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20131220

VESTIBULAR 2017

(...)

"Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"
('Sujeito de sorte', Antonio Belchior, 1976)

RESPOSTA:
Há que se atentar para o mistério que envolve o ‘ano passado’ para Antonio Belchior. 
Pois se no início de seu canto ele conclui possuir proteção divina, que o teria ajudado contra os sofrimentos do ano que passou (‘Deus é brasileiro e anda do meu lado/E assim já não posso sofrer no ano passado’) alguns versos adiante o poeta se contradiz: ‘Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.’ 

Afinal, o que reservou ‘o ano passado’ ao trovador? O sofrimento, a morte? Ou teria a proteção de Deus, retroativamente, mudado o curso de seu destino, evitando os sofrimentos? 

A conclusão lógica há de ser, portanto, que Belchior é imortal.” 



20131214

estruturalismo punk


(intro: kebra-kebra na batera)

(grito loko estourado no mic)

(baixo fera conduz)

(aí refrão:)

COCÔ ALHEIO, COCÔ DE OUTREM
FLUTUANDO
NA PRIVADA DESDE ONTEM

x 4

(kebra-kebra feedback)

(pank pank pank pank)

(grito loko estourado no mic)

(baixo fera conduz)


(outro: kebra-kebra na batera)

20111028

O dedo furado salvou o cônjuge by LuisLabaki


No meio da noite, Nuno nunca passeara descalço:
uma vez um prego soltou espetou no dedão, que desinflou; no meio da noite, Nuno - descalço - recusou usar pantufas, pelo barulho que faziam e pela falsa proteção que o ofereciam; se o silêncio era essencial, Nuno podia ter parado ali mesmo na porta, visto que o batente e a maçaneta fizeram barulho durante a passagem, mas os pés e respirações e tudo mais demandavam muita atenção, e Nuno não percebeu nada;
o umbigo de Vera dormia (com sete dedos repousados sobre ele); mas logo tudo nela levantaria - não de barulho, mas de banheiro, que necessitava;
Nuno arregalou desta vez as bochechas em susto e consciência de que não tardaria para que despertassem as narinas de Vera; preparou-se em defesa, pois que Verase aproximava e de todas as maneiras sentia, bem, e Nuno seria visto chegando sorrateiro e que burrada! até que, fosse por sorte ou Intervenção, com precisão de deslize Vera cravou o dedo - não o dedão, o do meio, menor - num prego solto e se viu caída, ao que Nuno já de costas epreparando alguma réplica rapidamenteapertou o interruptor e reconhecendo o local do trauma iluminou tudo com ares salvadores e curativo reserva em mãos num átimo; merthiolate por sorte tinha forte odor que encobriu todos os outros, e quiça o dedo furado tenha salvado o cônjuge.

20110411

Peter Koor: Transcrição [parcial] da master class na Expo Roojlund 2010

(...) Basicamente, tudo que me dá vontade de trepar, é o que eu vejo e ouço, atualmente. Ou tudo me dá vontade. Pode ser, também.

Peitos, sim, mas disso eu (...)

(...) Então você pega o metal, a calça de couro, só voltando: outro dia eu liguei na Disney Channel, que eu gosto de desenho, televisão, etc. E eu vi um enlatado adolescente, não sei, eu poderia chamar de juvenil, protagonizado por metaleiros.(...) Se era, se não era, não sei, mas produção comprada eles passam também? Devia ser da Disney mesmo.

Steven Tyler virou o Mickey, bem feito. O metal sempre foi um pouco imbecil. Acho que é só uma volta, não é? Continuação, ciclo, essas coisas circulares. Alguém já teve medo de verdade de algum metaleiro? Hêh, hêh. Heh, hêh. (OBS: continuação da resposta não audível)

(...)

Não.

(...)

Sim, é um trabalho solo, mesmo tendo sido feito com eles.

Não posso concordar com você. É uma questão de moldura, é como... não gosto de esportes, mas é como o tênis. EU fiz o ponto, EU quebrei o serviço dele, sim? Claro que se há um serviço quebrado, alguém serviu, e sem ele não há, mas... quem concluiu, quem amarrou? Percebe? A diferença é que, no meu caso, eles todos já sabiam que o serviço deles seria quebrado.

(...) Quanto à Holanda, por lá acredito que vá tudo bem.

20110106

conselho impróprio

alma verde musgo
brotando na pele branquinha
menina que veste a poesia-certa

coma merda, menina
vomite a peste negra
faça um barraco
e atire pela janela
a roupa suja
mas principalmente os discos
os que ele mais gostava

e quando ele
ainda assim virar as costas
atire a segunda pedra
e ria melhor

20100516

Mas que melodia bela é essa, meu Pacheco?

Pacheco terminou o solo no trompete remexendo os lábios, porque fazia uns dias que estava só no contrabaixo. Como é uma região sensível, só isso já deu tempo de ficar com uma estranheza.

“Acho que essa eu nunca tinha escutado você tocar.”
“Ah, já tem uns anos que caiu do repertório. Mas é boa, eu gosto.”
“Como você gosta de tocar?”
“Como assim?”
“É mais com a mão ou com a boca?”
“O que for jazz, bossa, tá valendo.”

Importante dizer que Pacheco verdadeiramente sorriu-se com isso. Ele foi guardar o trompete na maleta num canto. O baixo continuava ainda do lado de fora e com as cordas já perdendo o brilho.
Lia ficou um tempinho em silêncio porque também era legal ver o Pacheco guardando os instrumentos, recolhendo alguns cabos ainda soltos, tirando os amplificadores da tomada.

“E é só isso?”
“O que? Tocar?”
“Não, que você toca.”
“O que mais que existe pra se tocar?”

A Lia lembrou que precisava ligar pra mãe e avisar uma coisa das compras, pegou o celular e saiu. Isso deu tempo pro Pacheco terminar de fechar sozinho o estúdio. Faltavam: ar-condicionado, que foi desligado mas mais umidificava que qualquer coisa; computador; o som tirou-se da tomada. Por instinto Pacheco pegou um pacote de CDs virgens pra levar pra casa enfiado na pasta. Recolheu trompete, deixou o baixo lá mesmo, bateu a porta e trancou. Abriu de novo porque esqueceu do afinador pro José, que tinha pedido.

E de trás da porta saíram Goran Tortavic, Jan Kormeca, Ilja Paracov e Grande Elenco a tocar Kalasnjikov! O trompetista era Paracov e jogou Pacheco no chão enquanto terminava a ponte que levava ao refrão e foram-se em opa, e foram-se em opa, e foram-se em opa e OPA!

A Lia voltou assustada. Pacheco levantou-se do chão, com o mindinho possivelmente quebrado. Lia até choramingava um pouquinho, meio emocionada, mas aí ele tirou o trompete da maleta, arremessou-o com força pro alto e ele bateu na lâmpada,
catouô baixossem capa trancou tudde novo
e foram-se em opa, e foram-se em opa, e OPA!

Mas afinal, o que havia-se de fazer?

20100208

parece até que falam do nosso "Ditador"

Conheço todos os combos
convoco todos os tontos
sufoco todos os tombos
provoco, tudo corrompo.

Controlo somente com chumbo
corôo somente com
eu, macaco metido,
não conheço outros modos.

Rompo todo protocolo
componho um joropo pouco ortodoxo
roubo ouro como Colombo
não choro, só gozo com o horror.

20100127

Octeto via telefone, dum trocadeiro, Segunda Parte

Mandei Odete mesmo, encarregada da mais genérica “percussão” que se pudesse imaginar; Instalei a nona linha também (liguei logo para o Haroldo e contei que o aparelho telefônico ficaria em uma de suas estantes, e só ouvi um muxoxo) e dei uma festa de boas-vindas, convidando populares. Foi um encanto! Segue um dos diálogos que pude ouvir:

-Descobri que há uma espécie de forma própria de se transportar alguns artigos de arte, sabia? – era minha querida Renata quem falava.

- Bom, mas isso eu sempre soube. Só me pergunto como eles faziam, sei lá, pra abastecer um museu durante uma guerra. Já pensou? Será que se faziam exposições regulares?

-Não. Durante uma guerra, ninguém expõe nada – só a morte nos expõe.

Transformei isso em um gibi chamado “Museu dos Quepes Queimados”, sobre a divisão da Iugoslávia, mas ainda não mostrei para muitas pessoas. A idéia é que sejam cinco números: Sérvia, Bósnia, Herzegovina, Iugoslávia e Observador Externo: Portugal.

Mas o fato é que tanto Renata quanto Otávio quanto Tiê quanto Lila só falaram tudo isso depois da apresentação dos meus nove homens de Buenos Aires. Odete tocou o kazoo no momento certo e apaixonou a todos. Meu nome foi sondado para coordenador do novo museu, por isso menciono a conversa.

Dois dias antes da decisão do comitê de “urbanização” (pois não há um único espaço no vilarejo que eu, pelo menos, consideraria ‘urbano’), meu “noneto” ainda era assunto. Eu tossia mais do que nunca, pela razão óbvia de que Odete estava em Buenos Aires, e que eu sozinho não conseguia escovar tudo à minha volta. Chamei um médico.

-Sua garganta está em frangalhos. É bem provável que o senhor comece a tossir sangue ainda hoje, mas não se assuste, porque por enquanto ele não virá do pulmão. Seu problema é na “curvinha”, entre o nariz e a laringe, está entendendo? Contenha-se.

O diagnóstico me animou um pouco, e como pagamento fiz uma apresentação especial do noneto para o médico, que me disse gargalhando que adorava a inocência dos instrumentos não-eletrificados. Outro burro, pois ele os ouvia através de telefones. Apaguei, assim, possíveis fofocas que ele pudesse espalhar por aí a respeito de meu estado de saúde, ou pelo menos pensei ter apagado; meu erro acabou sendo benéfico:

Não mais do que duas horas depois da saída do médico, fui visitado por um casal de uns trinta anos que carregava pranchetas; as canetas estavam quase sem tinta e eram lindas, assim como os brincos que a mulher usava, iguais aos que eu dera uma vez à minha noiva. Eles entraram no momento exato em que eu enfrentava uma crise de tosse; contrariando as expectativas, eles até sorriam a cada golfada de sangue que jorrava no tapete. Disseram-me que eram fãs da produção musical, tanto essa quanto outras feitas bem antes, com as quais eu só podia ser relacionado por ter nascido no mesmo país em que foram executadas;

Cansei das adulações fáceis e mandei-os irem direto ao ponto: eram da Juventude Urbanística e adorariam fazer campanha para que meu nome fosse utilizado para o batismo da praça. Oras, pois e meu nome ainda não figurava entre as possibilidades?, eu perguntei, e eles pediram perdão pelo mal-entendido: eu era, sim, um dos favoritos de antemão, e eles só queriam dar uma “ajudinha extra”. Tratei-os a banho maria, como dizem, mas não arredei pé: meu fim estava próximo, um último lampejo de felicidade aqui, que tal, que tal?, e os comovi largamente. A praça parecia estar no papo.

E de fato estava, e no dia seguinte fui convocado a fazer uma, como dizem, “visita” ao comitê urbanístico para ser congratulado pela homenagem que receberia – uma espécie de homenagem pela homenagem futura – e fui abraçado por mais magricelas que qualquer outra pessoa em vida, garanto. Mas quedê a fanfarra?;

Ela de verdade? Não, mas as linhas e tudo mais, para uma espécie de gazebo, uma recreação! Não é por isso que fez a fama, e não é verdade que a morte prepara a vernisage? Pois que o instrumento integre a homenagem! Confiscaram os nove telefones e os espalharam geometricamente pela praça, que já estava pronta; colaram um retrato meu no centro e uma placa com o nome;

Obviamente, minha casa ficou muito mais silenciosa. E para piorar: sabendo que agora o “quartel-general” dos rapazes de azul seria a praça, a nova Odete, chamada Regina, transferiu para o gazebo recreativo os ternos azul-turquesa de reserva que eu mantinha nos armários; minha tosse passou, com o veludo indo embora.

Fui acusado de melodrama pelos dois jovens, que exigiam sangue e mais sangue e mais sangue, que não vinha nunca, não importando quantas visitas eles me fizessem; o médico que havia confirmado minha morte próxima caiu em desgraça, julgado exemplarmente como charlatão e subornável; e fofoqueiro. Não foi um final digno e tampouco orgasmático – o verdadeiro êxtase estava na primeira dança com os oito homens da fanfarra, que executavam tão perfeitamente certas canções que eu mesmo dancei e dançaria agora, mas tive que fugir como indigente depois que Haroldo apareceu em minha casa para reaver as estantes e eu, com a puta que me pariu, tentei impedi-lo e fiz uma delas cair em sua cabeça sem querer. Só tive tempo de recuperar o quinto volume, Observador Externo: Portugal e me mandar de lá;

Vivo agora em Buenos Aires, dividindo o trocadero com Odete (que não coubera no de oito cabines em que estavam os rapazes, por razões óbvias) e aprendi a tocar xilofone.