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20141113

27 de novembro:


"Tudo está se complicando. Estão acontecendo coisas horríveis. De noite acordo gritando. Sonho com uma mulher com cabeça de vaca. Seus olhos me fitam fixamente. Na realidade, com uma tristeza comovente."

(R. Bolaño, Detetives Selvagens, pag. 94)





20140424

ZAMBRA, Alejandro - "A Vida Privada das Árvores", pg. 76:


"Como representar o que acontece enquanto conversam, o que deixam de dizer um para o outro, aquele fundo de censuras tímidas, de minúcias, que se agita enquanto falam? Como iluminar as áreas que ambos decidiram deixar às escuras?"




20111217

i de ironia, david foster wallace (serrote no. 6)

A ironia da arte e da cultura do pós-guerra começou da mesma maneira que a rebelião jovem. Era algo difícil, doloroso, mas produtivo – o soturno diagnóstico de uma doença longamente negada. As premissas por trás daquela primeira ironia pós-moderna, por outro lado, ainda eram francamente idealistas: supunha-se que a etiologia e o diagnóstico apontaseem para a cura, que a exposição do cativeiro conduziria à liberdade.

Então como foi que a ironia, a irreverência e a rebeldia se tornaram debilitantes, em vez de libertadoras, na cultura sobre a qual a vanguarda de hoje tenta escrever? Uma pista pode ser encontrada no fato de que a ironia ainda está aí, maior do que nunca, depois de 30 anos como modo dominante de expressão dos artistas antenados. Não é um recurso retórico que envelheça bem. Como diz Hyde (de quem eu obviamente gosto), "a ironia tem uso apenas emergencial. Estendida no tempo, é a voz do prisioneiro que passou a gostar de sua cela." Isso se deve ao fato de que a ironia, embora prazerosa, tem uma função quase exclusivamente negativa. É crítica e destrutiva, boa para limpar o terreno. Com certeza era assim que nossos pais pós-modernos a viam. Mas é particularmente inútil quando se trata de construir alguma coisa para pôr no lugar das hipocrisias que expõe. Eis por que Hyde parece acertar ao dizer que a ironia renitente é cansativa. Eu acho perversamente divertido ouvir o discurso de ironistas talentosos em festinhas, mas sempre saio dali com a sensação de ter sido submetico a várias intervenções cirúrgicas radicais. Sem falar em atravessar o país de carro ao lado de um ironista talentoso, ou ler um romance de 300 páginas e que não há nada além de sarcasmo espertindo, experiências que nos deixam não apenas vazios, mas, de alguma forma, oprimidos.

Pense, por um momento, nos rebeldes do Terceiro Mundo e seus golpes de Estado. Rebeldes do Terceiro Mundo são ótimos na tarefa de denunciar e pôr abaixo regimes hipócritas e corruptos, mas parecem consideravelmente piores no trabalho mundano e não negativo de estabelecer em seguida uma alternativa superior de governo. Rebeldes vitoriosos, na verdade, parecem se sair melhor quando usam seus talentos de força e cinismo para evitar que outros se rebelem contra eles – em outras palavras, tornam-se apenas tiranos mais competentes.

E não resta dúvida: a ironia nos tiraniza. Nossa difusa ironia cultural é, ao mesmo tempo, tão poderosa e tão frustrante porque é impossível saber com clareza o que quer um ironista. Toda a ironia americana se baseia num argumento implícito: "Na verdade, eu não quero dizer o que estou dizendo". Mas então o que a ironia como norma cultural ˆquerˆdizer? Que é impossível querer dizer o que se diz? Que talvez seja mesmo uma pena ser impossível, mas acorde para a vida e pare de sonhar? Acredito que, no fim das contas, a ironia de hoje está provavelmente dizendo o seguinte: "Que coisa absolutamente banal você me perguntar o que eu quero dizer". Qualquer um que tenha a petulância herética de perguntar a um ironista o que ele na verdade defende acaba por parecer histérico ou careta. Eis o caráter opressivo da ironia institucionalizada, do rebelde bem-sucedido demais: a capacidade de interditar a questão sem se reportar a seu conteúdo é, quando exercida, tirania. Trata-se da nova junta de governo, usando a própria arma que devastou seu inimigo para se encastelar.

20100901

diálogos (misc)

A: BARULHO barulho BAGULHO (!)
B: where is the love
A: Eu comecei no topo e só decaí desde então.
B: o amor que tu me destes era pouco e se acabou
A: Fui me transformando aos poucos em uma gigantesca lesma sem alma aos seus olhos e então era inevitável que tudo terminasse, para sempre - em um grande teatro.
B: nós não somos mais - totalmente, tragicamente, ternamente.
A: Se você voltar pra mim, eu prometo construir escolas, curar os doentes, libertar os detentos, alimentar os pobres, beijar os bebês.
B: quem é você, diga logo
A: Eu não sei mais, não sei mais não sei agora eu sou só um caminho que não leva a lugar algum, um homem sem irmãos que existe num vazio preto e não branco, sem paz só fim.
B: sussurro surdamente um algoz - nós.
A: Agora eu vou me matar e a culpa vai ser sua.


(um palhaço passa por eles - interlúdio - e entrega uma rosa para a bela moça, sorrindo, ela lhe sorri de volta dentes solares, todo o público engasga o ar pastoso, esperançoso, torcendo pelos seus doppelgangers incompetentes, uma nuvem pesada se retorce parafuso, os pais-sogros sentados já chorando, representação de algo inexprimível - um estampido)

A: Você não se importa nem um pouco e por isso eu não posso fazer nada.
B: vou sendo como posso.
A: Agora não dá mais, caralho, não dá, eu me saio daqui nessinstante e vou pro estrangeiro, sumo, esqueço, escafedo, um dia renasço virgem e feliz. Você, cruel...
B: só... fica.
A: não mais.
B: (beija, acaricia, enlaça) a beleza será convulsiva, ou não será
A:
B:
A:
B:

(um encontro)

B: e sim eu disse sim eu quero Sim.

20100710

carta a amigos, revolta, etc

uns beijos pra quem tá distante
alô rapaz, espero que não faça frio por aí
se cuida, se cuida
que a polícia tá no teu encalço
quer o teu couro
pra fazer tamborim.

não se esquece de mim!
que a gente tem de fazer uma jam
de gente suada
rima boa
uns salgadinhos também.

acho engraçado, cara
cheio de gente morta na rua
e eu aqui coçando
cuspindo granulado na parede
esperando a hora de bater mais uma
no telefone com o chinês
amigo do pedrão
estranho demais.

cê sai na rua então
sem medo de apanhar
mutantes de narizes tubérculos
gemendo trocados pra turistas alemães
que recusam, sieg heil, o contato
chuta um na cara e sai correndo
patinete no viaduto
um bando de gente por aí
te homenageia com uma sinfonia
preço do ingresso: duzentos e cinquenta reais, sem meia entrada.

putaquepariu o novo prefeito
tem uma uzi tatuada no braço
três dentes de ouro e
um pau feito de casco de tartaruga no cu.
é um anti-cristo tão ruim que é cristão
reza três pais-nossos pra cada lei nova
e caça as moças que
dançam nuas na lua cheia
pobrezinhas, meio gordas
nem isso mais podem
poluição visual.

dinamitaram a represa
agora pobre toma banho
finalmente né, minha vizinha disse
e eu não disse nada, sou frouxo
ela nem é casada com delegado
nem nada.

fica por aí, cara
até o frio é melhor que
gente armada cantando o hino nacional
dente cerrado e língua de fora
esperando você arrotar pra estourar tua cabeça com trezentos e sessenta e [sete facadas no olho
e eu
eu vou ficando
que sou quieto
que não chamo atenção.

20100516

BEOTIBARRECO GUDUA

(canção épica, c. séc. XVI)

Mila urte y garota
Ure vere videan.
Guipuzcoarroc sartu dira
Gasteluco etchean;
Nafarrokin hartu dira
Beotibarre pelean, etc.

20100508

poesia de sitiação


Como o clima sombrio desta chávena de café e fumo só
você e m'eu-chave - baixa atmosfera é a contradição só
dentro do reflexo da janela, duas pessoas são a mesma?
copo o que aumenta o desaparecimento da bolha é a mesma.

Eu não quero ser a bússola que
pode ser o seu próprio sentido de orientação no estudo acreditam que
Ausente durante muito tempo tinha sido a chave para o seu bolso
quando o metal atingiu algumas regiões do Acordei
seta calma underpass finalmente nunca perdeu:

a exportação do complexo começou a se mover para a frente.

20100429

Inveja do falo

"Olá Laerte, como vai? Espero q vc esteja melhor da depressão profunda, pois infelizmente, pelo visto ela ainda não passou, né? Meu nome é Fernando, e estava eu ano passado na FLIP, quando fui trocar uma rápida idéia com seu filho Rafael depois da palestra dada por ele, onde perguntei de vc, se ainda duraria muito essa sua fase introspectiva, e ele não soube me responder... agora eu pergunto de novo: e VOCÊ Laerte? Sabe me dizer quando essa fase deprê/lunática vai acabar??? Não sei se vc lembra, mas escrevi pra vc há quase 3 anos reclamando das suas tiras, q estão muito, mas MUITO papo-cabeça mesmo, lembra? E vejo q absolutamente nada mudou desde lá, os “devaneios”continuam os mesmos... Inserir as “tiras- viagem”de vez em quando no jornal tudo bem, acho q é até válido pra dar uma quebrada no gelo, mas TODOS os dias, ao meu ver, já passou todos os limites do “haja saco”... e não falo da boca pra fora, já fiz uma enquete com muitas pessoas, e a maioria simplesmente não consegue entender o q vc quer dizer... muitas vezes pensei comigo: “poxa, será q EU é q sou tão burro assim?” mas concluí q não, suas tiras é q chegaram naquele ponto de criação em q as vezes nem o autor entende o q fez, saca? Mais uma vez suplico-lhe: será q já não é hora de dar um basta nessa seqüência “interminável” e voltar aquele estilo dos velhos piratas do Tietê? Vejo q vc está fazendo escola, e até outros grandes nomes das tiras na Folha, como Angeli, Fabio Moon e Gabriel Ba, estão te seguindo (como grande Guru q vc é), e tb entraram nessa seqüência de “viajens”intermináveis... pergunto PORQUE vc não pode voltar a fazer as velhas tiras simples e engraçadas como o impagável Gonzáles de níquel náusea? Ou o próprio Galhardo com Chico bacon? Por favor Laerte, seus fãs (como eu), imploram isso!!! Tiras de jornal tb foram feitas pra distrair e fazer rir, simplesmente isso... Volte a ser o velho Laerte q todos adoravam, deixe o limbo e venha para a luz novamente!!! Não quero nenhuma resposta daquele tipo “romance” de 2 páginas q vc me mandou da primeira vez, só peço para q vc reflita sobre isso q eu falei, ok?"

[...]

"velho velho velho velho velho velhoquer sentar no banheiro de novo
e cagar lendo a chiclete com banana
se comportando como um verdadeiro tiozão do pavênão é capaz de reconhecer a piadanem entregue, nem explicada
pior. não reconhece ser ele próprio,
fernando zarcão piada-pronta em forma de comentário
o brilhante imbecil
desprovido de talento e limpo
de qualquer depressão
como um pelé, um romário
laerton é levado nos ombros dos seus
pelo que faz em campo
já fernando zarcão leva uma caneta todo dia,um chapéu por minuto
será sempre um zagueiro de merda.
e a gente é obrigado a defender nossos pelés, romários
independente se eles enchem a cara antes dos jogos,
fumem no vestiário, comem travestis, etc"


fonte: http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/2010/02/cem-anos.html#comments

CAVALO, eu e o meu.

20090812

Review for "Budapeste" (Chico Buarque)

Tirado de http://hellhorror.com/books/review/36929/Budapest-.html

"This was our book club book last month (...) Our readers found the book confusing, sliding from dreams to reality and interchanging characters in the process. The plot doesn't go anywhere and neither do the characters - a frustrating combination. (...) Reading this was like watching a fringe foreign film with subtitles that jumps from place to place, character to character without any rhyme or reason. When it ends you are left scratching your head wondering if you simply 'missed something.' In this case, you didn't."

20090708

Carl Peterson's last words (Unfinished sentence)

"Moreover, on which easy-going sausage will them computers --"

20090505

um comentário futuro de um hoje jovem kineasta/escritor brasileiro sobre sua magnus opus, Previsão de.:

"Sim, é do mesmo gênero que Bande à part, que é um filme muito ruim. Lembro-me de que, numa página de publicidade que fiz, empregara uma frase de Griffith que dizia: 'O que é cinema? É 'a gun and a girl'. E eu acreditava nisso."