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20130515
20120609
EPÍLOGO
"A época é de crise, sobretudo moral. O egoísmo, a maldade e a estupidez dos homens geram dificuldades e sofrimentos. Há graves e complexos problemas: a fome, a doença, a poluição, o desemprego, o crime, a corrupção, o despotismo, a pobreza e a riqueza extremadas, as regiões subdesenvolvidas, o s imperialismos de todo tipo, a super-produção e o subconsumo, o êxodo rural, as excessivas concentrações humanas nas grandes cidades, a explosão demográfica. Há inquietude social.
Acima de tudo, porém, continua a pairar, sobre todos nós, a constante ameaça de uma 3ª Guerra Mundial, que poderia resultar numa ampla catástrofe - o aniquilamento de parte substancial da Humanidade e o regresso a formas de vida primitivas.
No momento atual, defrontam-se dois grandes blocos adversários:
o capitalista (ou liberal-democrata, ou democrata-burguês), liderado pelos Estados Unidos, e
o socialista, liderado pela União Soviética.
E no horizonte surge, ameaçadora, a China comunista: 900 milhões de habitantes (mais de 1/5 da população mundial), bomba atômica e de hidrogênio, mísseis balísticos intercontinentais - a serviço dum fanatismo inflexível, alicerçado em mística política, sentimento de superioridade e profunda aversão ao Ocidente.
A guerra, pois, continua sendo a mais terrível ameaça à existência e ao bem-estar do mundo. Prosseguem, porém, as tentativas de coexistência dos regimes antagônicos.
Com tolerância, cooperação e fraternidade, poderá obter-se a paz duradoura. No passado, males tremendos foram sanados e sérios perigos foram banidos. Da mesma forma, também a guerra será eliminada no futuro. E haverá, então, paz e felicidade sobre a Terra."
Acima de tudo, porém, continua a pairar, sobre todos nós, a constante ameaça de uma 3ª Guerra Mundial, que poderia resultar numa ampla catástrofe - o aniquilamento de parte substancial da Humanidade e o regresso a formas de vida primitivas.
No momento atual, defrontam-se dois grandes blocos adversários:
o capitalista (ou liberal-democrata, ou democrata-burguês), liderado pelos Estados Unidos, e
o socialista, liderado pela União Soviética.
E no horizonte surge, ameaçadora, a China comunista: 900 milhões de habitantes (mais de 1/5 da população mundial), bomba atômica e de hidrogênio, mísseis balísticos intercontinentais - a serviço dum fanatismo inflexível, alicerçado em mística política, sentimento de superioridade e profunda aversão ao Ocidente.
A guerra, pois, continua sendo a mais terrível ameaça à existência e ao bem-estar do mundo. Prosseguem, porém, as tentativas de coexistência dos regimes antagônicos.
Com tolerância, cooperação e fraternidade, poderá obter-se a paz duradoura. No passado, males tremendos foram sanados e sérios perigos foram banidos. Da mesma forma, também a guerra será eliminada no futuro. E haverá, então, paz e felicidade sobre a Terra."
(BECKER, Idel: Pequena História da Civilização Ocidental - Ed. Nacional, 1978, São Paulo)
20110627
Frejk de Groot, o homem mais desinteressante do mundo
Frejk de Groot, o sujeito mais desinteressante do mundo, nasceu em Flandres durante a guerra dos cem anos, fato perigosamente interessante a ser incluído nesta biografia não autorizada. Até os dez anos de idade, sua principal atividade era ensinar os cachorros do vilarejo a urinar nas frutas expostas nos mercados ou nos tonéis de cerveja mantidos destampados pelos vizinhos menos cuidadosos, dando o sabor amargo que por muito tempo seria confundido com alguma especificidade do armazenamento de Ale de alta fermentação em barris de madeira.
A partir de então, o relato de sua juventude se complica, visto que alguma incerteza entre os historiadores da época resultou em mais de cento e setenta e cinco relatos de suas mortes nos mais variados locais e nas mais distintas datas. Ele teria sido atingido por uma flecha inglesa (EINEBALD, William, Vinte dias para a vitória, 1358) quinze dias depois de morrer torturado por franceses (HINESTEIN, Friedich, Lista de flamengos mortos entre 1350 e 1450, 1454) e sete meses antes de agonizar em chamas durante o incêndio de Limburgo (GARTIER, Pierre, Como ganhamos Vlaanderen, 1818).
O fato chamou a atenção de Henrique de la Nataña, historiador catalão que desenvolvia um estudo sobre a linhagem francesa dos Tissou, especialmente quando ele notou que a totalidade destas mortes ocorreu antes do ano de 1417, data em que Frejk teria matado Guillaume Tissou às margens do rio Demer.
Aprofundando suas pesquisas, o historiador observou que as versões acerca da morte e da vida de de Groot se baseavam em relatórios semi-oficiais registrados pelo condado em que vivia nos anos entre 1400 e 1437. Tomado por uma feliz epifania, Henrique imediatamente apagou de seus estudos todas as menções ao polimorrente holandês, recitando a desventura aos amigos mais íntimos e concluindo aos risos: Frejk de Groot não passara de um escriba ambicioso e bem humorado, ansioso por ter seu nome escrito (e reescrito) nos anais da História.
Henrique de la Nataña, hoje sabemos, foi o maior difusor de versões incorretas sobre fatos históricos, o que nos enche de otimismo ao lançar-mos-nos à vida e à obra do jovem flamengo.
20110331
fragmento azul
José sempre soube que ver as coisas era questão de escolha; obviamente pode-se desviar o olhar mecanicamente, com torções do pescoço ou movimentos de corpo inteiro e até mesmo fechares de pálpebras, mas esquece-se às vezes que a visão é um processo cognitivo e, portanto, passa necessariamente por uma etapa de reconhecimento semântico - a imagem "bruta" absorvida é submetida a uma transformação em significado. Esse processo é, sabia José, totalmente voluntário e controlável.
Foi assim que José não viu a morte - com a combinação ágil de piscadelas de ginasta e uma espécie de autismo fabricado, desfez o que se fazia à sua frente: um corpo de mulher desabando como tijolo em nada, já sem sentido. Dizer que continuou andando daria um tom maior à dramaticidade, mas é mentira: nem mesmo estava em movimento quando aconteceu, os pés plantados no chão como quem vê a lua com telescópio, um suíngue lentíssimo balançando-lhe os quadris enquanto admirava o que quer que fosse que caía. E então -- nada.
Gabriel lhe perguntou desesperado, bêbado talvez, afinal o que acontecia ou acontecera - mais cinco ou seis ao redor, círculo do telefone-fogueira, queriam saber, aflitos. José não o via, não é preciso falar, e a voz de Gabriel era quase um slogan alienígena surgindo metálica. Disse apenas que não sabia, que não tinha como saber, e desligou.
Viu-se no espelho de relance, distraído, e reconheceu sangue nos seus sapatos, antes que pudesse evitar. Fechou os olhos mas não foi suficiente
[apenas um adendo de qualidade duvidosa
e veneno histórico:
josé era o filho do neto do longínquo descendente
de um famoso bandeirante cujo nome já se perdeu
homem de grande bravura
de grande corpo
de longa espada.
desgraçado pelo sexo
(de uma nativa)
atocaiou-se em minas gerais
em uma gruta
em uma cachoeira
tornou-se bruxo
renascido Hermes
e viveu de cogumelos
até se tornar constelação]
pois o que estava visto estava visto, sem negociação. Naquele bar, quase gentrificado a ponto de se tornar uma padaria familiar, não havia ninguém que se importaria, creu ele. Comprou um café, uma cachaça, uma cerveja e uma coca-cola e bebeu-os nessa ordem, o mais rápido possível. Ao fim, tão enebriado quanto sóbrio, dirigiu-se ao banheiro e lá se trancou.
José também sabia outra coisa que esquecemos: morrer. Morreu, então.
dentro de uma estrela que na verdade é fria como todas as estrelas porque estão no espaço dentro de uma sala mobiliada como uma mesa de bilhar dentro de um armário de madeira de lei composto por mozart está josé de olhos abertos vendo ela dançar sobre desenhos de giz que talvez sejam o retrato de um ex-general sem nome e a dança é incrivelmente bonita e lhe faltam palavras
Foi assim que José não viu a morte - com a combinação ágil de piscadelas de ginasta e uma espécie de autismo fabricado, desfez o que se fazia à sua frente: um corpo de mulher desabando como tijolo em nada, já sem sentido. Dizer que continuou andando daria um tom maior à dramaticidade, mas é mentira: nem mesmo estava em movimento quando aconteceu, os pés plantados no chão como quem vê a lua com telescópio, um suíngue lentíssimo balançando-lhe os quadris enquanto admirava o que quer que fosse que caía. E então -- nada.
Gabriel lhe perguntou desesperado, bêbado talvez, afinal o que acontecia ou acontecera - mais cinco ou seis ao redor, círculo do telefone-fogueira, queriam saber, aflitos. José não o via, não é preciso falar, e a voz de Gabriel era quase um slogan alienígena surgindo metálica. Disse apenas que não sabia, que não tinha como saber, e desligou.
Viu-se no espelho de relance, distraído, e reconheceu sangue nos seus sapatos, antes que pudesse evitar. Fechou os olhos mas não foi suficiente
[apenas um adendo de qualidade duvidosa
e veneno histórico:
josé era o filho do neto do longínquo descendente
de um famoso bandeirante cujo nome já se perdeu
homem de grande bravura
de grande corpo
de longa espada.
desgraçado pelo sexo
(de uma nativa)
atocaiou-se em minas gerais
em uma gruta
em uma cachoeira
tornou-se bruxo
renascido Hermes
e viveu de cogumelos
até se tornar constelação]
pois o que estava visto estava visto, sem negociação. Naquele bar, quase gentrificado a ponto de se tornar uma padaria familiar, não havia ninguém que se importaria, creu ele. Comprou um café, uma cachaça, uma cerveja e uma coca-cola e bebeu-os nessa ordem, o mais rápido possível. Ao fim, tão enebriado quanto sóbrio, dirigiu-se ao banheiro e lá se trancou.
José também sabia outra coisa que esquecemos: morrer. Morreu, então.
dentro de uma estrela que na verdade é fria como todas as estrelas porque estão no espaço dentro de uma sala mobiliada como uma mesa de bilhar dentro de um armário de madeira de lei composto por mozart está josé de olhos abertos vendo ela dançar sobre desenhos de giz que talvez sejam o retrato de um ex-general sem nome e a dança é incrivelmente bonita e lhe faltam palavras
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