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20131216

20130625

Diário de uma sniper, X




07/10

15:45 - “You’re a talk alone”, a atendente do caixa disse logo que me viu. “Você fala muito quando está sozinha, bem baixinho. E em várias línguas.”
“É verdade.”
Esperei que me entregasse a sacola plástica e retruquei: “Mas você também é.”
“Como você sabe?”
“Porque você soube de imediato que eu era.”

15:46 - Saí da loja.

15:59 - "Sim, sou mesmo." 

16:34 - "Ignorá-la seria de uma notável imprudência.”

17:57 - “Mais alguns minutos. Ahora. Ali. Está fechando. Fim do expediente.”


18:01 - Headshot.

20130624

Diário de uma sniper, IX.


9.11

5:13
Não tenho tempo de anotar. Sinto meu dedo travado, já faz quatro horas que tenho uma cãimbra ocasional do indicador até quase meu cotovelo. Meu pulso esquerdo está roxo, inchado, lateja. O rifle parece pesar quarenta e cinco quilos, o que seria ridículo: pesa apenas dez.

Tenho comigo uma companheira, mas preferia estar sozinha. Ela me passa os cartuchos quando acabam as balas. Só temos um rifle.

Me disseram: "Leve-a, ela aprenderá contigo os caminhos da arma. Se tudo der errado, ela lhe salvará a pele".

Até agora, 53 (cinquenta e três) feridos, 98 (noventa e oito) mortos, 235 (duzentos e trinta e nove) passaram direto pela viela que serve de máscara para minha visão. Não sei como estão segurando as pontas por lá.

6:48
Cólica.

20121207

Hoje, chamaram todo mundo da equipe. Nos juntaram em uma salinha e sentaram com a gente. Até o Daniel estava lá. Normalmente, o Daniel não vai a essas reuniões, mas hoje ele estava lá.
Nós optamos pelo desligamento da Renata. (said he.)
Desligamento: não demissão, mas desligamento, como uma eutanásia corporativa em que um sofrimento prolongado e pouco produtivo é evitado por meio da interrupção de uma vida que até então se sustentava artificialmente, por meio de aparelhos. À família, que somos nós, resta o conforto de que aquilo foi para o bem e de que será melhor assim, afinal, trata-se de um desligamento, um singelo deslizar para outra realidade: de funcionária para ex-funcionária.
Mais do que isso, é a promessa de que somente os pacientes terminais estão sujeitos a tratamento semelhante --- ou, melhor dizendo, a abandono semelhante de tratamento --- e de que nós, que somos a família, podemos continuar nossas vidas sadias e tranquilas (se bem que não muito, e menos ainda agora, com um a menos a dividir as chagas) sem que nossa produtividade seja afetada pelo ocorrido (inclusive porque a afetação da produtividade é uma doença, e já vemos a que a doença pode levar).
E no entanto, o silêncio pesou sobre todo mundo na sala (até sobre o Daniel); mesmo que todos estivéssemos cientes (não estou sendo irônico) de que a vida é assim e de que, se não podemos evitar abalos na saúde, também não podemos deixar que esse horizonte nos arraste precipidamente para a inação. Porque aparelhos e pessoas podem ser desligados e porque é melhor assim. (said she.)

20120730

РОССИЯ III

Enquanto escrevíamos, sentou na nossa mesa um russo putiniano: careca de cabeça raspada, muito forte, uns quarenta anos. Eu só entendi por alto o que ele falou (que ele tinha uma boa vodca e que queria tomar com alguém). Um cara que estava na mesa também, e que eu descobri nessa conversa que é da Bulgária, aceitou. O putinesco sentou na minha frente e eles brindaram. Aí logo começou a tirar sarro do fato estarmos escrevendo. Perguntou o que era que eu estava batucando (e fez uma imitação, acrescentando logo depois que - 'respect, respect', e, em russo, мне не нравится англискй язык, isso é, eu não gosto da língua inglesa). Perguntou se era um diário, pra quem era, pra que é que eu estava escrevendo. Perguntou pra Julia pra quem que ela escrevia. Ela respondeu, já um pouco irritada, que era para ela mesma. E o russo perguntou, "Pra quê? Você não consegue lembrar? Vai esquecer?" "Pra daqui a cinquenta anos, talvez", ela disse. "Hêh! Esclerose, é? Você já está pensando em esclerose? O povo russo não precisa disso. Nós lembramos de tudo, não precisamos escrever o que vemos. Nós só vivemos e vemos, isso aí não faz sentido. Nós vivemos com os olhos. Ou isso ou escrevemos poemas."

Então sendo assim, dedico a ele os seguintes versos:

Vim a Petersburgo
Sabendo que não era inverno
Mas calor assim não esperava
Baita forno, um inferno...
Suei montão. Mas!
o verão ao menos trouxe alguma recompensa:
Vi na fortaleza uma praia
Com muita cocota de saia

20120717

snapshotting a sniper



não me lembro do ano
1944 ou 2015
encontrei essa jovem atiradora de elite
(ela prefere se chamar 'sniper')
conversamos por alguns minutos
ela nunca me olhava nos olhos

alguns anos depois a reencontrei
em ocasião menos explosiva
perguntei como ela estava
ela disse que bem
sorri
(eram impressionantes as rugas
em sua testa)

você já fez acupuntura
eu perguntei
ela respondeu
que não, por quê

relaxa
eu disse

dessa vez ela me olhou
bem nos olhos
preferia que nunca

descobri mais tarde:
uma sniper não atira com os dedos
nem com os fuzis, rifles
(não sei como se chamam)
são os olhos que matam

20120715

Diário de uma sniper, IV







13/7 

15h38. O visor riscou. Isso me irrita. Atiro a olho nu. Quando erro por pouco o homem se move como se um gato tivesse caído do telhado. Sim. Um gato. Espere mais um pouco e verá o gato.

17h05. A contagem revela que o alvo 5 é o único a almoçar a essa hora. Perco a vontade. 


.

20120707

Diário de bordo


São dez para as sete quando o ônibus chega ao terminal. Não espero por mais nada, entro logo de mala e cuia e corro para meu assento. Só quero dormir.

Acordo. O ônibus está parado e eu me sinto revigorado. Já teremos chegado? Acredito ter dormido mais que nas últimas noites todas, mas pego o celular para confirmar. São dez para as oito.

Acordo. O ônibus está parado e minha mão esquerda está petrificada, sem circulação. Meu dedinho não se move. Minhas suspeitas de que dessa vez, enfim, terei que amputá-lo são logo superadas, quando o formigamento começa. Por tudo o que sei, até agora, o ônibus não andou um metro.

Acordo. Parados. Duas crianças deixaram seus lugares e por qualquer razão estão sentadas ao lado do meu assento, em frente à porta do banheiro. Sem muita razão, sou tomado de uma imensa raiva. Penso que, se me der vontade de ir ao banheiro, mijarei em cima delas por vingança. Não será a primeira vez para mim, é claro, nem a última para elas.

Acordo. Está frio, mas há um rapaz de camiseta ao meu lado e eu, já de agasalho, sinto vergonha de pegar mais um casaco. Será o frio sinal de que nos aproximamos da antártica Curitiba? Não, reconheço pela janela uma salgaderia em que parei na minha primeira ida ao Paraná e que sei ser próxima de São Paulo. Sinto fome, uma fome de doer a barriga, e me lembro do pacote de Stiksy no meu bolso. No entanto, hesito, por medo de que, se o pegar, as crianças pedirão. Ora, Gabriel, não é preciso passar fome por puro egoísmo. Basta dizer Não.

Comer os Stiksys provou-se-me uma maldição: já não posso dormir antes de acabar o pacote ou sabe-se lá o que acontecerá a ele. Da frente do ônibus, um senhor se levanta. Lança um olhar resoluto e começa a andar inabalável em direção aos fundos. Seu andar não é exatamente firme, pois o ônibus balança (enfim nos movemos, se bem que a passo lento), mas é determinado, convicto e inexorável como uma força da natureza. De repente, compreendo: ele vai mijar nos garotos. Uma excitação me domina e eu não sei o que fazer. Quero ver esta cena, ao mesmo tempo lúdica e grotesca? Não quero, mas que fazer? Não se pode impedir o velho. Mas não, ele já sorri, pede licença, vai entrando no banheiro.

Dos dois meninos, apenas um continua aqui. Dorme todo torto, no chão, e acorda triste quando alguém pede licença para mijar. Já não sinto raiva. Me pergunto por que ele não vai ao seu lugar. Não terá um? Acaso venderam passagem a mais? Penso que ele pode ter pulado a catraca, mas isso seria absurdo em um ônibus que não tem catraca. Atônito, percebo que o que sinto já é pena, ou até simpatia. Cogito oferecer um stiksy, mas isso criaria uma situação estranha quando me bater o aperto e eu enfim mijar nele.

Parece que foi só ilusão, ele tinha um lugar. Apenas havia preferido se sentar à porta do banheiro, o que, agora me lembro, eu também já fiz. Mas não, desistiu, voltou a uma poltrona lá para a frente. Nem me pediu o salgadinho. Nem me pediu perdão. Olho para o lado, mas o rapaz de camiseta ainda dorme. Estou completamente sozinho.

São onze horas quando ele volta. Para não* correr riscos, vou logo oferecendo os stiksys e ele, é claro, aceita. Já se passaram quatro horas, afinal, e eu estou escrevendo isso pela segunda vez. Perdi o texto sem querer. Vocês (quem?) nunca saberão.
*Aumentativo de Paraná.

O ônibus anda bem. Para poder dormir, dei os stiksys ao menino, num ato de alteregoísmo do qual já começo a me arrepender. Acho que a viagem ainda dura mais de três horas, hipótese em que as forças extras que a comida der aos demais passageiros me porá em desvantagem na briga pela sobrevivência. Me consola saber que morrerei em nome da ciência e, de algum lugar, Darwin sorrirá.

Acordo. O ônibus está parado, mas há grande movimentação em sentido à porta. Os assentos ao meu redor estão vazios. Rapidamente, abro a curtina na esperança de ver uma rodoviária, mas não, é só um posto de serviços. Tudo bem, ao menos não precisarei recorrer ao canibalismo. Desço, pego uma garrafa d'água, um bombom e uma fila enorme no caixa. Me pergunto, animado, quão infiltrado já não devo estar no território paranaense, mas a moça que me cobra é uma víbora: Nota paulista?

Acordo. Há algum debate sobre as pessoas faltantes do ônibus, acho que busca-se o consentimento geral para partirmos sem elas e eu, que já estou aqui, estou disposto a fazer esse sacrifício em nome da celeridade. Mas aparentemente o consenso é o de que já estamos todos aqui, e a diferença na contabilidade se deve a haver duas pessoas --- e não uma, como se supunha --- no banheiro. Estava um pouco alheio aos fatos, mas essa informação nova me atiça o interesse. Passo os minutos seguintes de olhos cravados na porta do banheiro, esperando o momento em que os dois incautos terão de sair e enfrentar o julgamento da sociedade. Decido voltar a dormir quando vejo saírem, na verdade, uma mãe e sua filha.

Acordo. Sonhei que, para provar um ponto, meu padrasto despedia o Bob Esponja imediatamente após prometer-lhe que, naquele dia, todo mundo trabalharia fantasiado. Já começo a desistir da esperança de que algum dia o ônibus vá chegar a algum lugar. Curitiba não passa de mais uma ilusão --- como trabalhar fantasiado e tudo o mais.

Chegamos à rodoviária. O ônibus parou, apenas, e todo mundo já foi se levantando, se desconfortando. Percebo que sou o último que se deixa ficar e momentaneamente sinto algo como saudades da jornada e de todos os seus acordos.



Ao Ministério Público, à minha família e à sociedade: essa é uma obra de ficção. Seus personagens são fruto da imaginação do autor e/ou foram usados em sitações fictícias. A prática do Golden Shower, embora não desincentivada por esta obra --- que, no mais, respeita e aplaude a diversidade sexual ---, não deve jamais ser feita dentro de ônibus. Por questões de logística, se não por qualquer outra razão.

20120528

Pinguim, 2

Um problema que eu tenho quando ando de ônibus é escolher o lugar para sentar quando não há mais nenhum banco inteiro livre (isto é: sem ninguém nos dois lugares), mas muitos bancos com um dos assentos livre, de forma que eu preciso escolher uma das pessoas do ônibus e agraciá-la com minhas companhia, levantando todo tipo de perguntas quanto a por que eu teria sentado justamente ali e não ao lado de qualquer outra pessoa. Para minimizar esse tipo de situação, um método que eu costumo adotar é o de ir diretamente a um banco qualquer e me sentar o mais rápido possível dando um ar casual à escolha. Então, quando eu parei hoje antes da catraca, à cata do meu bilhete único, e vi que todos, isso mesmo, todos os bancos estavam ocupados por apenas uma pessoa, já comecei a por em prática meu plano. De canto de olho, enquanto passava o cartão no leitor, identifiquei que logo o primeiro banco possuía vaga. Vários pensamentos se me passaram pela cabeça:
"O primeiro assento é preferencial. Mas o ônibus está semivazio. Se chegar alguém, eu levanto. Se não sentar no primeiro assento, vai parecer que fiquei escolhendo. Tem que ser o primeiro assento. Mas ele é preferencial. Mas não tem ninguém de pé. Se chegar, eu levanto."
Nisso, já ia me sentando, rápido como um bólido, sem nem olhar para o que fazia. Apenas me atirei ao lado da menina do primeiro banco e foi então que eu notei que havia alguma coisa errada.
O que havia de errado é que aquele era um assento preferencial, estúpido. A menina não estava lá por desfeita, mas porque era usuária preferencial. Ela era obesa e ocupava três quartos do banco. E eu pulei lá sem ver direito e me sentei no quarto restante e fiquei comprimido contra o braço da cadeira, com uma banda se pendurando vacilante para fora do acolchoado e sem poder respirar muito profundamente.
Aí eu tinha um dilema: levantar agora seria pior do que ter escolhido o assento antes. Seria um ato deliberado de discriminação, algo como dizer: "eew, não quero sentar do seu lado porque você é gorda".
Por outro lado, ficar lá gerava um incômodo óbvio para nós dois e absolutamente ridículo, já que havia pelo menos dez outros assentos livres ônibus afora. Era óbvio que o que a moça mais queria era que eu saísse dali e fosse sentar em outro lugar, mas ela nunca diria isso, e era óbvio que eu também não via a hora de pular dali, mas também não o faria.
Estava trânsito. Eu joguei a cabeça pra trás, tentei dormir. Não conseguindo, fingi que dormia. Estava ridículo. Tentei ler, mas era difícil, porque eu estava torto e tinha que ficar me segurando com as pernas. Tentei olhar pela janela casualmente, mas isso era ainda pior, porque aí eu tinha que semi olhar pra ela e encarar a realidade: eu sou um escroto.
Aguentei aquilo por um bom tempo. Saímos da USP congestionada, paramos em alguns faróis e eu ali: roubando espaço da coitada, como um marginal que não apenas ignora a plaquinha que indica o assento reservado, mas também o faz sem nenhum propósito, já que abundavam os lugares onde abundar-se. Pegamos a Vital e algumas pessoas já me olhavam de soslaio.
Eu tinha que fazer alguma coisa. A cada minuto, mais ridícula a coisa ficava, e mais injustificável seria eu simplesmente levantar e sentar em outro lugar. De repente, fiz a única coisa que me restava: fingi surpresa, bati na testa e disse: "Eitaporra!"

Levantei correndo e, sem olhar para trás, saí do ônibus a dez quilômetros do meu ponto.

20120524

Diário de uma sniper, III


13/05, 21h. Não dou conta. Graças a Deus, tenho meu parceiro que vigia tudo para mim.






20120505

24 de dezembro:

Fodam-se.

Vou passar o Natal com ela.

20120504

20120503

22 de dezembro:

Meus pais perguntaram o que eu quero fazer no natal.

Foda-se.

20120502

21 de dezembro:

Ela está preocupada com sua menstruação.

20120501

20 de dezembro:

Fiquei em casa e joguei videogame o dia inteiro.

Meus pais vão viajar e eu não.

20120430

19 de dezembro:

Chego em casa e minha mãe pergunta como foi.

20120429

18 de dezembro:

O dia inteiro deitados na areia.

Eu e ela.

20120428

17 de dezembro:

Descobrimos uma pequena praia do outro lado da trilha.

20120427

16 de dezembro:

Meus amigos já se cansaram de nós.

Não fazemos nada.