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20130309

janela - ponderações a respeito de alguém a quem chamarei de P.

eu sei porque vocês apagaram as luzes.
eu sei justamente porque vi quando vocês apagaram as luzes, uma a uma, enquanto olhavam desconfiados pra minha janela. que bosta essas janelas.

eu realmente não me importo, e é provável que eu nem ficasse olhando pra sua janela.
mas e se a minha janela estivesse fechada?
se você não pudesse de fato ver que eu te via?
será que você teria apagado as luzes - uma a uma, gesto muito mais interessante que qualquer outro que possa ter acontecido depois, com aqueles re-enquadramentos audaciosos e quebracabeçantes.

e se não tivesse, você, apagado as luzes, com aqueles olhares e risadas irritadas de me ver assim tão indiscretamente na sua janela, o que eu teria feito?
se eu estivesse, de fato, com minha janela fechada, mas podendo lhe olhar, e você deixasse as luzes acesas. eu teria olhado? teria fugido? teria me embrenhado mais ainda nos meus tiros-laseres de sábado-à-tarde?

eu nunca fechei a minha janela.

malditos arquitetos.

20101231


Nostalgia é o passageiro gordo que faz o automóvel capotar.

Teve este lampejo enquanto guiava com os olhos petrificados em muitas coisas que ficavam para trás. Não havia muito com o que se preocupar, o tanque estava quase cheio, havia um mapa debaixo do banco, sua garota dormia no banco de trás. O que lhe preocupava era mesmo aquilo que ele já sabia estar em sua cabeça desde sua despedida, desde a partida. O fim. O fim já se vislumbrava em algum lugar entre seus olhos e a pista que rodava suas linhas para debaixo do carro, engolidas por sua escolha. Era o fim, pensava. Era a nostalgia que lhe pesava os olhos.

O lampejo, na curva da serra, para fora em tangente como ensina a prática aos desatentos, piscando dentro de si, como um sub-lampejo: na curva mais curva onde se deve sentir a desaceleração como uma doença e marchar engatado: o passageiro gordo de seus olhos: ainda houve um terceiro lampejo dentro do mesmo, como um resquício que provava que o instante era de fato bastante espaçoso como um esgarçamento em que ele poderia viver mais pensamentos como aquela nostalgia que pulsava entre os dedos do volante na buzinapárabrisaguiapulocrackecurvouseladomoinhosnostalturadodiaboestamosindoevoumeseguraraliquandoeupodereiárvores---***####`````galhosna--

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20100709

Ricardinho se segurou. Aprendera a se segurar desde tempos remotos. Não queria ser grosso com Joaquina. Mas algo que jamais saberemos o fez mudar. Ricardinho engoliu um bocado de ar que vazava por suas gengivas dinâmicas. O tempo se suspendeu no ar, como um peido ou uma trovoada. Então, Ricardinho olhou bem para Joaquina para ter certeza de que entenderia suas palavras originárias de um mistérioso locus:

- Limpe sua boca, sua porca!

O precioso e breve momento seguinte a sua não-segurada, o fez, surpreendentemente, não reparar na reação de Joaquina, mas sim na construção constrangedora de sua frase que continha, deveras, dois pronomes possessivos que redundavam numa porca só. Ricardinho inaugurou, então, sua fase de justiceiro dos maus costumes.

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