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20110507



Naquelas conversas sentimentais, Joana dizia com detalhes literários o sonho que teve na madrugada (pois sabia que havia sido na madrugada, pois acordou assim que o fusca azul passara por ela ou com ela, não sabia bem). Depois de tantos detalhes ditos com a doçura de sempre (que fazia Guilherme imaginar se era um resquício de sua infância), Joana curiosa olhou para ele durante uma pausa que parecia ser o fim de seu sonho (mas que era apenas uma lufada de ar na memória), dando tempo para Guilherme dizer:

- Nossa, eu não sonho faz 11 meses.

Soou como um caixão sendo lacrado, uma doença surgiu no ar, como quando uma criança se depara com outra que não quer brincar - mas por quê? Retomado o fôlego, Joana logo se pôs a falar da segunda parte de seu sonho, pois dizia que os sonhos eram feitos de partes, e agora falava da parte do sonho da manhã. Guilherme pensou que podia estar doente, mas logo esqueceu quando quis beijar Joana.



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Lembrou-se do dia em que pedira para Gabriela não trocar de lugar.


- Fica aqui mesmo, você é muito bonita daqui.

Daqui... daqui, ficou pensando Gabriela como se fosse insultada e não tivesse habilidade suficiente para revidar. Sentiu por semanas uma sensação absurda que revelaria mais tarde em uma briga absurda, como costumam ser as brigas dignas de casais. Ficara com ciúmes deste seu lado belo, desta sua metade do corpo que era mais bonita que a outra. O que haveria de errado com sua outra metade?, pensava constantemente quando andava e sentava e girava e gozava e cozinhava.

Ele se lembrou desta história quando estava sozinho refazendo seus planos. A Gabriela teria medo de que ele gostasse mais desta meia-gabriela e perder para sempre o amor pela outra? Gabriela sabia que essa era uma ideia impossível, mas ainda assim era verdade, coçava a nuca como coçam os mentirosos, mas falava a verdade, seu coração também coçava, mas isto ninguém podia ver.

- Mas que absurdo!
- Mas o que há de errado com a gente?
- Mas o que você está dizendo?
- Você sempre diz isso!
- Não!

E de tão absurdo já nem lembrava quem dizia o que, pois não importava, os dois eram três, mas os dois eram um também, e Gabriela com o tempo foi ficando cada vez mais bonita, enquanto ele começava a reparar nas fotos que tiravam juntos que seu perfil esquerdo era muito mais bonito que seu perfil direito. Agora quando estava sem humor, resolvia por instinto sentar-se com seu lado horrendo defronte a Gabriela, que por instinto sabia que hoje não era dia de transar.


20101016

certeza

Era aos sábados que Júlio saía de casa, de chinelo, e ía até o bar na esquina, comprava meia dúzia de chicletes, dois isqueiros e voltava pra casa, sem correr e sem arrastar o pé, entrando rápido pelas portas entreabertas como se fosse uma savana, se estendendo pelo deserto recortando o chão com descaso. Entrava, então, sem sorrir, olhando baixo à moda outonal e evitando o próprio olhar reprovador nos quadros e fotos e espelhos e desenhos que o acompanhavam caricaturalmente corredor adentro, um corredor longo, esticado quase dimensionalmente, um wormhole de desenho animado tornando seu trajeto mais agradável. Entrava, enfim, sem grandes intenções, um grande homem em si mesmo e em seus trejeitos, pequeno em tudo mais, e deixava escapar o gás dos isqueiros enquanto mascava enormes chicletes, e assim era feliz.

Foi num sábado, portanto, óbvio, evidente, que eu conheci Júlio, entrando em sua casa de maneira direta e pontual, portando um sorriso. Eu sabia que Júlio era inocente e oval como um pião, girando em sua órbita falsamente elíptica e deformada, porém autocontida e totalmente alheia ao universo, em seu loop definitivo, olhos virados para dentro como os de um monstro, mas sem o ser. Eu sabia que ele era um homem fraco, no plano objetivo, de mãos quebradiças e de unhas mal-comidas, rosto de poucas camadas, que mal seria capaz de levantar uma cadeira para me acertar. E eu sabia que ele era um homem sem imaginação, e os grandes monstros são apenas figuras de imaginação, românticas, excessivamente transbordantes de romantismo apodrecido, como o vinho, que quando passa do tempo se torna cianureto, uma poção mortal de lenda donzelas, e que portanto não poderia ser um monstro, nenhum horror lá, só o tédio. Eu sabia, portanto, que ele era inocente, mas isso não poderia importar, porque eu já fora pago e Júlio era um homem estranho que não sabia dizer cumprimentos a ninguém de maneira satisfatória, e mais de três meninos já tinham sumido, e havia tantos pais preocupados, raivosos, sedentos, babando, esporrando necessidades, e alguém precisava sumir que não fosse um menino de seis anos, encontrado duas semanas depois com o cu arrombado e cheio de sangue seco e poeirento, e então esse alguém era Júlio, porque os pais precisam de paz.