Eu acho isso um absurdo.
20090504
20090303
PARE E LEIA, baseado em fatos reais
Ivan tomou por vãs as filosofias de seu pai, partiu para a escola sem mais pestanejares numa passada desastrasa e lânguida, subiu no ônibus e sentou-se ao banco. "Higiene", sorriu, e foi aí que seu bafo atingiu a orelha da garota a sua esquerda, e a deixou surda até de alma. Sorte dela, o nariz e o resto escaparam, mas os vícios lhe iriam carcomer até no inferno, porque de puta ela tinha a vontade e vocação, e só não se profisionalizara no ofício pelo tamanho dos dentes, demasiado grandes e imperdoáveis nessa carreira. Sua mãe fora puta, e para isso arrancara quatro dentes (dois em cima, dois em baixo), mas ela jamais cometeria um disparate desses, pois na sua casa só se comia carne de segunda. Reclamou com Ivan pela imundície de seu respirar e o traumatizou permanentemente. O garoto passou a escovar os dentes mais do que viver. Escovava a cada meio ponteiro grande, os dentes, a língua e a gengiva, até sangrar e ele sentir provocações na garganta. Bebia um composto de hortelã ardido durante as refeições, e andava freqüentemente alucinado pelos fantasmas da sujeira. Na escola um coleguinha lhe disse que o cu humano possuía dentes, uma piada antiga e deveras mal contada, mas que Ivan tomou a fio, de modo que passou a escovar as cavidades tão bem quanto aos dentes, e sonhava com dentes sujos pela noite.
Trocou as refeições por creme dental e a diversão por sessões sangrentas de escovação, com vocação religiosa de mártir carregava o pecado das impurezas bucais, como se o tornasse um prócer da existência humana, e nada lhe fazia parar. Seus pais o levaram a um psiquiatra que lhes recomendou uma boa coça e atirar todos cremes dentais COLGATE, QUE É O MELHOR CREME DENTAL QUE EXISTE E É RECOMENDADO POR QUEM ENTENDE DO ASSUNTO, pela janela, e foi bem o que fizeram, mas o tiro saiu pela culatra, e Ivan atirou-se também num esforço desesperado que resultou em morte de esbagaço. Não dele, mas da surda de uma orelha só, que passava e não ouviu a gritaria, pobre coitada.
Ivan só morreu duas semanas depois, duma infeccção anal.
20090228
20090123
Um Ficção
Ele segue todo o perímetro de uma rua ofegando. E olha para trás, onde um frio escabroso caminha em sua direção, sussurando baixo um grito de angústia. Pânico. O pobre garoto contorna a esquina, as casas cantam em janelas fechadas e brisas fortes, seu coração engasga a garganta, os joelhos falham e tropeçam ao chão. Sangue nas calças e mãos, e uma visão já turva do que se passa.
Duas figuras encapuzadas surgem do além e tomam posse da situação, flutuando pelo céu negro e enfim gélido. O sussuro fica mais alto e ensurdece os ouvidos do adolescente. Ele pensa em sua mãe, na alegria de vê-la viva novamente.
Apalpa o bolso das vestes, aponta alguma coisa para os antagonistas e grita alto:
- EXPECTO PATRONUM!
20090119
Caras e Bocas
20081228
BOOM
20081226
Tutte le strade portano a Roma
A paisagem em questão é de uma beleza crepuscular. Dois ambientes distintos, separados em bastarda calçada, como se o Sol e a Lua fossem apartados por algum planeta ousado, de menor importância; como o veneno de Romeu e Julieta ou ainda como o chumbo certeiro de John Lennon. E são dispersos.
Um garoto, uma mulher e um homem. Apresentam no olhar e andar um tom de quem está perdido – é possível perder-se numa estrada de mão única?, e não parecem conhecidos. O garoto, maravilhado com a visagem, põe-se a caçar lagartas no deserto campestre, aquela imensidão verde, e se arrasta pelo mato, sem dar importância às outras duas pessoas. A mulher, como é de se esperar, apóia as duas mãos sobre o corrimão e olha o mar azul como se não houvesse nada mais interessante para fazer. O homem segue em frente.
A mulher pergunta ao homem onde estamos?, e o homem volta-se para ela, olha de cima a baixo, e responde não sei, mas eu acho que deve ser coisa do destino. Ela sorri e encurva a cabeça brilhante, roçando o solo com um dos pés. O menino continua se arrastando pelo campo.
O homem olha para o campo e pergunta ao garoto o que faz aí?, e o garoto grita sem olhar para quem caçando lagartixas!, e não interrompe seus fazeres. O homem sorri, mas não sabe bem como proceder – continua em frente pela calçada ou não? A mulher volta a olhar o mar.
O menino levanta-se com algo na mão, olha para os dois lados e, no momento em que o homem decide seguir em frente, atira, vivo, um pequeno réptil nos cabelos da mulher, que se rebate em berros a procura de seu invasor. Socorro, socorro e o homem pula em cima dela e começa a ajudar, e é ele que consegue divorciar a mulher da lagartixa sapeca, e arremessa-la ao mar. O menino ri, a mulher se conserta e o homem volta-se para ela.
Você está bem?, estou, vem que eu te levanto, pronto, aqui, obrigada. O menino pára de rir e começa a caçar algo maior. A mulher tem novamente as duas mãos apoiadas sobre o corrimão, o homem diz sim oh, sim, e ela concorda. Os dois se apaixonam, amor à primeira vista, ela diz eu te amo, ele só ri, e os eles decidem criar e educar o garoto, porque isso tudo é coisa do destino ou de alguém maior que eles, com dez dedos e unhas sujas. Eles são supostos a fazer isso. Viver. Está decidido, eles vão se amar, os três, e estão todos felizes com isso.
Mas uma pergunta ainda existe.
20081224
Uma náu neologista
Na domingueira que antecede a semana santa, e me perdoem as minúsculas, a gravidez das palavras descrevia um círculo miúdo tornado oblíquo em minhas pernas cafuzas. A catinga que emanava da sala quadrada, dessas cubículas, bem branquinhas, bem branquinhas, cantava em fedores mornos e se fundia ao calor numa perfeita imitação da valsa um-dois-três.
Minhas pernas abertas, ainda em valsa, permitiam à lubrificosa melhor visão do mundo, pois assim ele me disse para ficar. Arreganhada, então, deitada, sentia as pulsadas da coisa que se avolumava dentro de mim; dentro para fora, dentro para fora. A dor mudou o nome da lubrificosa, e ela sangrava como o vinho das taças ricas de minha sinhá.
O movimento contínuo, os olhos daquele que segurava minha mão apertativa, e os gritos e gemidos de uma pobre mulher que não soube amar como devia, tudo isso naquela noite quente de domingueira, que mudaria minha vida para sempre.
- Mais forte, respirava.
- Mais força, respirei.
- quase lá, quase lá.
E mais forte a pulsada me carregava a dores senhoras, e mais forte e alto gemia minha alma. E minha ossada se avermelhou e cantava em coro, e um grande boi me apareceu nas vistas. O chifrudo fumava um charuto bem grosso, e grossa era a coisa que relutava em me deixar pazigüada, arrebatando jorradas de meu sangue.
Com desavenças, tapas aqui e tapas lá, motorei o tato, espremi a barriga e contorci o cangote, em busca de algo que me levasse embora dali. Lambuzadas de sangue, minhas pernas pintavam abstratas os lençóis desalinhados daquele colchonete. A dor não cessava. Pensei na minha mãe, e em tudo que ela havia me ensinado sobre os homens. A velha mulher me dava as lições mais valorosas já ignoradas por alguém, e ainda lavava a louça como ninguém. E ninguém e alguém, neste contexto, são a mesma pessoa. Ou a mesma não-pessoa. Pensei em toda a minha vida, mas nada me arrebatava aquela sensação que tomava forma dentro de mim, e me machucava as entradas.
O choro me subiu aos ouvidos, e eu deitei de lado, exausta. Quase sorrindo.
- é menino.
20081223
Lúcia, dos cabelos ruivos
A menina, Lúcia, tão cheirosa, 12 anos, aprendeu com sua mamãe a usar creme hidratante, daqueles que não necessitam de enxágue. "É pra ficar mais bonita", ela disse com os olhinhos brilhantes e com as duas mãos segurando firme o frasco. Seu troféu. Sorrindo destampou, virou de cabeça para baixo e esperou que o creme escorregasse até suas delicadas e lindinhas mãos. O que não aconteceu, deixando a danadinha perplexa.
Com um salto e uma coceira no céu da boca, a menina pôs-se a lutar freneticamente contra o pequeno frasco escuro, no sentido de rolar pelo chão, esmurrar com toda sua forcinha infante e dizer ofensas terríveis como "seu creme bobo" e "nem te quero mais". E a luta continuava: ela batia, torcia, contornava todo o frasco com suas mãos, esfregava, sacudia, dançava, enfim, era um vai-e-vem de mãos apressado, de ritmo colorido.
No final da tarde, lá estavam, Lúcia e seu Everest. Ela, de ruivos cabelos suados; ele, negro e inflexível. E veio no coração da Palavra a dúvida de que talvez Lúcia estivesse usando da abordagem errada. Talvez, é. E foi isso que a lindinha pensou, juntanto suas capacidades numa última tentativa. "Desculpa, eu sei que você só precisava de um pouco de carinho". E então acariciou suavemente o frasco negro, apertando aqui e ali, em quatro idas e voltas pelo objeto.
E não é que deu certo?
Sem que ela esperasse, o cremoso branco espirrou do frasco negro e lhe atingiu o rostinho assustado, porém curioso.