Mostrando postagens com marcador seriedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador seriedade. Mostrar todas as postagens

20100621

Crítica Literária

Na "arte" produzida atualmente, parece ser uma constante o choque pelo choque e a falta de um propósito maior - a sensação de que "tudo vale", de que todas as piadas devem ser feitas, o cultivo da falta de sentido aparente e até mesmo da falta de sentido total. Palavras são jogadas ou arranjadas apenas para o escárnio - violência é reproduzida de maneira infantil - sexo é banalizado como o estupro dos vencidos. O novo método da arte é o zapear da tv - palavras jogadas no papel como imagens brilhantes, corvos. Diatribes. A única moda é o ridículo - tanto o seu quanto o outro. Tudo que poderia ser chamado de emoção é descartado e desprezado, depravado como piegas. Não há mais o estender da mão. Não há mais causa. Não há mais. E eu aqui sozinho, e vocês me deixando cair num abismo... sem encontrar uma palavra de sintonia, de catarse, em livro algum... não há mais, e só eu me importo...

20090104

True Foe Says:

Como é que começou? Como é que entrou nisso? Como escolheu esse trabalho? Como chegou a cogitar em assumir esse emprego? Você não é como os outros. Eu vi alguns; eu sei. Quando eu falo, você olha para mim. Ontem à noite, quando eu disse uma coisa sobre a lua, você olhou para a lua. Os outros nunca fariam isso. Os outros continuariam andando e me deixariam falando sozinha. Ou me ameaçariam. Ninguém tem mais tempo para ninguém. Você é um dos poucos que me toleram. É por isso que eu acho tão estranho você ser bombeiro. É que, de algum modo, não combina com você.

20081223

Lúcia, dos cabelos ruivos

A menina, Lúcia, tão cheirosa, 12 anos, aprendeu com sua mamãe a usar creme hidratante, daqueles que não necessitam de enxágue. "É pra ficar mais bonita", ela disse com os olhinhos brilhantes e com as duas mãos segurando firme o frasco. Seu troféu. Sorrindo destampou, virou de cabeça para baixo e esperou que o creme escorregasse até suas delicadas e lindinhas mãos. O que não aconteceu, deixando a danadinha perplexa.

Com um salto e uma coceira no céu da boca, a menina pôs-se a lutar freneticamente contra o pequeno frasco escuro, no sentido de rolar pelo chão, esmurrar com toda sua forcinha infante e dizer ofensas terríveis como "seu creme bobo" e "nem te quero mais". E a luta continuava: ela batia, torcia, contornava todo o frasco com suas mãos, esfregava, sacudia, dançava, enfim, era um vai-e-vem de mãos apressado, de ritmo colorido.

No final da tarde, lá estavam, Lúcia e seu Everest. Ela, de ruivos cabelos suados; ele, negro e inflexível. E veio no coração da Palavra a dúvida de que talvez Lúcia estivesse usando da abordagem errada. Talvez, é. E foi isso que a lindinha pensou, juntanto suas capacidades numa última tentativa. "Desculpa, eu sei que você só precisava de um pouco de carinho". E então acariciou suavemente o frasco negro, apertando aqui e ali, em quatro idas e voltas pelo objeto.

E não é que deu certo?

Sem que ela esperasse, o cremoso branco espirrou do frasco negro e lhe atingiu o rostinho assustado, porém curioso.