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20141220

poema político contra a poesia de jogo de palavra (manifesto contra a juventude ou: a nova rima é entre e intra palavras ou: aliteração radical é Bela ou: mais um manifesto contra a beleza ou: o poeta enquanto manifestante enquanto Homem de bem ou: a revolta como situação adormece ou: facebook é ainda mais uma morte da poesia ou: argumentontardio contra vídeo que vi faz tempo no youtube)

habita as palavras o hábito
o mau hálito
halitose ácida, acidose básica
a cidade ácida germina o germe
poético político estético

transeunte em transe no trânsito nervoso
das manifestações vorazes da vontade de falar
denunciar o falo, o falso, o fascista
a família falha
o coxinha coxo de razão
assume o gosto da denúncia na boca
mas percebe: o amargor é menor que a doçura

as palavras são jogo, a luta é linda, tudo explode no floreamento da linguagem
flores, não dores
a sede cede ao poema
posiciona-se e sinaliza-se solidário
busca-se o calor do corpo social
e o quentinho dentro do peito

não importa se boa; se Boa e Bonita (rubrica: sons soberbos sob suave indignação vocal), já está bem
muito bem
de bem
para bens

~
~
~

20140813

a verdade a verdade mesmo


 a verdade a verdade mesmo
a verdade ela mesma
é que isso tudo me chateia tanto
tanto tanto tanto
tanto
tanto tanto


uma chateação daquelas assim
que grudam no chiclete como cabelo
no óleo como algodão
na raiz como terra
na borboleta como flor
na serpente como pecado
na comparação infértil de um campo de algodão florido repleto de serpentes sem cabelo etc como eu

* * *


tenho fome e vontade de beber
tenho sede e vontade de comer
gostaria de não ter frio nos pés
gostaria também de agradecer aos meus pais e irmãos e irmãs que povoam este lindo e belo mundo



sem vocês não teria feito nada do que fiz
com vocês não faço nada

20140708

A ARANHA:

(...)
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.


[C. Drummond de Andrade - "Noite na Repartição"]



20140623


Eu queria morar em Brasília
onde os prédios são baixinhos
bem pertinhos
e queria morar em Paris
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra
Só queria morar longe da inércia
da inevitabilidade
da vida
onde ainda resistam os espíritos da terra
e se possa voar quando ninguém olha
Eu queria morar em Brasília
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra.

20140426

mentira branca



num espaço em branco se encontra uma mentira terrível
assim:

uma promessa incompleta que sugere – e até urge – pelo seu fim
perfeito

a expectativa do espaço vazio, no entanto, a expectativa de um vetor para
frente

a espera como se a espera não fosse apenas a falsa concretização da esperança
burra

um limite inesperado que está na própria superfície do branco, uma alvura ilimitada
contraditória

suposta neutralidade que tende para o azul, para o violeta, às vezes mesmo para o verde
horrível

o verde que sempre sugere mancha, abundância de sujeira viva, opaca, patética em si mesma
sempre

um traçado que só pode traçar-se o próprio, só pode diluir a brancura do que talvez esteja vindo
nada.

20140101




devastação 
obstáculo.


.

20130819

arqueologia memorial - versos encontrados num rabisco

em tal pia
vomitei certo dia;
a entopi com rabada
e morri de vergonha.

a faxineira ficou puta
com tamanha labuta;
eu também não queria nada
só fumar uma choconha.

QUE??

*acaba aqui o manuscrito*