o cercava! cada detalhe passou a brilhar com nova luz a seus olhos pluricompostos. deixava suas asas baterem 234 vezes por segundo e sentia cada golpe no ar como se fossem beijos das doces virgens de sua tribo natal. e que aromas misteriosos lhe invadiam as antenas, que prazer incomum o vibralançar de centenas de pêlos lhe propiciava, como era bom lamber as patas sem ter que pensar em lanças e dardos e desertos sem fim...

começava mesmo a pensar se não estava com a razão Roberto, a vespa; que Segredo do Universo o quê, tudo que há para ser vivido está bem aqui!

foi só quando chegou à praia que percebeu os perigos de tal filosofia.

cap.4

era um cocô imenso, perfumadíssimo, e muitas outras moscas estavam compartilhando seu calor com Piripi Moana. ele nem mesmo lembrava de como tinha chegado àquela montanha cor-de-chocolate; quando percebeu, já estava lá.

devagar, nosso herói foi percebendo como era estranho ficar entre suas colegas mosquiformes. sempre repetindo os mesmos mantras - algo como "wisusuzizi" ou "tch'clac tch'clac", ou ainda uma mistura incompreensível dos dois. não havia ninguém com quem conversar.

não sabia se por sua origem humana ou se por ser da natureza das moscas, mas Piripi Moana se sentiu ignorado pelas suas colegas de espécie. e ficou triste com isso.

depois ficou puto. muito puto.

"VÃO SE FODER SEUS PUTOS"foi o que ele gritou antes de levantar vôo e abandonar o bando. ninguém deu bola, mas tudo bem.

cap.5

desesperado, Piripi Moana deitou na areia e ali ficou. deixou o sol queimar, apagando todas as direções. estava pronto pra morrer; até fecharia os olhos, se tivesse pálpebras.

logo não seria diferente de uma uva passa, talvez fosse pisado por alguma criança e então seu corpo se desmancharia e viraria sabe-se lá o que as moscas viram quando morrem - poeira cósmica?

tais eram os últimos pensamentos do bravo Piripi Moana.

cap.6

a luz começou a tomar forma nos olhos do valente Piripi Moana. devagar sua consciência despertava e lhe dizia que seu corpo de mosca balançava gentilmente, carregado por algo maior que sua percepção de mundo. tremelicou as patas por um momento e perguntou quem era que lhe carregava, no que ouviu uma voz imensa:

"eu sou a tartaruga de mil anos...
e vou te levar ao teu Destino."

mas que era Destino? e era ele morto? o quão grande seria uma tartaruga de mil anos?
mas não conseguiu fazer soar nem uma palavra; tanto balançou e balançou que dormiu novamente.

cap.7

do lado de lá da tenda, Piripi Moana se afogou em Escuridão.
o sol já deve ter se posto, ele pensava. sentia a morte tragando seu exoesqueleto.

a vida tinha chegado ao fim, ele ia embora de vez - e não tinha se despedido de ninguém.
mas não tinha do que se arrepender.
claro, talvez tenha sido burrice virar mosca assim, sem pensar... mas que se pode fazer?

foi só então que escutou o ronco de uma Criatura Imensa.

cap.8

a Criatura Imensa, óbvio, não era outra senão o Velho Hermetão. ele roncava alto com as pernas pra cima e a camisa vermelha dobrada embaixo da cabeça.
Piripi Moana, num gesto de extrema bravura, fez vibrarem suas asas e chegou ao nariz do Velho.

ouça lá, que aqui cheguei! quero saber do Segredo do Universo e voltar à minha forma.
êh, acorde logo, seu velho fedorento!

mas de nada adiantavam os gritinhos de mosca de Piripi Moana. ele caminhou por toda a cara do Velho Hermetão, zunindo as asas e estapeando cada porção de carne: da ponta do nariz aos olhos, às orelhas cabeludas, de volta às narinas, aos lábios e entrelábios.

velho maldito, por que não acorda nunca?? se tivesse ainda minha lança e meu anzol, veria só o estrago que lhe faria nas tripas! - era o que gritava nosso herói, quase chorando as mais misteriosas lágrimas de mosca que o mundo já vira.

foi quando, com um solavanco de sono perturbado, o Velho Hermetão virou-se de lado e puxou um longo ronco, engolindo Piripi Moana num só golpe de vento.

cap.9

dentro do Bucho Infinito do Velho Hermetão, nosso incansável herói encontrou a Chave Misteriosa. em posse dela, Piripi Moana pôde abrir o Útero do Mundo e lá sentou-se por três Dias Eternos, em busca da Escuridão Total. foi então que ele escutou, num Suspiro Ímpar, o tão buscado Segredo do Universo.

e era tão óbvio!

ele abriu os olhos e vibrou de alegria. era homem novamente!
com pernas e pénis e pele coberta pelas Tatuagens da Guerra, tudo no devido lugar, oh bênção magnífica!

no mesmo instante, sentiu sua pele ser perfurada por sete mil dardos envenenados.
seu sangue ferveu e sua carne virou geléia.
- Piripi Moana não deu um só grito.

FIM