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20140314

lorota fotográfica, XI


forma de despedida
fotografia como morte
o adeus alongado na retórica do instantâneo


forma de reencontro
você vê a imagem
eu vejo o tempo que afoguei nela

tempo demais pra mim

20130619

é tempo de dinheiro

le temps c'est de l'argent

quando ainda estudava francês - não que tenha aprendido de fato a língua, apenas não estudo mais
minha professora, uma senhora que tinha seus 18 anos em 68 em paris
- e que veio ao brasil atrás de seu amor -

ela me perguntou se eu concordava com a expressão "le temps c'est de l'argent"
ouvindo assim, pela primeira vez, entendi-a como "o tempo é do dinheiro"

eu disse que sim
era uma boa definição para nosso momento: o tempo é do dinheiro
não é?

ela fez cara de desaprovação e me botou contra a parede para explicar porque eu concordava
acho que ela disse algo como
"mas você fala que gosta de Godard e concorda com isso?"
tentei articular algo num francês muito ruim e acho que não tive sucesso

ficou por isso mesmo

depois da aula, perguntei para o henrique qual que era e ele me disse
"le temps c'est de l'argent"
"time is money"
"tempo é dinheiro"

entendi.

20110717

último verso para anular o poema:

jogo os gestos — que pele bonita! — no dia aberto

20110706

FEAR

By Nancy Tune

I am afraid my cancer will come back. I am afraid I will not be ready for it, that I will not behave gracefully as I die. That is not exactly right. I am afraid I will behave disgracefully as I die, especially if there is a lot of pain. There are cancer patients about whom people say, “She had a lot more pain than she let on.” I am afraid they will say about me, “She just didn’t deal with pain well. Not nearly as well as —— did.”

I am afraid my husband, whose advanced Parkinson’s has robbed him of his physical and mental well-being, will die. I am afraid my husband will not die, that we’ll go on like this forever, cobbling together our days and nights into a bearable routine, sometimes stumbling and failing and finding that we cannot bear it after all. I am afraid of realizing, over and over, that there is no alternative but to act as if we can bear it.

I am afraid I will never write again, or that I will write and write and never produce anything worthwhile. I am afraid I won’t have the energy to rewrite and rethink and make decisions about what I have already written. I am afraid other people will think that what I write is silly. I am more afraid, though, that when I am done, I will think that what I write is silly.

I used to be afraid that the plane would crash. Now that seems odd. What is a plane crash but freedom from the real fears? For me, it turns out, it’s not dying that scares me; it’s what happens as you run out of time.

20100923

ela

o problema é que ele não estava morto nem nunca estaria, não enquanto ela estivesse viva também, ele só morre quando não existir mais e ainda existe no remorso e prazer dela e nos dedos dela que ele já beijou e nas paredes pelas quais ele já percorreu os dedos tanto tempo atrás e tão pouco tempo atrás, um fantasma em corredores e em televisões e em carros, só quando tudo que ele já tocou e pensou e comeu e amou virar pó e esse pó virar estrela e essa estrela se apagar em escuro ele vai deixar de existir e então vai ter sido ridículo e ineficaz tê-lo matado e é por isso que ela está andando por um corredor e percorrendo sua parede com os seus dedos como quem pensa em porque somos assim e talvez seja nisso que ela está pensando, talvez seja no quanto se arrepende ou talvez não esteja pensando nisso, talvez esteja pensando em não pensar nisso, com toda a força que ela tem, que não é pouca, andando um pouco bêbada e um pouco fora de si mas por isso totalmente si-mesma, mais do que antes, digitando em computadores confissões disfarçadas de imagens, sem nenhuma realidade que não a dela mesma, vendo a si mesma refletida em telas apagadas e acesas, com sons que ela não sabe mais ouvir a não ser a própria voz, ela luta com sua alma, mesmo sem acreditar ter uma, com palavras que não são mais do que eu sou, que são mais do que são, som e sim, ela uma moça bonita de futuro sem futuro, andando por paredes manchadas de velho que não mais, diz-se que não dizendo só uma palavra mas somente todas, coisas que ela já não sabe mais a não ser esquecer, verdade é aquilo que eu já descobri mas não me recordo, ela é pequenas manchas em sólidos não-euclidianos que vagam na velocidade dos sólidos não-euclidianos, mais e menos, ela ama a si mesma tudo o que podemos, ela só um abismo, sem tempo para nada que não nada, sentindo um, ela esquece.

20100901

diálogos (misc)

A: BARULHO barulho BAGULHO (!)
B: where is the love
A: Eu comecei no topo e só decaí desde então.
B: o amor que tu me destes era pouco e se acabou
A: Fui me transformando aos poucos em uma gigantesca lesma sem alma aos seus olhos e então era inevitável que tudo terminasse, para sempre - em um grande teatro.
B: nós não somos mais - totalmente, tragicamente, ternamente.
A: Se você voltar pra mim, eu prometo construir escolas, curar os doentes, libertar os detentos, alimentar os pobres, beijar os bebês.
B: quem é você, diga logo
A: Eu não sei mais, não sei mais não sei agora eu sou só um caminho que não leva a lugar algum, um homem sem irmãos que existe num vazio preto e não branco, sem paz só fim.
B: sussurro surdamente um algoz - nós.
A: Agora eu vou me matar e a culpa vai ser sua.


(um palhaço passa por eles - interlúdio - e entrega uma rosa para a bela moça, sorrindo, ela lhe sorri de volta dentes solares, todo o público engasga o ar pastoso, esperançoso, torcendo pelos seus doppelgangers incompetentes, uma nuvem pesada se retorce parafuso, os pais-sogros sentados já chorando, representação de algo inexprimível - um estampido)

A: Você não se importa nem um pouco e por isso eu não posso fazer nada.
B: vou sendo como posso.
A: Agora não dá mais, caralho, não dá, eu me saio daqui nessinstante e vou pro estrangeiro, sumo, esqueço, escafedo, um dia renasço virgem e feliz. Você, cruel...
B: só... fica.
A: não mais.
B: (beija, acaricia, enlaça) a beleza será convulsiva, ou não será
A:
B:
A:
B:

(um encontro)

B: e sim eu disse sim eu quero Sim.