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20111123

um dia na praia com jesus

Jesus Cristo reencarnou na forma de um triângulo desenhado na areia de uma praia no Guarujá. Era um dia comum de outono. A praia não estava nem cheia nem vazia - havia banhistas o suficiente para que os vendedores habituais julgassem valer a pena trabalhar.

Ainda que Jesus concentre em si uma parte considerável da onipotência característica de seu Molde Primordial, o formato "desenho semi-bidimensional traçado na areia" traz consigo algumas dúzias de limitações, sendo possível logo de cara citar a invisibilidade para quem não olha para o chão, a fragilidade frente as intempéries do mundo e, sejamos francos, uma certa banalidade estética.

(Mesmo Jesus está sujeito à loteria cínica da reencarnação, pode um leitor mais sacana inferir. Não sei, não coloquem palavras na minha boca.)

Jesus é, porém, Jesus, e está carmicamente predisposto a lidar com desafios e situações desavantajosas, portanto, ao notar-se emplastrado na areia, pensou (com seus neurônios de silício): "Poderia ser pior" e pôs-se a fazer funcionar os seus poderes místicos.

De início, a autopreservação - irradiou uma aura que impedia (ou, sendo mais preciso, insistia fortemente) que passantes distraídos o pisoteassem e inadvertidamente obliterassem o salvador instantaneamente. Foi bem sucedido: um garoto correndo de uma ponta a outra da praia (sabe-se lá por quê) desviou seu caminho de maneira bastante antinatural, e Jesus sorriu (imaginariamente) aliviado e contente consigo mesmo. Percebeu, algum tempo depois, porém, que essa magia agia a favor e contra Seus desígnios: se, por um lado, salvava sua vida; por outro impedia que qualquer possível seguidor se aproximasse o suficiente para que pudesse ser influenciado. Jesus percebeu, não sem uma certa amargura, que, mais uma vez, sua eficiência como Homem Sábio estava diretamente ligada à sua capacidade de abnegação e sacrifício.

Levantou, então, seu campo de força, e esperou um pouco. Logo um vendedor de sorvete meio lânguido se aproximou e Jesus imediatamente violou a sua mente: "Irmão. Oi."

O vendedor, como era de se esperar, se assustou. Toda a gama de pensamentos que se associa com esse tipo de situação - tumor, loucura, aliens, FBI, sereias -passou por sua mente. Jesus tentou de novo:

"Irmão. Sou eu, Jesus. Olha pra baixo."
".........!!!!!!1111aaaaaaa"
"Tá vendo esse triângulo? Na areia? Sou eu, Jesus. Pois é, voltei. Daora, né?"
"!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!q"
"Eu. Jesus. Reenacarnei em forma de triângulo. Quero te contar algumas coisas sobre a vida."
"Q kralho q"

(Façamos uma pausa para notar que é extremamente difícil organizar pensamentos de maneira estética e gramaticalmente satisfatória, e que Jesus passara 300 anos estudando e meditando no céu para aprender a fazer isso, enquanto o sorveteiro jamais precisara de tal habilidade.)

"Bom. Vamolá. A regra de amar o próximo continua valendo. Acho que essa a gente nem precisa revisar. Continua bacana."
"+ e c o proxim for assassin/"
"Ele continua merecendo a nossa compreensão e amor pois somos todos filhos de Deus/Eu/Pai"
"mesmo c matah minha filia/?"
"Sim. Enfim. A próxima regra de ouro é:

(e nesse momento, assim como a natureza humana contaminara a divindade de Jesus 2011 anos antes, a natureza triangular começou a exercer sua influência)

o papel padrão pra impressoras tem que começar a ser triangular, e não retangular."
"q/"
"É. O papel triangular é esteticamente muito mais interessante e menos tedioso, e ainda dá pra juntar dois triângulos lado a lado e guardar mais eficientemente as folhas."
"ok"
"Além disso, todo sábado deve ser o dia em que as mulheres--

E então começou a chover e Jesus morreu e o sorveteiro fingiu que aquilo tinha sido só um derrame sem maiores consequências (e talvez tenha sido.)

20101202

Mais uma obra do capitolismo cristão




Um menino Jesus traquinas, que subia nos telhados, quebrava os cântaros alheios, brincava com leõezinhos, apaziguava dragões, transformava crianças em carneiros e, vez ou outra, fazia também malvadezas. Zangado, podia amaldiçoar e punir com a morte quem lhe enfrentasse. Outras vezes, para tirar uma história a limpo e provar que não tinha culpa de uma morte casual, ressuscitava mortos para que contassem o que aconteceu, depois os mandava dormir o sono eterno outra vez.

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/839763-menino-jesus-era-traquinas-e-ate-fazia-malvadezas-mostra-livro-de-padre.shtml

20100204

Indiferença Preguiçosa

Se é pra virem, pois que venham os escoceses!!





Diacho.

20090215

Instruções para jogar robato (versão espanhola, com 67 cartas)

Bom mesmo é jogar robato. O ponto-cruz mais forte geralmente é o de paus, mas isso não é regra; talvez seja regra cósmica, porque o que define o mais forte é o desenrolar das trenentinas do jogo e, se em grande parte das vezes, elas indicam o naipe dos brotinhos, o crupiê não deve ser culpado.

No entanto, um mal embaralhador inevitavelmente esbarra na intrincada questão dos valetes vermelhos. Se for de copas, pode condenar todo o jogo à ruína, mesmo antes do começo. É só ele aparecer entre quaisquer números ímpares que tudo com certeza travará, mais cedo ou mais tarde – e aí não há ponto-cruz de paus que salve.

“É complicado”, ouvi um crupiê dizer uma vez, “Requer muito de seus dedões.” É muito mais mecânico do que qualquer outra coisa. A sorte conta, claro, mas está longe de ser o principal fator determinante.

Imaginando uma situação: jogador 1 escolhe que a primeira trenentina será a “perenne”. Logo, a segunda deverá ser “ronã-lima”. A terceira, “nunimar”, e assim por diante até a nona, “ulapa”. Como a ordem não muda, somente os números (se o jogador 1 tivesse escolhido que a primeira seria “ronã-lima”, a segunda seria “nunimar”, etc., etc.), o crupiê está nas mãos do primeiro a jogar. Quanto mais próximo da nona limpa, ou seja, a nona trenentina original – estabelecida em 1887 por Henry J. Robato, divulgador e suposto criador do jogo – mais difícil para quem dá as cartas, porque dadas as multiplicações possíveis das cartas em jogo pela diferença de trenentinas entre a original e a escolhida pelo jogador, isto é, total x (T. original – T. escolhida), as chances de números ímpares tornam-se cada vez menores quanto mais próximas forem T. original e T. escolhida.

Apesar da aparente complexidade, a prática de robato sempre me caiu muito bem, em especial quando acompanhada de petiscos. Os petiscos, por sua vez, podem também exercer alguma influência: dê bolinhas-de-amendoim gordurosas ao crupiê e veja qualquer habilidade nos dedões escapar como mágica.

Resta então a última dica para os futuros robatingos: nunca desconfiar e sempre ajudar seus adversários. O ponto-cruz beneficia a todos, não importando as circunstâncias do jogo(Diz-se, aliás, que a nomenclatura escolhida foi amplamente influenciada pela fervorosa pregação pentecostal de Henry J. Robato. “Jesus and us, no need for fuss”“ era seu lema.) Dessa forma, a ajuda pode ser prejudicial a seus adversários, sendo essencial mostrar-se altruísta sempre que possível. Como as ajudas não podem ser impedidas – a menos que se tenha um coringa – um ponto-cruz formado mutuamente pode virar completamente o jogo e dar a vitória àquele que não chegara nem perto da primeira trenentina.

Regras na cabeça, cartas na mão, resta-nos o caramanchão.