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20130822

Manifesto "Porra no chão"!


nenhum ato é mais exemplar do desperdício de potencial que o esporrar no chão

não há nada
e aí quando passa a haver uma coisa insignificante como a porra de um homem
que não vale nada por si mas tem supostamente todo o potencial de se tornar GRANDE

derramá-la
na mão,
no chão,
no papel higiênico,
nas pantufas

ESCREVER MADRUGADA ADENTRO
SEM PENETRAR ADENTRO DE NADA

APENAS O ATO
O GESTO
E A FRUIÇÃO
QUE NEGA TODA POSSIBILIDADE DE DESENVOLVIMENTO
NO ÚNICO MOVIMENTO SINCERO

QUE ENVOLVE TODO O CORPO
EM PARTE

ou então

LIGAR UMA CÂMERA PARA CAPTAR O GOZO INDIVIDUAL
QUE TALVEZ CAUSE COMOÇÃO ALHEIA
PROVAVELMENTE SOBRANCELHAS SOERGUIDAS

porra, nem a porra pode nada, porra

DESPERDICEMOS A JUVENTUDE
JOGUEMOS NO LIXO
LIGUEMOS A TORNEIRA
LAVEMOS DISPLICENTEMENTE AS MÃOS

porque é com essas mãos que construiremos
porra nenhuma

(e é também com elas que cumprimentaremos

aliados
e
adversários)



20120823

dos motivos que me fizeram rasgar as mangas da minha camiseta

gosto, de quando em quando, e em estando em casa, de deixar meu sovaco cheirando como bem entender.
nunca em situações sociais, claro - mesmo que de vez em quando seja absolutamente imprevisível e irreparável. mas quando estou à salvo da crítica dos narizes alheios, me esbaldo e acho um barato!


principalmente quando sento no chão e fico lendo um monte de bobagem nos meus cadernos antigos-a-foder.

20120426

Pinguim

Quando o convívio social me obriga a dizer qualquer coisa (bom dia, obrigado, não foi nada) que meu interlocutor, pela natureza da situação, de antemão já adivinha, eu às vezes mexo a boca, apenas, e não digo nada. Outro dia, no metrô, passei do meu ponto e tive que, disfarçando para não ser flagrado nesse ato ridículo, sair com os demais na Sé, passar a catraca, entrar de novo (pagando, é claro, outra viagem) e voltar cinco estações, tudo porque, no meu ponto, não quis pedir licença a uma menina que me barrava o caminho. Nos eventos de família, eu sorrio e balanço a cabeça, conivente, enquanto pessoas que eu não conheço ou que conheço só de vista me chamam pelo nome e recontam, animadas, episódios da minha infância. Em compensação, até hoje o meu vizinho de baixo me chama de Fábio; eu respondo. O garçom erra meu prato e um outro embolsa meu troco, mas eu não falo nada. Solto pum no elevador, sempre. Falo Pra você também, quando o rapaz da pipoca me deseja um bom filme. (Uma vez, disse à moça da bilheteria: Eu me amo!; ainda por cima, menti.) Em qualquer lugar que esteja, eu sempre imagino possíveis catástrofes ao meu redor; gosto disso.
E no trabalho, sempre que posso, aproveito a distração alheia e, fingindo fazer anotações importantes, escrevo os rascunhos de textos estúpidos como este.

20100902

Revisão (a hora do chá).

Uma hora a literatura foge do nosso poder e então se torna um mundo por si só
[você pode escolher o estilo entre prosapoesiabomruiminteressanteintelectualconcretosimbóliconostradamusjoaquimdefreitas], e então você pode largar o livro ou segurá-lo ainda mais forte: o poder das frases feitas - ainda assim, pode parecer que não, mas só há um outro texto em toda a Internet (ao menos a parte atingida pelo Google) com a sentença "o poder das frases feitas".


Rebeca e Gustavo compartilhavam do bom sentimento que é olhar os olhos com os olhos: é aí que começa a confiança, é aí que se pode transar sem nenhum tipo de medo.
"Olho nos seus olhos e não noto sua barriga seus peitos pequenos as leves estrias de crescimento nas suas costas a celulite da bunda os pêlos em volta de seu cu seu gozo falseado."


Há 53 posts neste blog que contêm a palavra então em seu corpo. 54 com este. Isso diz bastante sobre o autor e sua noção de movimento, tempo e causalidade. A palavra átimo só aparece em 2 outros textos. Amor em 20. Há 9 em que amor e então coincidem. Amor e morte, 3. É a primeira vez que Rebeca e Gustavo aparecem; Carlos, em 11, Clara, em 4: se juntam em apenas 1. Só uma chance.


Era a primeira vez do casal, a primeira vez de cada um, e Gustavo olhava Rebeca nos olhos com os olhos, ele sabia que ela estava chorando e corando um pouco, ele gostava dela o bastante para segurá-la contra seu peito e esperar pacientemente pela calma. Seu cabelo cheirava bem - também, recém-lavado assim - e a toalha enrolada no corpo dela era tão macia quanto o corpo por baixo. Os fios negros molhavam o ombro esquerdo de Gustavo, que descia a mão pelo comecinho das costas (o de cima) dela e segurava sua cintura contra a dele.


O artifício de usar você como objeto da narrativa é relativamente recente, não vou apontar meu primeiro texto a usá-lo, porque foram vários e aos poucos. É uma forma de aumentar a capacidade de identificação das pessoas, de forçar a conjugação dos leitores, seja com o narrador, seja com o suposto receptor.


Rebeca não gostava de Gustavo.
Tentava se convencer disso, mas o cheiro do ombro dele era tão bom e familiar, tão suor e tão humano, enquanto ela fedia a sabonete e a água quente, a banho tomado numa tarde abafada. Se ela aceitasse tudo que ele oferecia a ela, certamente mudaria de cheiro, imundiciaria de Gustavo. E, ainda por cima, os olhos dele eram lindos.


Você pode sentir o autor por trás de tudo, semprissempre, não pode? O estilo é claro, posso mascará-lo de tantastantas formas, mas um leitor é sempre um leitor e sabe que eu não vou decepcioná-lo: pontualmente, intercalarei minhas anotações com a história que escrevo; não gosto de confundi-los, Rebeca e Gustavo.


Os dois se entreolharam, ela já não chorava e ele reconhecia algum tipo de beleza que desconhecia naquele rosto, aquela cara de cavalo dos olhos redondos e pretos, do cabelo preto, da sombra preta, da pele clara, ao contrário do moreno de seus próprios braços, de seus músculos adolescentes. Durante quanto tempo quisera beijá-la? Nem tanto. Ainda assim, naquele momento, ele queria jogá-la na cama e lamber seu rosto e sorrir tocando seu nariz com seu nariz, amar muito numa explosão de...


Carlos e Clara estavam sentados num banco de uma praça. Ela tentava explicar-lhe que possuía um namorado, que o esperava, que não queria conversa com nenhum estranho nesse meio-tempo, que estava lendo um bom livro, que odiava gente vindo pra cima dela, que odiava urubus, que odiava gaviões, que odiava todo tipo de animal que mata ou come, que era vegetariana convicta. Então Carlos convidou-a para o Gopala Prasada, ela o olhou decima abaixo e notou que era bonito, mais bonito que seu namorado, e que tinha boa dicção e que se vestia bem, que tinha mais ou menos a mesma idade que ela, que sorria, tinha cabelos muito bonitos; mas foram seus Olhos que a conquistaram em um só átimo: olho no olho no olho no olho. Era amor, era a morte.


Rebeca deixou a toalha soltar-se das costas, Gustavo começou a acariciá-la também ali, Rebeca virou a face para o outro lado, Gustavo fez com que ela virasse todo o corpo, Rebeca obedeceu, Gustavo retirou a toalha lentamente com as mãos, Rebeca estremeceu, Gustavo viu a toalha caindo no chão - deslizou menos suave do que havia imaginado - e passou a mão pela lateral do corpo dela, Rebeca estremeceu, Gustavo pegou-a com firmeza na cintura e tentou empurrá-la levemente para a frente, Rebeca disse que Daquele jeito não, Gustavo largou as mãos, confuso, Rebeca virou-se novamente para ele e sorriu, desajeitada, Gustavo olhou-a nos olhos, Rebeca puxou-o pela cintura, Gustavo caiu em cima dela, Rebeca caiu na cama.


Eu imagino que as pessoas não me entendam direito. Não sei o que as pessoas sentem quando leem meus textos, sei que algumas podem ter a impressão que escrevo para elas, e é verdade. Sempre escrevo para vocês, e aqui uso o artifício novamente. Todos vocês ou todas vocês? É fundamental que o autor consiga ser todas as personagens e que ele consiga escrever. A tarefa criativa é ingrata, no sentido que é provável que já tenham escrito e dito o que você pretendia de forma muito mais eficaz. Não sei se a eficácia é importante para o que pretendemos.


Ele sentiu frio e contraiu os músculos, ou vice-versa, e ela sentiu calor e contraiu os músculos e continuou com calor quando o abraçou, um pouco assustada, depois de tudo. Ele retribuiu o abraço, um pouco desanimado, enquanto ela lhe dava um beijinho no peito, Rebeca disse que o amava muito e ele fez que sim com a cabeça. Gustavo estava vazio e não olhava para nada; embora não soubesse, estava feliz.


"may i feel said he/(i'll squeal said she/just once said he)/it's fun said she
(may i touch said he/how much said she/a lot said he)/why not said she
(let's go said he/not too far said she/what's too far said he/where you are said she)
may i stay said he/(which way said she/like this said he/if you kiss said she
may i move said he/is it love said she)/if you're willing said he/(but you're killing said she
but it's life said he/but your wife said she/now said he)/ow said she
(tiptop said he/don't stop said she/oh no said he)/go slow said she
(cccome?said he/ummm said she)/you're divine!said he/(you are Mine said she)"

20091023

Do quiosque do Jurandir, I.

POTE DE CHÁ


Era tudo meio campestre e me irritava o tempo que demorava para ficar pronto. Mas que era bom à beça, era. O chá no calor escaldante, pingando na palma da minha mão direita, ficava quase translúcido mesmo depois de uns sete minutos de infusão, quer dizer, o saquinho ali mergulhado. Aí quando sentia que a minha palma esquerda também já estava suficientemente lavada, ia em direção à fulana qualquer e massageava suas pálpebras.



RÓTULA DO JOELHO


Claro que entrava bastante areia, mas era natural na situação em que me encontrava. Em geral, dava pra fazer com uns oito clientes; quatro, se fossem casais. Dos oito, sempre um desistia, pensando duas vezes, vendo que estava quente mesmo e que esperar sete minutos no calor desgraçado pra uma bebida ainda mais quente, enfim, “deixa pra próxima” e iam em direção aos sorvetes, os desgraçados. Se não tinha mais ninguém por perto, chute neles!



VISITA DO AUXILIAR


Uma vez um sujeito falou que era auxiliar taxonômico num prédio grandão lá, e que era preciso agir rápido e servir todo mundo antes que o homem com voz de aço inoxidável congelasse todo mundo enquanto recitava “Europa” do Ginsberg ou qualquer outro pernosticismo auto-adulante. Saquei a metáfora e mandei-o pastar, porque a graça mesmo só existiria se ele cantarolasse a música do "Homem Muito, Muito Solitário".



FÚ-FÚ-RÍ-FUE-HUMM


“Aux Champs-Elysée, pé-ré-pó-ré-ró-rum, aaaaux Champs-Elysée, fú-fú-rí-fué-humm”, ficou uns dois meses na minha cabeça até sair. Era horrível, porque eu não conseguia simplesmente não cantarolar o trompetezinho (acho que era trompete, mas sinto que na verdade deve ser saxofone) do refrão, e eu sei que eu devia parecia ridículo e provavelmente espantava alguns clientes.



RETORNO DA TAXONOMIA


O fulano do prédio grandão voltou, o tal auxiliar, uns três dias depois. Quer dizer, preparei lá uns dez copinhos pra ele. Se era suficiente ou não, sei lá, mas reclamar ele não reclamou, então ficou tudo bem. Só que essa vez ele foi amável e me convidou para conhecer as instalações. O movimento tava fraco, então eu fui, sim. Acho que era tudo cenográfico, devia ser só de fachada, mas em cada mesa do andar em que ele trabalhava tinha pelo menos um liquidificador, quando não dois. Eu esperava algum tipo de apresentação, “Aqui nós fazemos tal, ali, oh, sim, ali é meu lugar favorito”, mas ele ficou meio quieto, mas sem estar irritado, só sorrindo e meio que contemplando tudo. Ele deve ter esquecido que eu não trabalhava lá. Enfim, demos a volta no andar, eu falei que precisava voltar, ele pareceu voltar à realidade, disse um “Oh, sim, sim, vai lá!”, tapinha nas costas e eu voltei pro meu posto.



ESTE É UM LUGAR NOVO


Taí uma frase que tinha na dublagem de uma animação que eu via quando era pequeno, e volta e meia volta à minha cabeça, talvez ainda com mais freqüência que a música desgraçada. E até a entonação eu lembro, “Estié um lugar NOvo!” Enfim, não era um lugar novo, eram os mesmos bancos de madeira, mesmo guarda-sol, tudo exatamente igual. Mas por algum motivo a frase apareceu na minha cabeça.



UMA DAS COISAS QUE ME IRRITAM


É nhoque: