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20121128

lóbulos tímidos


   Gritaram comigo com tanta força e com uma vontade tão violenta que os lóbulos das minhas orelhas se enrolaram e, sozinhos, taparam meus ouvidos.
   - Mais forte -, eu pedi.
    Dessa vez, os olhinhos se espremeram tanto no rosto dela que eu achei engraçado e rompi no riso. E meu riso ressoou mais que o grito.
   - É injusto!
   Cada narina inchou bastante. No urro seguinte, só consegui prestar atenção nelas.
   Mais um e senti que a garganta começava a rachar. Coisas ruins poderiam acontecer.
  No que veio depois, meus lóbulos, sozinhos, escorregaram para fora dos ouvidos e ficaram pendurados como de costume, e eu senti uma dor. Mais um, e dor ainda mais aguda.
   Os olhinhos meus dessa vez, dolorida, devem ter sido tão engraçados que desenrolaram nela uma risadona que foi mais forte do que qualquer grito e eu, apesar da dor, quis rir também.
   - Desculpe, terei que rir...
   - Tudo bem.
   E então fomos embora, gargalhando.
   



20100717

Instruções étnicas para fazer sua família feliz

Táu shan guezmísh, guezmísh, guezmísh;
(Burda káksan, burda pisht!)
(Burda káksan, burda pisht!)

Bu guiór mush,
Bu tutmúsh,
Bu pish-mísh,
Bu imísh...

I buda-banad, bilud madjik??
Tsc-tsc-tsc,
Psssssssssssht!...


  • Primeiro, o dedo roda na palma da mão, em movimentos giratórios e leves (uma intenção de cócega, talvez);
  • O mesmo dedo aponta, acompanhando os versos, os cantos da palma, alternando em diagonais - como marcando as pontas de um X;
  • Pega-se um dedo a cada verso, começando pelo dedão e seguindo até o anelar, fechando cada um deles em direção à palma;
  • Ao chegar no mindinho, como se por falta de alguma coisa, recita-se o verso interrogativo, talvez com uma voz bem fina e de preferência bem rápido;
  • Leva-o aos lábios para os muxoxos e então o aponta para o rosto da pessoa enquanto recita o verso final: ela deverá rir (se não, e se for uma criança, cócegas podem acompanhar sem problemas);
  • O essencial é manter o contato visual sempre que possível, uma seriedade respeitosa um pouco forçada, como se tratasse de um ritual de extrema importância mas durante o qual é difícil segurar o riso.
Pronto.
:)

20100419

Pesquisa noturna

Ontem antes de dormir resolvi pesquisar qualquer coisa sobre o Rasputin.

Só descobri que há um pretenso pênis de trinta centrímetros dele num museu aí na Rússia.

Depois disso, prossegui com a leitura do 62 e pensei: meu paredro pode ser um membro?

E aí me deu vontade e eu resolvi que era pra levantar. Eu tentei, fiz força, ou, sei lá, queria só abanar aí, sacolejar, fiz toda a força do mundo. Enfim, não sei nem se a questão era levantar, talvez mais respirar, buscar a superfície ou alguma veia que pulsasse e me ajudasse. Foi tudo inútil e eu me senti um paquiderme inerte e vi que estava afogado, quase sem pêlos e exposto para quem quisesse ver.