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20130208

"prendam-me, por favor! já não posso mais!!"

dirigia pra casa numa madrugada qualquer quando me botei a pensar (eu tinha assistido recentemente a um filme que falava de freud e coisas do tipo, e estava um pouco confuso) me botei a pensar que a gente, ou pelo menos eu, raramente sinto que eu posso algo; o sentimento só existe quando eu não posso fazer alguma coisa - por incapacidade física, ou força das circunstâncias.

tenho a mais absoluta certeza que isso é um fato já conhecido e exaustivamente estudado por uma miríade de senhores e senhoras muito mais competentes do que eu, de forma que não quero aqui me colocar como um grande sábio nem nada do tipo...

mas passei a pensar, por exemplo, a respeito do modo como eu dirijo: completamente repreensível, ainda mais de madrugada, ainda mais quando sob força de pressões das mais variadas formas (o tempo, um compromisso, o sono, etc. etc.) e em como eu quase nunca sou parado nas ruas. eu, rapaz de figura quase decente, acima de tudo branco e guiando aquele carro japonês. me ocorreu então o óbvio, que eu posso mais do que outras pessoas, em outras circunstâncias (e, evidentemente, não posso tanto quanto outras, em circunstâncias ainda diferentes das duas primeiras).

isso me pareceu errado, absurdamente errado.
a minha formação de caráter (caractere, character, charque) se dá, acima de tudo, por um constante tatear de limites, do espaço estreito entre poder e não poder.

essa desigualdade [social, que se reflete] no campo das escolhas e das possibilidades gera inúmeras aberrações de personalidade (caráter) na sociedade; tanto o excesso de poderes quanto o excesso de não poderes deforma o cidadão.

e isso é (também) violência.
violência pra caralho, quando você para pra pensar.

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então eu decidi abandonar minha vida, queimar meus pertences e rumar sem nome.
a partir de hoje, vou me dedicar a caçar todas as Aberrações que eu encontrar pela frente.

porque nenhum homiciodiozinho pode ser comparável a tamanha violência...
né?

20101025

Gorila Zé Moleiro

O gorila Zé Moleiro perdeu um dente comendo côco. Mandaram, a mando do guarda-jaula, chamar um dentista que pudesse fazer implante. De forma alguma encontrar um odonto seria problema, mas o diretor do zoológico chiou. Zé Moleiro permaneceu banguela, entristecido.

Quando começou a sentir mais falta, olhou primeiro para o seu dedo mais portentoso. Unha portentosa também, perigo a vista... mas Zé Moleiro era curioso e no buraco escavado aprumou o dedão, que machucou a gengiva.

Aí sim, sentiram que ele afligira-se. Não havia uma única bananeira na propriedade de Zé Moleiro, a “jaula” assim dizem, e bananas só em rações periódicas. Zé pensara em estancar o buraco com uma massa mastigada e ele ficou bem, bem irado ao se ver sozinho e desolado.

Quebrou as barras, desculpou-se com seu zelador Pedro e fugiu de vez, aputecido com o descaso e louco por algo que lhe estancasse a dor. Chupou um sorvete que pegou na padaria e com isso se viu calmo o suficiente a buscar um dentista.

Dr. Bicudo o recebeu sem constrangimentos maiores, apenas um incômodo causado pelo bafo de Zé. O procedimento foi simples e no final os dois se sentaram para uma conversa informal. Zé Moleiro expressou suas convicções, especialmente àquelas referentes a administração e Bicudo ouviu atento, pois eram poetas.

- Mas...veja bem, Moleiro – disse enquanto se reclinava e passou os dedos na coxa, para tirar alguns fiapos – Alguma vez pediram ou disseram que a função sua seria exibir os dentes? Não é fato que sua graça está antes no movimento pela jaula e similitude conosco? Por que haveria o diretor de gastar bom dinheiro público em dente que ficaria – se o Sr. se comportasse com o decoro exigido – oculto na maior parte do tempo? O senhor é vaidoso! Vaidoso e egoísta! Um vaidoso mimado! Deveria arrancar-lhe de volta o pivô e puxar mais alguns em companhia! Ladrão vaidoso!

O doutor balançou as mãos e cadeira enquanto percebia o quão patife ele parecia, ali querendo consertar o que não precisa ser consertado, e seu ataque foi feito com orgulho cívico e um pouco de medo (afinal, era um gorila); não obstante, Zé Moleiro absortou-se em alguma vergonha – pois também tinha algo de Homem - e saiu, honesto, desapontado. Ao dobrar esquina, cravou os molares numa moça de bijuteria e perdeu todos eles e ela; viu o pivô incrustado (que gorila usa pivô?) ali no pescoço caído da moça que era bonita mas não forte o suficiente e, criminoso, voltou-se à jaula.

Enquanto isso o doutor se levantou, passou os olhos pelos livros do consultório na estante como que para mostrar erudição e em pose acabou tendo que sorrir para si mesmo e olhar para os lados. Triunfo em haikai!

macaco safado
mostra sua malvadeza
metendo no bolso

20100401

Eu vos apresento o bigodin!

Perdi meu cachorro em algum lugar nesse parque... você achou?