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20130513

rapas|rapoza


ela é a Raposa, você não
ela vai embora
ela te sorri sorrateira no assoalho

você, não.




a Raposa te mordeu? te tirou algum sangue?
um ninho nas tripas, um ninho nas tripas
e ela nunca vai sair de você, rapaz.
































*

20101201

sono

Quando os olhos secarem
e a mandíbula
enfim
despencar


quem vai sobrar
pra te ver feliz?

20100923

Quarta à tarde







Agora só com uma mão!
AFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADA
SAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFAD
AAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFAD
ASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFA
DAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFA
DASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAF
ADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAF
ADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASA
FADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAA
FADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADAS
AFADASAFADAAFADASAFADAAFADASAFADAAFADA




20100628

UMA COISA

Eu queria escrever um texto, um texto pra você que você pudesse ler e falar "caramba, ele tá falando comigo, COMIGO!" ou então se borrar toda, sei lá. Passei a noite inteira escrevendo, então espero que você pelo menos goste:

R atira em uma pomba; erra.
M diz que o segredo é relaxar o braço e firmar o pulso; M acerta uma pomba em cheio, que cai em cima de um telhado/lage.
R diz que não vê muito sentido naquilo; erra de novo.
M diz que é por isso que ele não acerta.
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Duas bicicletas passam correndo pela ponte e pegam a estrada no meio de caminhões, carros vindo do litoral, um rio, mato, muita fumaça. Eles param perto de uma cidade, ela atira água no rosto, a água escorre pelo pescoço, molha a camisa e ali por dentro. Ele diz tchau e volta correndo, antes que desmaiasse feito um idiota. Idiota!
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A casa quieta, o pai fora atrás de peixe, ele entra suado atrás de uma laranjada. Sininhos; ele se vira, ELA atrás dele, enrolada em uma toalha e bebendo um chá muito esquisito.
R pede desculpas, gagueja.
C oferece a chávena muito esquisita.
R aproxima uma caneca, C enche com o chá sem parar de olhar pra ele;
R não olha pra cima e agradece.

Você devia ficar mais em casa, na cozinha... Faz falta, sabia?
Ele não diz nada. Ela respira no ouvido dele, perto, DENTRO...

Você é especial...

Ele olha e ela está longe, na sua frente, nada dentro dele, nada perto - dentro, quente...
Larga o chá e corre pro quarto.
Sorriso.

20100510

PIRULITO é o melhor doce que há.

Eu era pequeno quando, estando em viagem à Portugal, visitamos um abrigo de velhinhos (eu mais meu irmão). Era coisa de fazer visita a algum amigo antigo de nossos avós que lá estava internado, não lembro bem - tenho a impressão, contudo, que foi ao falar da visita a ser feita ao tal amigo que eu ouvi de minha avó pela primeiríssima vez a expressão "dormir com as galinhas". Tenho também na memória a sensação de desconforto que se aportava em mim nessas visitas, sinal, analiso hoje, dos tempos finais da infância que se aproximavam (outro seria minha discussão algo acalorada em defesa de uma escultura abstrata, em prol de um conceito ainda incerto de "arte"). Mais forte que todas essas lembranças, até mesmo mais forte do que o cheiro de velhice que tinha o lugar, fica a de uma senhora (alheia, se não me engano, ao círculo de minha família) muito simpática que nos achava muito educados e nos dava pirulitos de cereja.

Eis: aquele sabor de cereja que não era o mesmo dos confeitos brasileiros, um sabor do qual me lembro muito bem e ao qual associo, muito mais que ao dito "sabor de infância", à experiência de visitar uma terra estrangeira. Algo de aventura, quem sabe, esse lançar-se num desconhecido vertiginoso, omnipresente - embriagante, até. É certo que eu estava, na ocasião daquela viagem, bem escorado pelos meus avós, e também em terra isófona (mas por pouco que não, diga-se de passagem). Não sei se isso importava muito.

Lembro-me de bem poucas coisas daquela viagem; das histórias mais famosas, como o "incidente da sopa de agrião" ou de quando eu sumi da vista de meus avós em uma pequena aldeia e reapareci munido de um graveto, riscando o chão com gestos até hoje imitados pela minha avó quando ela narra a ocasião, trago lembranças vagas de que ocorreram - às vezes, tão isenta de detalhes que fica a suspeita de que me lembro apenas de ouvir-contar.

Sobreviveu na minha cabeça aquele sabor artificial de cereja.

É cada coisa idiota que a gente repara quando é criança...

20100404

sísifo curte couro.

Euzébio talvez tenha perdido sua família num acidente, ou então num assassinato brutal. Talvez ele tenha uma irmã que corta lenha, mas acho que não.
Então, Euzébio pode acabar morando com um tio estranho na cidade (pode ser anarquista, esse tio).
No começo as coisas podem ser meio esquisitas, Euzébio sendo um rapaz meio soturno como sempre e ainda mais depois que essa tragédia toda, enfim... E o tio, ora. Talvez Euzébio abandone seu trabalho com couro pra instalar máquinas de café expresso, junto com seu tio.
E pelo centro ele acaba trombando com gente muito estranha, e daí ele tem que se virar como pode. Na porrada, quase. Mas ele não consegue.
Aí ele tenta tudo de novo.
E de novo.


Feliz Páscoa.
=)

20100220

am.pm

Ibrahim, homem muito sério e de muitos pudores, veste trajes brancos e caminha pela travessa são luís às sete horas da manhã;

junho: pego meu carro e disparo pela luís beltrão.

Ibrahim vira à direita e colhe uma flor do chão, sinto meu saco pesado dentro da calça e decido que é hora de me aliviar no posto de gaso-lina.

Ibrahim olha e cheira, no meu retrovisor eu vejo um Zapatista mascando um chiclé tuttifrutti e decido atropelar, só que de marcha ré é foda.

Ibrahim pensa na sua istambul querida que não volta mais, entra num bazar e compra três pares de calças.
Eu continuo enfiando palitos de dente na minha gengiva, às vezes enquanto me masturbo/am.

20100202

20091211

Conto de cavalaria

Durante toda a segunda década do primeiro milênio de nosso Senhor, Sir Rodrigues figurou entre os mais respeitados cavaleiros da região ao sul da Galícia. Nos anos em que bramiu sua lança em duelos nas arenas, ele desvirginou mais donzelas do que colecionou oponentes derrotados e gerou mais descendentes do que gostariam de crer os carpinteiros e ferreiros e artesãos e agricultores casados com moças tais.
Foi em um duelo contra Dom Henrique da Lusitânia que, diante das bancadas repletas de espectadores, Sir Rodrigues levou seu golpe mais duro e certeiro quando, prostrado de pé frente ao adversário já derrotado, viu na platéia os dentes brancos do sorriso quase completo da Senhorita Ana. (Digo "quase" não porque se furtasse a um sorriso em todo, mas porque o ano era o oitavo da segunda década do primeiro milênio de nosso Senhor, e porque no oitavo ano da segunda década do primeiro milênio de nosso Senhor, um sorriso nunca era realmente completo no que dizia respeito a dentes, ainda mais se brancos.) Ergueu a mão direita em um aceno que se pretendia confiante, e diante do vacilo do braço forte, não houve alma na platéia que não houvesse previsto sua derrocada. Mas Ana, que não gastava sorrisos à toa e ciente que era da brancura de seus dentes, nem chegou a ver o gesto débil, visto que já deixava a arena, sabendo-se vitoriosa.
O segundo ataque não tardou. Já três noites depois, em um baile, a donzela negou uma dança ao cavaleiro que, embaraçado, teve de simular um riso e alguns passos (e, posteriormente, uma noite de amor) com uma outra senhora que já há algum tempo lhe importunava e que gritava como um casal de gatos, o que só aumentou o desgosto do herói ferido. Os golpes, porém, não cessaram por aí, sucedidos pela hábil intercalação entre dias de indiferença e de olhares calculados, pelas roupas escolhidas a dedo e, finalmente, por três palavras sussurradas em um banquete, tão baixas que Sir Rodrigues se perguntava se realmente teriam sido ditas, enquanto se dirigia para atrás do pátio.
No entanto, tinham, e quando ambos se viram prontos para fazerem-se felizes é que subiram em seus cavalos e despiram-se das cotas e dos elmos e dos escudos e firmaram as mãos em suas lanças e apontaram-nas, enquanto disparavam os animais, para onde mais pudessem machucar.