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20130620

no pátio, há alguns anos:

todas as segundas-feiras antes da aula, cantávamos o hino nacional e o hino da escola
isso era no colégio pentágono
até o fim da quarta série - acho

quando eu digo "cantar", quero dizer: ficávamos de pé no pátio às sete da manhã enquanto hasteavam a bandeira e uma caixa de som tosca e potente tocava os hinos

devíamos respeitar o hino nacional e, preferencialmente, dançar junto ao da escola
acho que ninguém cantava de verdade nada, mas acontecia toda semana

* * *

não sei o que aconteceu, provavelmente alguém fez uma gracinha desrespeitosa junto ao hino
ou então apenas perceberam que ninguém sabia o hino

seja como for, a professora e a diretora (ou coordenadora) vieram na aula imediatamente posterior ao hino, bravas, para dar bronca na gente
"o hino nacional é importantíssimo, é motivo de orgulho
vocês precisam saber o hino, cantar o hino, é um absurdo que vocês não saibam nem a letra do seu próprio hino!"

* * *

aí a diretora ou a professora ou a coordenadora me interpelou
(eu era o aluno ideal. nunca fui especialmente bem comportado, mas ia muito bem em todas as matérias e acho que não era muito malvado com meus colegas)
ela falou algo como "você sabe o hino, não sabe?"
ela queria me usar como exemplo positivo para a turma

acho que eu disse que sabia.
era mentira.
nunca soube o hino. sempre tudo me soou absurdo (a letra, a solenidade, o nacionalismo)
mas eu disse que sabia.

* * *

queria ter dito que não sabia, mas eu menti.
não sei o hino. sei que demorou muito, mas muito mesmo, pra que algum professor abordasse o hino criticamente em aula.

e, quando falo em "criticamente", não falo apenas politicamente
mas formalmente, estilisticamente, socialmente, simbolicamente

* * *

a escola não nos ensina a falar a verdade.

20101019

Literatura Publicista

Dois pequenos-bois encontravam-se atónitos. À frente deles (na hierarquia, porque no carro era de trás que estralava o chicote) estava um senhor admirável que já há algum tempo cuidava de imaginar ser possível plantar algo bom, mas se via sem perspectivas e com os dois tocava para a rodovia. Ao menos seu filho continuava na chaloça pra ver se surgiam uns brotinhos, hêm. E, bem, cansados demais para andar ou não, lá iam os pequenos-bois em frente balangueando com músicas na cabeça.



O que estava mais à esquerda já parara de ruminar o último matinho que arrancara do campo há um tempo, mas ainda guardava ali entre os dentes tudo que seu maior companheiro do passado – também boi, mas já aposentando-se com honras - lhe dera: um broto especial, que todos queriam saborear e que ele havia sido bom o bastante para guardar para o momento em que pudesse dividir com todos.

Olhava para frente quando dava e o sol estava deixando ele vermelho, mas não ligava, porque pelo menos o mantinha acordado. A despeito de tudo, ele ainda tem mais fôlego do que seu companheiro, que já se anuncia mais velho...também, pudera, era um boi que circulara mais por essas fazendas ditas importantes. Havia sido de outros donos, de outros tempos, já fora até mesmo garanhão e até mesmo se achava meio pastor às vezes. Mas dessa vez estava uns dois passos atrás e até um pouco amarelado de sabe-se lá o que. Bolsas fundas lá nos olhos dele.

Uns passarinhos bicudos ora pousavam nele, ora se rebuliçavam por cima e davam umas mordiscadas, mas... ele não parecia se incomodar muito, não. Resmungava, fingia que não estavam lá, mas era quase que necessário. “Coitados, veja só o sol. Pelo menos assim têm companhia de alguém maior...”

“Hêm. Boi é tudo igual. Boi é tudo igual”, resmungava o senhor que bem ou mal tinha lá o freio e o chicote nas mãos.


E enquanto passavam e passavam devagar, os dois bois sentiam que não agüentariam. Bem, um deles teria que permanecer para carregá-lo...o outro, que se esfalfe, que não vai ter jeito. O sol cada vez mais forte....e eis que um dos dois, que infelizmente não pude ver pois na hora fiquei de ponta-cabeça e perdi as noções de direita e esquerda, se desprendeu, foi chicoteado pelo dono por isso e ainda se espreguiçando e mugindo meio fraco caiu na beira da estrada. O dono e o boi ainda atrelado olharam por alguns instantes, mas tem-se que prosseguir e tiveram que deixá-lo lá mesmo.

O boi caído continuava achando que poderia voltar, mas...que baita sol e que tristeza de se ter solto, que grande vergonha. Cedo ou tarde iria acontecer, mas...nunca se sabia quando e ele muito menos, todos diziam que ele agüentaria certeiro até o fim, mesmo quando duvidavam de sua capacidade no começo...

Ele respirou fundo, levantou o pescoço e deu uma olhada em volta para ver se encontrava alguém, e ei-lá que viu um espantalho mirrado, mirrado, mas de porte ainda sisudo que o encarava de longe. O sol devia fazer mal igual pros dois, ele pensou, que não tinham nada ali.
O boi conseguiu se arrastar até o espantalho, que meio antipático ou não era a única companhia no momento. Ele levantou o que conseguiu do pescoço e esperou o espantalho se manifestar. Ele se virou ali, mostrou ao boi que os dois tostariam, mas...arre, que dali a alguns anos tudo aconteceria de novo. O boi caiu morto.

O espantalho suspirou e...ainda encontrando ânimo, disse:



- Viva o Brasil!

20100831

estudo em azul

além do enjôo fica um buraco e é de lá que o caio grita pedindo algum tipo de socorro, mas o seu grito é sem voz e então ninguém pode ouvir - é incrível como ouviu a renata dizer que ia embora e vomitou tão rápido, mais incrivel ainda que não tenha vomitado e que isso seja pior ainda, estar cheio até o joelho de vômito e ser só uma carcaça que não vaza, inchada, enquanto a renata vai embora, ela sempre cumpre o que promete, sempre faz o que diz, quase um robô, e então já é 1997 e ele ainda ganha pouco, e é hora de ir ao dentista: uma carteirinha de convênio velha, muito velha, já semi-apagada e inválida há meses, um sorriso amarelo, passando a mão na perna na recepcionista por baixo da mesa, talvez um sonho, três dentes a menos e dois a mais, um escultor, um artista, eles conversam sobre a frança, o único país de verdade nesse mundo, dormir e tingir o travesseiro de você mesmo, ser dezesseis anos de novo, ontem, e saber que eu não posso mais você; obviamente ele se filia, portanto, a três ou quatro grupos diferentes - esquerda, cristão, motocross, talvez os concretistas... é o homem perfeito e morre correndo.

20100427

desculpem a chatice, mas esse é o top do meu dia

"(...) Pois que eis aí a máquina midiática funcionando tal e qual um relógio! A realidade é uma noção coletiva, ou seja: de massa. Quando toda uma coletividade/sociedade/massa-populacional acredita piamente em alguma coisa, tal coisa se torna, para todos os efeitos, verdade (simulacro?); o delírio, o falso tomado como real é, bem ou mal, o contexto real de quem o vive. Lembrando, sempre, que o contexto é o que define o indivíduo. E são os indivíduos que criam a sociedade que cria o contexto que define o indivíduo. É notável que a partir do século XX com o advento do rádio e, posteriormente, da televisão, mídias absurdamente massivas (capazes de atingir a sociedade de cima abaixo), o poder de convencimento individual ganhou proporções homéricas: as mídias atingem a sociedade inteira, um a um e de uma só vez. Ou seja: estímulos individuais geram respostas massivas."

20100127

Octeto via telefone, dum trocadero, Primeira Parte.

Cuidado ao entrar na cabine telefônica. Em Buenos Aires, é onde estão as verdadeiras, às quais eu me refiro, e que não são exatamente cabines telefônicas, sendo chamadas de, bem, na verdade não lembro e o que vem à cabeça é “trocadero”, uma óbvia confusão.

Escove direito as calças, Odete, pois o ar já está cheio demais sem os fiapinhos de veludo que podem ficar grudados aí e, bom, aí eles entram em casa e todo mundo tosse mais do que eu mesmo. Mas quedê a fanfarra?

E oito homens bem-apanhados, vestindo exuberantes ternos azul-turquesa, de veludo mesmo: com abotoadoras douradas, botões esmaltados e feitos de um material que parecia imitar prata barata, listras um pouco escuras, mais para o preto do que para o musgo; calças que devem ser confortáveis como as de um pijama, bem macias e alargadas sem que o tamanho causasse uma impressão de obesidade em nenhum dos rapazes (excetuando-se talvez um deles, já mais míope, que a colocou ao contrário, deixando transparecer uma ‘bolsa de pano’ em sua região púbica, extremamente desconcertante), e sobre os sapatos nada a declarar, a não ser o fato de que não combinavam com meias muito grossas, e eram pretos.

Os instrumentos foram tocados como se toca uma fanfarra, e os com palheta soavam como se ainda estivessem frios, a não ser por um saxofone umedecido e paposo, cujo dono não queria gastar com palhetas feitas de bambu que exploravam o trabalho de um chinesinho camponês em campos de semi-escravidão; as notas eram um pouco mais erráticas, em relação às alturas, descendo mais do que seria confortável, mas por outro lado os secos não possuíam qualquer timbre destacável e o som dos lábios e línguas naqueles palitinhos de sorvete era incômodo; a caixa estourou logo na segunda música obrigando-o a recorrer às palmas e sorrisos (para estimular mais palmas) para providenciar o pulso. E não obstante, antes mesmo da caixa estourar ou dos timbres serem ouvidos, eles entraram todos por uma única porta, que não era muito larga, então todo o conjunto havia se enfileirado meio acabrunhado e tentando gastar o mínimo de tempo possível na operação. O trombonista estava fatigado, porque casara-se no mesmo dia e ainda estava com o terno de noivo por baixo da roupa, completamente encharcado de suor e com os dedos sujos de tinta (era analfabeto e não pudera assinar a certidão de casamento), tateando para desespero do outro trombonista – pois o instrumento que o recém-casado tocaria havia sido emprestado por esse já civilmente estabelecido – as teclas de sua segunda melhor corneta, ou algo que o valha. Sujeira, sujeira, e ainda um terno apertado no senhor da tuba, não porque fosse gordo, mas porque houvesse goma; goma em demasia na camisa, e por conseqüência o terno não caía bem no tecido endurecido, que só amolecia na parte de trás do ombro esquerdo do homem, onde passava o, bem, chamarei, berrante do coiso.

E Odete nisso? Escovou a calça, mas o que é uma calça frente a oito ternos? Eu a fiz tossir, tossir de culpa e não me arrependi na hora, mas só porque a música era agradável, apesar dos pesares. Achei que ela também se divertia, mas tive que mandá-los parar, dada a gravidade do estado de saúde dela, e fui eu mesmo passar uma escova nos ternos.

Paguei as passagens rapidamente e os enviei à capital argentina, onde entraram no trocadero às minhas custas e ocuparam cada um uma das oito – fui ajudado pela Providência – cabines do local e esperaram a instalação das oito linhas telefônicas cá em casa, que rapidamente foram aprontadas e discaram os doze dígitos.

Estava funcionando: polifonia, octofonia, na verdade, via telefone, em uma sala circular.
Tirei as calças, depois de dispensar Odete. Ouvi as músicas com atenção. Cortei as ligações e fiquei contemplando o vilarejo à minha frente: quanta gente burra. Mas eu gosto de todas, e chamei uma rua por vez para ouvir minha fanfarra internacional via telefones. Aos poucos, fui ganhando o respeito até mesmo do consertador de estantes, Haroldo, que me visitou primeiro a título de convidado, depois como convidado-por-ele-mesmo e depois a fim de me prestar uma homenagem, dando-me de graça quatro estantes de uma madeira linda, que usei para colocar alguns livros e três dos oito telefones.

Não demorou para que percebesse que estava enganado ao qualificar de “gente burra” a população que me cercava: burro sou eu, pois eles são mais inteligentes do que parecem. Como ondas, logo me abandonaram também, acho que cansados da octofonia. Bem, em breve seria o batismo da nova praça e ao invés de seguir o conselho de um de meus verdadeiros amigos e “não me apoquentar”, quis investir no negócio. Queria, obviamente, que a praça levasse o meu nome. Nesse estágio, eu já tossia a cada minuto durante uns quinze segundos, o que me dava pouquíssimo tempo útil para negociações políticas. A maneira mais rápida e barata – não que manter um trocadero próprio em Buenos Aires estivesse me saindo uma pechincha – que encontrei foi revolucionar o gênero e acrescentar um nono integrante à fanfarra.

20091020

Um protesto muito bonito mas que não faz sentido nenhum, já que foi escrito mais a pedido do "tirano" em questão que por vontade própria ou revolta.

Belo dia um tirano,
Todo pintado de verde,
Decidiu ficar insano
E colou-se na parede.

A parede ela era rosa,
Seu queijinho era bom,
Seja em verso, seja em prosa,
Sua faca era seu dom.

Maluquinho por poder
Na República mandar,
Faz de tudo sem contar

Pros parceiros de pomar,
Pros irmãos que, a gritar,
Mandam ele se foder.

20091010

Atividade_17: um Texto fora de seu Tempo natural e, portanto, ainda pior do que simplesmente ele (OU: DISTANCIAMENTO HISTÓRICO)

Naquele dia choveram molotóves.

Bum badabum bada-plasch! Era tanto fogo que nem dava tempo de pensar que era fogo.

Comia capacete, escudinho, farda, armadura. Os cacetes de borracha e ferro brochavam na mesma hora.

No chão também queimavam os cravos – ah, sim! Nem o tanque resisitu e também queimou, rosa-choque e não-aprovado-em-assembléia.

As faixas, os cartazes, as botas e as balas de borracha queimavam tudo junto num fogo só, repressão e reprimido berravam do mesmo jeito debaixo do vidro e do fogo que não parou de chover até acabar aquela palhaçada toda.

Havia um deus, e ele ouvia sex pistols.

20090915

Antes ou Depois


"Colheria cachinhos uma vida inteira, se fossem todos tão redondinhos e cheirosos como aqueles que sua querida filhinha me entregou na cama de tafetá de seus papais e mamães que viajavam para o litoral buscando um casamento que não ia mais voltar, e era bom assim."
(Fábulas de Bazin - pgs. 37/38)

20090508

O celeiro ao fim de nosso mandato

(trecho do conto de mesmo nome de Karen Russel, tradução de Cássio Arantes Leite, publicado na primeira edição de Granta em Português)

A garota

A garota voltou. Sua silhueta recorta-se contra a luz do sol, as grandes portas do Celeiro escancaradas. Punhados de feno recém-cortado dispersos e estocados no palheiro. Luz inunda as baias.
– Ei, cavalinhos! – A garota segura um guardanapo de pano cheio de pêssegos. Caminha até a primeira baia e oferece o fruto pálido e amarelo.
Rutherford arqueia o pescoço na direção da mão estendida. Manchas de luz flutuam sobre seu traseiro malhado. Ele lambe a palma da mão da garota seguindo um código que formulou, –.–., significando que é Rutherford Birch Hayes, o 19º presidente dos Estados Unidos da América, e que ela deve alertar as autoridades locais.
– Ah-ah! – ri a garota. – Faz cócega.