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20140430

da vida

a vida é uma caixinha
bem fechada

20131006

a vida é uma bosta:

você não fez nada bom
e não vai fazer nada melhor daqui em diante.

20110619

almoço de domingo

Pra quem não sabe, estou morando sozinho por uma breve temporada.

O grande desafio nessa realidade doméstica, ao menos pra mim, é passar do estado de "servo" ao de "servidor" de cotidiano - ou seja, me tornar o responsável por ditar minha própria rotina.
E onde é que existe mais rotina numa casa do que nas refeições, não é mesmo?

Com a minha presença errática nos eventos domésticos, o tradicional esquema "batalhão de comida => refeição para 3 dias" se torna menos atraente. Cozinhar pratos individuais todos os dias pode ser uma atividade um bocado delicada, mas o frescor de cada refeição é um charme incontestável do estilo casa-de-um-homem-só.

Depois de um sábado baseado quase que todo na proteína animal [tortilla com linguiça no almoço, torta de batata com bacon pela tarde, realizada na companhia do estimadíssimo colega Tiago de Mello] decidi forrar meu prato do dia com os legumes e verduras que ainda me restam na geladeira.

Fiz então um belo refogado, pra acompanhar a supracitada torta de ontem: cebola e alho-poró na manteiga, abobrinha e cenoura em lascas e um punhado de couve bem picada, tudo temperado com shoyu e óleo de gergelim. E deu certo!

Ah, eu também almocei no quintal. =3

20100831

estudo em azul

além do enjôo fica um buraco e é de lá que o caio grita pedindo algum tipo de socorro, mas o seu grito é sem voz e então ninguém pode ouvir - é incrível como ouviu a renata dizer que ia embora e vomitou tão rápido, mais incrivel ainda que não tenha vomitado e que isso seja pior ainda, estar cheio até o joelho de vômito e ser só uma carcaça que não vaza, inchada, enquanto a renata vai embora, ela sempre cumpre o que promete, sempre faz o que diz, quase um robô, e então já é 1997 e ele ainda ganha pouco, e é hora de ir ao dentista: uma carteirinha de convênio velha, muito velha, já semi-apagada e inválida há meses, um sorriso amarelo, passando a mão na perna na recepcionista por baixo da mesa, talvez um sonho, três dentes a menos e dois a mais, um escultor, um artista, eles conversam sobre a frança, o único país de verdade nesse mundo, dormir e tingir o travesseiro de você mesmo, ser dezesseis anos de novo, ontem, e saber que eu não posso mais você; obviamente ele se filia, portanto, a três ou quatro grupos diferentes - esquerda, cristão, motocross, talvez os concretistas... é o homem perfeito e morre correndo.

20100427

(<: dia grama :>)

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 pegadas     passos

20100315

O Níquel da Eternidade - Esboço de um Road Movie

As graúnas me comovem. Comovem-me os girassóis. Comovem-me os lírios. Comovem-me as pedras no fluxo do rio. A água do rio. A água é cristalina diante de meus olhos. A água é cristalina diante do cristalino de meus olhos. E assim faz-se a complementaridade homem-natureza.

Direciono meu olhar para uma pedra, uma pedra brilhante à minha esquerda. Abaixo-me para tocá-la, para sentir a incomparável sensação de plenitude. Um susto. Quem é aquele que vejo? Seu rosto está turvo – a água é rápida – mas reconheço seus traços. São familiares. Tantos anos se passaram desde a última vez que vi esta expressão, uma expressão que transmite segurança. Segurança. E, em uma fração de segundo, torno-me inseguro novamente. Pois percebo, assim, que o rosto que vejo, na turva água do rio, é o meu.

Não reconheço as rugas que o cobrem agora. Abaixo-me mais um tanto. Consigo encostar na brilhante pedra, e um arrepio percorre meu corpo – o suave frescor da natureza. E raciocino. As rugas denunciam. Denunciam que, inesperadamente, rolou de meu bolso, perdendo-se para sempre, o Níquel da Eternidade.

O que me trouxe até aqui? Estes pés? Serão os pés, que nos fazem caminhar, os responsáveis pela viagem? E, se assim não forem, serão eles apenas servos de alguma outra faceta física do Eu? Não posso crer nisso. Sim. Os pés me trouxeram até aqui. Assim como me trouxe até aqui meu baço. Assim como me trouxe até aqui a tireóide. Assim como me trouxeram até aqui meus fígados, todos os três que possuo. Não há hierarquização entre os órgãos. Assim quis minha Mãe. Minha Mãe que é por tantos renegada – a Mãe Vida.

Mãe Vida escolheu-me outra Mãe. Uma Mãe de carne e osso. Uma Mãe Humana. E esta, por sua vez, forneceu-me uma Mãe, uma Mãe menor, unicelular. Seu óvulo. Poderia ter sido qualquer outro, mas foi aquele. Foi aquele, aquele se tornaria minha Mãe. Minha Mãe, dentro de minha Mãe, escolhida por minha Mãe Vida.

Pai, não tenho. O que é o pai? Fornecedor do material genético, do Sopro Existencial? Pois meu pai era aquele espermatozóide. E, no momento em que perfurou – (consigo sentir essa dor sofrida até hoje) – a parede de minha Mãe Unicelular, ele se desfez. Seu material genético – Meu material genético – foi espalhado por dentro da Mãe Unicelular. E desfez-se o espermatozóide. O homem que gerou o espermatozóide, diriam os mais biológicos, esse sim é meu pai. Não o espermatozóide. Nego. Ele era apenas um vetor...um vetor que fez minha existência ser possível.


O Vetor chamava-se Pierre Lovieuax. Contam-me que era chinês. Nunca o conheci.
(E será por isso que o vejo apenas como um Vetor?
Assim quis me fazer acreditar
o Psicanalista Primeiro de minha pessoa –
Eu Mesmo.
Não creio que assim seja.
Era um vetor.
Somente um vetor.)
Mamãe unicelular, essa sou eu.
Eu sou a Mãe.
Minha Mãe Maior está em Mim.
Pois do interior de minha Mãe Unicelular, o óvulo, fiz-me.
O ovo duplicou-se.
Dois ovos.
Os dois ovos se duplicaram.
Quatro ovos.
Células.
Núcleo celular?
Seria essa a essência de todos nós? Um Núcleo Celular?
Pois assim fui concebido.

Meu coração dispara. Apalpo meu bolso. Nada. Perdido. O Níquel foi perdido. Durante anos cunhado, durante anos estudado...e agora, perdido.
Resignação?
Derrotado?
Não. Olho novamente a água. É como um filme passando em minha cabeça e, traindo as leis da Natureza – Natureza suprema, pois então como tão facilmente traída? – a água inverte seu curso. Procuro-me no reflexo. As rugas...Permanecem. Percebo que estava de olhos fechados.
(Quais olhos?)
Abro-os. A água segue seu curso regular. As rugas...Permanecem. O Níquel, este se foi. Sinto que minha Metade Menor impulsiona-me para baixo. Olho a grama tão verde, tão verde -- e o Verde, a cor-mor da Mãe Natureza. Ela me seduz.
“Venha, Filho”, ecoa.

20090609

Atividade_5: Doutor F.

“Acredito que o momento mais difícil desse processo seja, ao final de tudo, tirar o lençol. É nesse momento em que expomos o nosso trabalho, nossa monstruosidade para o mundo, mesmo que ninguém mais efetivamente veja o que fizemos. É complicado.

Expomos nosso trabalho ao ar que nos cerca, aos olhares de desgosto, inclusive o nosso próprio. Pois mesmo que saibamos em nossas mentes o resultado de tudo aquilo... O nosso trabalho é feito quase sempre debaixo do lençol, por trás de uma névoa segura que isola nossos monstros em uma outra realidade, um outro modo de existência. Ao erguer o lençol, estamos destruindo esta ilusão, aceitando a existência de nossas monstruosidades mais íntimas; não podemos mais negar a proximidade daquilo que fizemos e de nós mesmos, nossas mãos estão impregnadas pelo fruto do nosso trabalho.

Este momento crítico de revelação se agrava ainda mais por não termos, ao nosso lado, a mesma euforia que tínhamos antes, durante o trabalho febril e apaixonado que resultou naquilo tudo. Estamos de volta aos nossos sentidos, não há mais desculpa para nossa consciência; só nos resta enfrentar a nossa criatura, nosso monstro irreversivelmente concebido. Arrancar o lençol é descobrir este monstro logo ali, colado à nossa pele – e não mais em algum ponto distante de nossas mentes ou almas. Quando se ergue o lençol, caímos de volta ao mundo do real e do racional, somos surpreendidos por essa luz dura justamente no momento que expomos o que nós temos de mais vulnerável, o ponto mais maleável de nossa carne à mercê de um mundo pontiagudo. Não é fácil.

Mesmo assim continuo, continuamos criando nossos monstros, um após o outro, erguendo o lençol e sofrendo a cada vez que somos forçados a encarar nossas criações. Pois isso é encarar o que há de pior em nós, é destruir as ilusões confortáveis de que somos, ao final de tudo, boas pessoas. Fazemos isso porque somos escravos de nosso poder, do êxtase que o segue e que nos domina. Tentamos nos tornar deuses, mas nosso poder é incompleto, a nossa vida não é viva e nem é bela – é horrenda e monstruosa; é a Morte nos encarando na sua forma mais primitiva.”

[Ingolstad's Tribune - Julho de 1915]

20090605

Atividade_2: Chá

Nice entrou no quarto e atirou a mochila ao chão. Fechou a porta, abriu a janela, tirou a blusa e se deitou, dormindo a tarde inteira sem almoçar. Quando acordou horas mais tarde com frio e com fome, se levantou, fechou a janela, vestiu um moletom e foi para a cozinha. Comeu um resto de risoto de frango, um pote de sagu de vinho e banana-nanica. Tocou o telefone, era Guilherme perguntando se ela ia ao show naquela noite; Nice diz que sim.
(...)
São sete da manhã e Nice ainda dorme. Quando acordar vai perceber que está sem voz. Quando levantar vai perceber que está sem nenhuma roupa por baixo da coberta. Quando colocar os óculos vai perceber que na sua mesinha-de-cabeceira existe uma xícara coberta por um pires. Se ela erguesse o pires, encontraria um chá ainda morno, fumegando de leve à camomila e gengibre, mas não ergue, não cheira, não bebe. Só aos trinta e tantos anos de idade, descasada e malempregada (enquanto mulher) é que Nice vai perceber que xícaras de chá não se fazem sozinhas.

Por enquanto, só lhe resta mostrar seus peitinhos para Mim, do prédio ao lado.

20090515

O Jogo de Cartas

Não há regras do jogo. Comemos morangos nos arredores de Paris, sentados na grama quase sempre nus e ao sol, até que a mais novinha – Joaquina, eu acho – se punha a correr pelo campo com ramas de morango presas debaixo dos braços. Os homens iam atrás, tentando apanhar os moranguinhos das ramas com os dentes, enquanto que as moças se instalavam em determinados lugares e tentavam nos acertar com cascalhos, seixos ou bolotas de carvalho, se fosse época de bolotas de carvalho.
Eram estes os bons tempos, Gabrielle.
-Haia, 9 de Agosto, 1923