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20121128

lóbulos tímidos


   Gritaram comigo com tanta força e com uma vontade tão violenta que os lóbulos das minhas orelhas se enrolaram e, sozinhos, taparam meus ouvidos.
   - Mais forte -, eu pedi.
    Dessa vez, os olhinhos se espremeram tanto no rosto dela que eu achei engraçado e rompi no riso. E meu riso ressoou mais que o grito.
   - É injusto!
   Cada narina inchou bastante. No urro seguinte, só consegui prestar atenção nelas.
   Mais um e senti que a garganta começava a rachar. Coisas ruins poderiam acontecer.
  No que veio depois, meus lóbulos, sozinhos, escorregaram para fora dos ouvidos e ficaram pendurados como de costume, e eu senti uma dor. Mais um, e dor ainda mais aguda.
   Os olhinhos meus dessa vez, dolorida, devem ter sido tão engraçados que desenrolaram nela uma risadona que foi mais forte do que qualquer grito e eu, apesar da dor, quis rir também.
   - Desculpe, terei que rir...
   - Tudo bem.
   E então fomos embora, gargalhando.
   



20090508

O celeiro ao fim de nosso mandato

(trecho do conto de mesmo nome de Karen Russel, tradução de Cássio Arantes Leite, publicado na primeira edição de Granta em Português)

A garota

A garota voltou. Sua silhueta recorta-se contra a luz do sol, as grandes portas do Celeiro escancaradas. Punhados de feno recém-cortado dispersos e estocados no palheiro. Luz inunda as baias.
– Ei, cavalinhos! – A garota segura um guardanapo de pano cheio de pêssegos. Caminha até a primeira baia e oferece o fruto pálido e amarelo.
Rutherford arqueia o pescoço na direção da mão estendida. Manchas de luz flutuam sobre seu traseiro malhado. Ele lambe a palma da mão da garota seguindo um código que formulou, –.–., significando que é Rutherford Birch Hayes, o 19º presidente dos Estados Unidos da América, e que ela deve alertar as autoridades locais.
– Ah-ah! – ri a garota. – Faz cócega.

20090309

Ele talvez seja

um romântico às antigas, um milionário generoso, um deus na cama, um idiota com um celular. Ele é o cara mais sortudo do mundo. Ela é ela, linda e apaixonada e ele não importa. (Mário de Andrade já diria. Diria, nada! Na verdade, disse, mas não foi assim; não foi bonito.)
E eles vão até o aeroporto no meio do dia e tudo está assim normal, as pessoas turistas, executivas etc. Exceto que ela chega na esteira rolante e se agacha e lança um sorriso alegre-envergonhado e ele filmando tudo. Ela fala alguma coisa e talvez tenha dúvidas quanto ao que está fazendo, mas ela não pode parar agora porque isso é muito mais importante do que ela ou ele ou eles.
Ela tira a camisa e depois a saia e a esteira continua e as pessoas que passam! e ela corre até outra esteira quando a primeira acaba e ele corre atrás e ela tira o resto e se esconde com um braço, mas qual o sentido de se esconder?, então ela se abre e se expõe e ela não se despiu somente das roupas naquela tarde em Kyushu.

O vídeo não poderia não ter ido parar na internet e talvez ela saiba ou consinta, mas também isso não importa.

20090204

contato

tava lavando e elentrô, sapateando pé e boca, ô dona moça cê vai tê quiajudá, abre uma porta aí queu sumo já, rápidão, ela de vestido velho e ele sorrindo, a janelaberta, botô no quarto de tralha e não perguntô, ele nem respirava, logo forembora, brigadão, e ela já tinha sonho pra próxima semana inteira, lindo, e ele sumiu na janela e ela continuô lavando