nem sempre dum gozo resulta um poema
minto
quase nunca dum gozo resulta um poema
(não era mentira, então
o quase nunca está no nem sempre
o nunca quase nem está no sempre
ou seja: sim, às vezes pode ser assim)
porque dum gozo resulta o sono
ou a tristeza ou o cigarro ou
a pressa de se vestir e ir ao trabalho ou
o banho o papel higiênico os lenços umedecidos
ou do gozo resulta o gozo
outro gozo – seu, nosso, deles –
isto é
o gozo quântico
(ouvi falar do gozo de fulano
dizem que fulano gozou bem
gozou forte
gritou e gemeu e
daí nasce outro gozo, aqui, em mim, transmitido via pensamento
boato telepatia telecinese
simultaneamente, direto da apatia elétrica do universo)
– seu gozo pode muito bem vir a ser meu gozo
ainda que minha cabeça esteja alheia aos gozos dos outros
e, especialmente, à poesia –
pois:
nem sempre dum poema resulta um gozo, até
os poemas broxam, vazam nas mãos nos lençóis nas nádegas e
às vezes nas bocas nos seios nos cabelos ou
no látex nos seus úteros nas tuas entranhas
os miúdos
; minto
quase nunca dum poema resulta um gozo
um poema não é perfeito
um poema não tem fim
não se mata nem mata
[o gozo
[corre e
[pontua
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20170601
20110731
Carta aberta a Ferreira Gullar:
Ferreira Gullar choraminga na Folha que atribuem o seguinte aforismo dele a outras pessoas (como Drummond, Machado, Gonçalves Dias): "A crase não foi feita para humilhar ninguém".
Num trecho do texto, ele diz que "essa mania de inventar aforismos veio dos surrealistas, que faziam uso deles com irreverência".
Gullar, Gullar, se houvesse alguma irreverência surrealista no senhor, a atribuição cruzada o divertiria.
Mas você só é uma velha chata.
Disse meu amigo Marcelino Freire, lá na Mercearia.
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