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20140907

sobre: dois pontos no espaço



há um tempo, estive em frankfurt, muito brevemente, enquanto esperava o próximo voo para meu destino final

sem planejamento e nada, fui com meu amigo até o centro da cidade e me impressionou terrivelmente como as pessoas se sentavam no lado de fora dos restaurantes e bares e afins e conversavam animadamente e, ainda assim, não conseguíamos escutar nada. passávamos a poucos metros e não parecia que aquelas bocas emitissem som algum

isso foi frankfurt

me assombrou.

* * *

hoje fui almoçar no bar do jeová na esquina da benedito calixto a uns 120  210 metros de casa e ainda era bem cedo

comi (é muito caro de fim de semana que horror) e o lugar começou a encher e voltei preguiçosamente pra casa e vi que os outros lugares também estavam cheios, ou: as mesas externas estavam ocupadas e as pessoas falavam animadamente e se vestiam bem e sorriam e não dava pra ouvir o que eles falavam

só tinha um ruído baixo, um blablabla muito suave parecido com o que faz uma tevê bem baixinha pela madrugada, quando você acorda e tem alguém vendo tevê quase no mudo

que coisa.

20130910

burrice fundamental

tenho criado novas senhas ultimamente, senhas para um novo tempo e para novos cadastros; tento me organizar mentalmente com elas, esquecer totalmente as senhas antigas e adotar um padrão claro e lógico que me permita variá-las de acordo com as necessidades de cada website sem nunca me esquecer delas.

algo como matar e exilar todos os titãs, reforma total no panteão.

mas é inútil.
a todo momento, as senhas adolescentes surgem como num refluxo cripto-mental, "ah! esse site é muito besta, vou colocar o nome deste ou daquele pokémon e pronto".
de tempos em tempos isso me leva a um infernal caminhar para trás tentando todas as minhas senhas de vida, desde as mais recentes, passando pelas intermediárias (frutos da mesma aleatoriedade de minha juventude) e chafurdando em memórias de senhas ainda mais primitivas. em vão.

nos últimos dias, realizei uma imensa variedade de protocolos de recuperação de senhas - que na maior parte dos casos gerava uma senha totalmente desconhecida e inapreensível, que eu fatalmente esqueceria de trocar e me levaria a reviver toda minha retrospectiva-críptica mais uma vez dali a tantos dias. os hexadecimais, me diriam mais tarde, eram o segredo para essas tais senhas automatizadas, mas eu nunca os entendi.

fato é que nunca fui bom com números. acredito que meu problema com a matemática seja antes de mais nada um problema de vocação linguística - é como decorar uns tantos caracteres de árabe e dali ter que tatear por todo um alcorão de fórmulas. talvez seja minha falha em seguir um tal "pensamento matemático" que tanto me diziam no colégio.

lembro-me que, no primário, na hora de realizar operações mais extensas (na verdade grandes seqüências de operações simples), o único jeito que eu conseguia manter minha atenção focada naquela miríade de números era construindo personagens simplórios e encaixando-os no avançar do exercício (o 2 era irmão da 3, ambos primos do 4 que competia com o 6 pelo coração da 5, e assim por diante); os cálculos eram uma mediação quase esotérica de como cada história iria terminar, a tela da calculadora em nada diferia de uma bola de cristal esfumaçada.

minha vida adulta não corrigiu essa falha. sempre que passo os olhos por uma frase ou que alguém começa a me contar algo com qualquer tipo de número no meio da informação ("tantas pessoas", ou "daqui a tantos dias", "precisamos de tantos centímetros de algo") meu primeiro instinto é ignorar totalmente o numeral e me concentrar na informação dada pelas letras. quando vejo que aquele detalhe era importante, volto os olhos ou pergunto novamente - por repetidas vezes, em certas ocasiões. também me considero incapaz de fazer contas de divisão com números de mais de um algarismo.

não digo que seja exclusivamente por isso, mas não posso deixar de negar que minha aversão à fotografia profissional sempre esteve ligada à minha incapacidade de lidar com números.

algo que se pode chamar de minha burrice fundamental.



20130629

Dos pães que não cresceram

O novo empreendimento da rua Hélio Pellegrino foi chamado de 
"Pellegrino Pão & Arte".
Porém, diante da incompreensão dos clientes - os poucos que se atreviam a adentrar o suntuoso prédio nessas primeiras turbulentas semanas e se perguntavam sobre o que deveriam buscar ali (pão? arte?) -,  foi decidido em assembleia geral do pequeno-conselho: agora, três grandes faixas de tipografia simplória, penduradas bem ao alto, anunciam: 
"PADARIA"

20110318

Acho um desserviço

Foi o Hiro, acho, quem falou de como o livro é idolatrado no Brasil (não querendo dizer, me parece, que seja assim só aqui, mas é assim, aqui). Parece uma burrice enorme, afinal, Brasil, ninguém lê etc, mas olha: leia alguma coisa no ônibus - o bom é que pode ser qualquer coisa, porque ninguém vai diferenciar o Saramago d'O Diário d'um Mago, mesmo, então tanto faz - e preste atenção.
As pessoas não encostam muito, algumas olham meio de assim. Um livro! Logo aqui, do meu lado nesse ônibus, foi aparecer um destes! E mais: com uma pessoa lendo! É meio isso, uma deferência, assim.
Bom, vá lá que ler um livro (quero dizer, num ônibus, com nosso asfalto sofrido) seja mais difícil que enfiar dois plugues nas orelhas, mas de verdade, mesmo, por que um cara lendo seria "melhor" que o outro ouvindo música em mp3 no celular? Ou até (pra fugir das artes) que aquele cara ali, olhando pela janela, vendo a cidade, as pessoas, talvez até (loucura!) pensando? Eu posto aqui e sei que vocês, assim, não vão cair fácil, mas pergunte isso por aí, vejam só quantos absurdos ouvimos em nome da cultura, da educação, da (pasmem!) literatura.
Fora as campanhas de incentivo à leitura. Sempre a lenga-lenga do quanto se aprende, como se ler fosse intrinsicamente bom, como se pegar em qualquer livro já desse assim um choque de conhecimentos emocionantes. Não é à toa que ninguém leia! É como nas propagandas de internet - a sorte desta é que não precisa delas pra se vender, porque se dependesse da perspectiva de fazer lições de casa maravilhosas, que vazio seria o msn. Aguardem só, logo chegaremos ao ponto de ter que colocar um livro com cuidado nas mãos das crianças e repetir em tom tranquilizador: calma, é só papel, viu? Você escreve o que quiser nele.

20100521

À internet, eu devo a chance de ter conhecido centenas de coisas com as quais eu jamais teria contato de outra forma. E isso nem sempre é uma coisa boa. Claro que eu só tenho a agradecer por conhecer coisas como o funk They Are Taking the Hobbits to Isengard, ou o vídeo de bukkake com uma apresentadora de jornal que continua a ler as notícias mesmo encharcada em porra, mas nem tudo são flores nesse mundinho virtual.

Noutro assunto, eu li, já, Frankenstein, há alguns bons anos. Recentemente, comecei a reler o livro, dessa vez em inglês, porque ganhei uma cópia de um amigo. Só que acho que eu nunca tinha realmente entendido qual era a do livro. Não de verdade. Ok, eu imagino que uma criatura feita com pedaços tirados de vários cadáveres seja mesmo uma visão um pouco desagradável, especialmente para os desavisados que não sabiam da história do “monstro”, mas nada parecia justificar a reação exagerada do Vitinho Frank que, após dias de trabalho incessante, fica escandalizado com sua própria obra, sai correndo, tranca-se no quarto e passa uns bons meses com febre.

Quero dizer, ainda que visualmente a coisa não tivesse ficado muito bonita, ele deveria saber que havia feito um trabalho grande, provavelmente o maior da história humana. Ele havia revertido a morte, for crying out loud! Em nenhuma das leituras me pareceu condizente alguém com conhecimentos científicos ficar tão perturbado assim com o resultado (bem sucedido!) de seu trabalho, mas é aí que entra a internet.

Porque dia desses, engajado em uma dessas muito produtivas discussões na internet, eu me deparei com um vídeo cujo título no Youtube era “Surviving without a body”. Pois é. Trata-se de um experimento, aparentemente feito por uns russos, em que uma cabeça de cachorro, ainda viva, foi conectada a uma máquina que fazia circular o sangue (inclusive com a troca de sangue arterial por venoso) e a manteve viva, segundo o vídeo, por algumas horas.

O vídeo é bem antigo e talvez ética fosse ainda um conceito meio nebuloso, sei lá. Eu sei que os caras testam a reação do cachorro sem cabeça – ou, melhor, da cabeça sem cachorro – a luz, cheiros, sabores etc. O cachorro pisca, funga, lambe o focinho. E meu Deus (a referência a Ele é pertinente), eu nunca vi nada tão perturbador. Quero dizer: é uma cabeça, só! Caída em uma mesa, solta, sem nada. Foi um negócio que mexeu demais comigo.

Eu sei, porque li Frankenstein, que descrever um experimento desses não é suficiente para causar muito espanto no leitor. E eu sei bem, também, que a chance de o vídeo ser falso é considerável. Mas não importa.

O negócio é que, vendo aquilo, eu entendi o dr. Frankentein quando ele fugiu da sua criatura. Não era medo de um monte de carne costurada. Era ele percebendo que tinha feito algo que um ser humano nunca deveria fazer, que ele tinha se metido onde ninguém devia se meter. Eu entendi, porque foi o que eu senti vendo uma cabeça sem corpo lamber os beiços.

20100104

Crônica de uns anos novos

“A Praia Grande, no reveiôm, não dá.”
Eu não sei quantas vezes tinha ouvido aquela frase, na vida, naquela viagem. Três horas, já, no carro e ainda nada do pedágio. A Imigrantes parecendo via de evacuação da cidade; os paulistanos com sede de mar. Depois, o viaduto Mário Covas, que nem é tão grande assim, ficou horas na nossa visão e nada de o alcançarmos. Eram duas da manhã quando saí de casa para evitar o grosso do trânsito, mas o sol chegou antes de eu chegar.
E ó que lá já tinham chegado meia São Paulo, a metade pior. Música alta, barulho, quase, saindo dos porta-malas tunados dos carros parados na avenida da praia, barulho vindo dos bares, dos churrascos, das pessoas. Gente feia, também, pra todo lado. Isso aí é a Praia Grande no fim dos anos, o fim dos tempos.
Aí o alvoroço do preparar das coisas, o que tinha que cozinhar cozinhando, o que tinha que gelar gelando. Tudo o que é o dia 31 de dezembro de todos os anos. Nesse dia, acho, nem deu praia, tão cheia tava. Deu mais foi a varanda de frente pra orla, no sexto andar daquele prédio. Lembro meu avô ali (foi o último ano novo com ele, aliás. Depois, só os anos velhos).
Daí que mesmo com o dia todo pra isso, sempre tem aquela correria, que senão não tem graça. Teve lentilha, uva de pé (só as sete primeiras), romã, sei lá, todas essas coisas indispensáveis. Teve roupa branca e nova e depois dos fogos todo mundo desceu e foi pular as sete ondas, porque senão o ano não começa bem. Teve vela em barquinho de papel e Iemanjá, eu sei, abençoou. Teve a gente saindo do mar de ré, que é pra nunca dar as costas pra ela.
E teve essa foto de agora, a última que tiramos e a última que tiraremos com a família toda ali, todo mundo rindo. E a certeza expressada pela minha mãe com a taça na mão de que não tem no mundo lugar melhor pra virar o ano do que a PG.