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20160720


Olho distraído, distraído porque faço outras coisas, coloco os pratos na máquina, rego meu pé de sálvia, cuido da minha vida, enfim, olho e meu olhar se depara com a janela que dá para a rua e eu instintivamente procuro o imenso tanque de aço maciço que deveria avançar em direção à Vergueiro, rodeado por milicianos deste ou daquele lado, todos muito festivos com suas bandeirolas dessa ou daquela cor e cantando hinos e incitando as pessoas das casas a se juntarem a elas, supondo que já tenham terminado com a louça ou a sálvia. Na Vergueiro estariam já outros tantos tanques, e porque moro perto eu penso que deveria ser capaz de ouvir os tiros dos canhões, as dinamites, o grito assustado das pessoas correndo rua abaixo e se deparando com o tanque e os milicianos em festa.
Mais abaixo, na praça, ocupando a quadra onde em outros tempos alguém jogaria futebol ou soltaria o cachorro para correr um pouco, imagino os outros jovens, talvez com porte menos atlético e ar mais intelectual, lendo textos muito antigos ou muito novos em voz alta para as pessoas ao redor, chamando-as para a ação. Mesmo as pessoas que estejam na praça apenas porque queriam soltar seus cachorros certamente se comovem, talvez não pelo texto, que afinal é um pouco antigo, mas sim pelo fato de estarem os tanques nas ruas e por todo o resto, as certezas todas se desmantelando sob os aviões bombardeiros e os tiros de metralhadora.
A essa altura, tenho certeza de que uma menina vai vir correndo da praça, subir a rua a despeito de os tanques serem todos inimigos (no fim, todos os tanques são inimigos, porque ela é uma pacifista convicta), vai gritar em resposta para os milicianos que naturalmente não teriam como ouvir nada e então ela vai olhar para cima na esperança de encontrar ajuda e seus olhos encontrarão nada mais nada menos que os meus próprios, um pouco distraídos com a louça, mas ainda assim capturados pela cena e pela rua e pela janela. Eu também não ouviria nada do que ela diria, mas saberia que era importante, ciente dos tanques e dos tiros e dos aviões.
No fim, não havia nada de inocente no meu ato de estar distraído e me deparar de repente com a janela, era tudo absolutamente programado para eu testemunhar um ato qualquer de coragem que me tirasse da janela, talvez não sem antes regar também a pitangueira e o coentro, e descer para a rua para combater também os milicianos com suas dinamites, na esperança de conservar um mínimo de normalidade no mundo, evitar que aquelas pessoas todas a destruíssem a tiros.
Mas não tem tanque nenhum subindo a Machado de Assis. Se alguém está atirando na Vergueiro, daqui eu não ouço nada.
Talvez eu tenha entendido tudo errado.
Talvez seja justamente a normalidade que eu deveria sacudir das pessoas na rua, trazer eu mesmo os tanques, lançar minhas próprias dinamites.
Nem que fosse só pra deixar o mundo um pouquinho mais coerente.

20151210

Meus amigos são todos ricos.

Ou então são pobres por opção, quiseram fazer o que lhes desse na telha, foram lá, fizeram. Têm hoje, eles todos, a profissão que terão pelo resto da vida: não lhes preocupa a perspectiva de uma promoção, um aumento, não lhes interessa fazer um mestrado (mas fazem!), porque já são ricos ou escolheram ser pobres, não dividem seu tempo em um milhão de atividades desconexas, incompatíveis, impossíveis, não sentam-se à noite cansados e se perguntam se vão dedicar as horas livres (que têm) a isso ou àquilo, porque são coerentes, não se perguntam às vezes o que diabo estão fazendo com suas vidas, não fazem planos de começar qualquer coisa em um ou dois anos, porque já começaram tudo, é claro, estão agora em vias de realizar, cumprir, às vezes até terminar, e não sentem que metade das suas atividades é um atraso injustificável à outra metade, sem no entanto saber em qual metade deveriam estar avançando e qual metade os está segurando para trás, não desperdiçam ainda mais tempo escrevendo devaneios, muito menos se culpam quando não os escrevem. Meus amigos todos venceram na vida.
Um dia, eu já fui destinado também à vitória. Um dia eu estive fadado a ter tudo aquilo que o Universo tinha em reserva, e não era pouco, porque eu unia as oportunidades à competência, digamos assim, como quem une o útil ao agradável, a fome à vontade de comer, as asas com o saber voar, inclusive era da comunidade do Orkut, Já Tive um Futuro Promissor, ou algo assim, e também da Provo Teses Com Comunidades, que aliás vem a calhar, mas divago, acontece que um dia aconteceu alguma coisa, já nem sei, deve ter acontecido, porque de repente (não mais que de repente) eu já não tinha mais coisa nenhuma, não era nada daquilo que meus amigos são, era uma criatura dividida em mil outras, nenhuma se dando com as demais, nenhuma sabendo o que fazer com as demais, sem nenhum plano de metas, nenhum compromisso com futuro nenhum nem apetite, ou talvez fosse o contrário, um apetite grande demais, que não cabia na minha fome, nas minhas asas, no meu Orkut. Eu também um dia fui destinado a vencer na vida.
Hoje estou destinado a muito mais.

20141006

Mais uma

Entre Salvador e Ilhéus, o ônibus parou em um monte de cidadezinhas fora da rota turística da Bahia. Uma mais bonitinha que a outra, mas a mais bonitinha, com certeza, foi aquela cidade cujo nome não descobri, em que todos os postes tiveram as lâmpadas cobertas com balões de seda (festa de São Pedro, disse alguém no ônibus). Tentei tirar uma foto melhor, mas o celular não me deixou.
 A gente parou na frente da agência da empresa de viagens, não lembro o nome, do lado de uma casa azul-e-branca com cara de delegacia (mais tarde, alguém diria que era isso, mesmo, uma delegacia). Um monte de gente embarcou ali, mas teve uma mulher que não embarcou.
 Eu vi ela primeiro dentro da agência, vi ela com duas crianças, meio assustada, e então um homem chegou, segurou o braço dela e foi falar com funcionários da agência. Eu achei que tinha visto errado, achei que ele só tinha passado por ela, achei que tava tudo bem.
 Não tava.
 Enquanto o tal homem falava com os funcionários, a mulher saiu de dentro do prédio com as crianças, fez um círculo artificialmente grande, contornando o sujeito. Ia entrando no ônibus quando ele percebeu (talvez estivesse bêbado), correu pra cima dela, puxou. Honestamente, não sei dizer se ele bateu nela, mas foi uma agressão, sem dúvida nenhuma. A mulher querendo fugir com as crianças, imagina só o que não deve ter levado ela a isso, todo mundo no ônibus criticando o cara, defendendo ela, mas ele lá, impedindo ela de entrar e ninguém fazendo nada. Eu não fazendo nada. Algumas pessoas riam, todo mundo assistia como se fosse uma novela.
 As crianças choravam e o cara tinha um facão. Ele não ~usou~ o facão, mas um cara anda por aí, impedindo sua mulher de fugir com duas crianças no primeiro ônibus que aparece (imagino que sem nem ter pra onde ir), com uma peixeira na cintura, e você faz o quê? Fiquei no ônibus, olhando e não fiz nada. Lembrei das minhas outras inércias, achei que devia ir lá, mas não fui. Fiquei assistindo, como se fosse uma novela.
 No fim, o sujeito dominou a mulher, forçou-lhe um beijo, manteve as crianças. O motorista deu a partida e o ônibus foi embora. A mulher ficou lá pra aguentar as consequências da fuga mal sucedida; só mais uma mulher em mais uma cidadezinha linda fora das rotas turísticas.
Como se fosse uma novela.

20140630

Círculo de Fogo (crítica)

Um ano(?) tendo se passado desde o lançamento, consolidou-se o consenso de que Círculo de Fogo é o melhor filme de todos os tempos. A constatação é intuitiva e dispensa maiores explicações, ocorrendo naturalmente a todos que tenham a felicidade de assistir à obra máxima de Del Toro e do Cinema-com-C-maiúsculo, mas nem por isso a crítica, especializada ou não, deixou de escrever prolificamente sobre a obra.
Muito se falou, por exemplo, em como o filme é multicultural, muito embora o protagonista seja americano, haja apenas um personagem negro e a personagem japonesa grite "PELA MINHA FAMÍLIA" enquanto ataca com uma espada. Falou-se em como é um filme importante em termos de representação da mulher (e, particularmente, da mulher asiática), embora haja apenas 3 mulheres em todo o elenco. Elogiou-se a inteligência visual de Círculo Fogo e a forma como o filme evita clichês e, em suma, o fato de ele ser a coisa mais linda que já passou por uma tela de cinema, mesmo sendo um filme de robôs lutando contra alienígenas que repete fórmulas batidas e não tenta ser mais do que é. Falou-se sobre como Mako é uma protagonista de verdade, e não uma desculpa para fan service; sobre como cada um dos personagens secundários, mesmo aqueles que nem têm falas no filme, tem mais carisma que todo o elenco da maioria dos filmes de ação; sobre como os dois protagonistas não se beijam no final. Eu já vi gente, inclusive, analisando a força que uma cena (aqui e aqui) de um segundo, quase imperceptível, que se passa ao fundo, teria como contestação aos paradigmas de gênero em um típico relacionamento hollywoodiano. Textos e mais textos, portanto, que embasariam o argumento de alguém que sustentasse o brilhantismo do filme, caso isso fosse realmente necessário (não é). 
O que importa, porém, é saber por que escreveu-se tanto sobre Círculo de Fogo. Por que fez-se tantas manobras, tanto contorcionismo, para classificar o filme como inclusivo, inteligente, único. E o motivo para isso é que, bem, o filme é bom. Ele é legal. Ele faz você querer gostar dele. 
Eu odeio cenas de ação, mas as cenas de ação de Círculo de Fogo são realmente legais. Pra começar, a câmera não fica balançando, de forma que é possível efetivamente entender o que está se passando, ao contrário do que costuma acontecer nesse tipo de cena, mas, além disso, elas passam muito bem a ideia de colossalidade que o filme propõe --- e isso é incrível. Os Jaegers e Kaijus parecem ter peso. Eles se mexem e você sente que algo gigantesco está se movendo. 
E, obviamente, eles são legais. Os Jaegers servem a um propósito na narrativa, é claro, o que também é elogiável, mas o que importa, de novo, é que eles são legais. Eles inspiram as pessoas a criarem histórias, a imaginarem seus próprios robôs. Círculo de Fogo é um prato cheio para o fandon, não apenas por tudo o que ele traz, mas principalmente por tudo o que ele sugere (como foram os 6 anos de invencibilidade do casal Kaidonovski?; como eram os outros Jaeger Mark 3?; ...). Círculo de Fogo é, por isso mesmo, a maior promessa de surgimento de um "clássico" dos últimos anos. É o filme que, na minha cabeça, tem a maior chance de sobreviver como ícone cult para as gerações futuras. 
Eu posso não saber, então, se o filme é ou não mais do que uma história de robôs gigantes. Talvez eu nem seja qualificado para dizer se é uma boa história de robôs gigantes. Se é uma homenagem à altura do gênero. Mas eu acho que é. Círculo de Fogo me faz querer achar isso.

20140623


Eu queria morar em Brasília
onde os prédios são baixinhos
bem pertinhos
e queria morar em Paris
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra
Só queria morar longe da inércia
da inevitabilidade
da vida
onde ainda resistam os espíritos da terra
e se possa voar quando ninguém olha
Eu queria morar em Brasília
onde já teve uma revolução
e quem sabe não tem outra.

20140610

1.

Há muito, muito tempo, mesmo, em uma vila de pescadores, havia um dragão. Os homens e as mulheres, porque naquela vila os gêneros não determinavam a função da pessoa, saíam de manhã para o mar e suas redes voltavam sempre cheias de peixes que eles assavam nas chamas fartas de fogueiras coletivas, e sempre havia música e comida em abundância. Os trabalhos eram divididos e a comida também. Quem não podia pescar, ou não queria, porque naquela vila as pessoas eram relativamente livres para fazer suas escolhas, se ocupava de cuidar das crianças e ensiná-las, de proteger as casas contra animais selvagens, de fazer os reparos necessários nas construções, de fazer arte, de cuidar dos doentes, de fazer estradas, de construir embarcações ou o que mais fosse necessário. E evidentemente algumas pessoas optavam por não fazer nada e apenas se beneficiar do trabalho alheio, o que também era possível naquela vila, mas a maioria das pessoas simplesmente não queria isso, ou pelo menos não na maioria dos dias. De um modo geral, era uma vila harmoniosa e funcional, cujos poucos desentendimentos ocasionais eram prontamente solucionados por um grupo, eleito entre todos os moradores e representativo tanto dos interesses das maiorias quanto das necessidades das minorias, equivalente ao que nós habitualmente chamamos ou deveríamos chamar Judiciário. Mas o dragão era um problema.
Ele dormia em uma montanha próxima, uma montanha cujo cume era coberto de gelo em todos os meses do ano, mesmo quando o povo lá em baixo ardia sob o sol, mas a cada quinze dias, ou um pouco mais, se o tempo fosse bom e o ar estivesse calmo, ou então um pouco menos, quando chovia muito ou as ventanias vinham do sul, ele acordava. Voava por sobre a vila, destruindo casas com seu fogo, afundando barcos de pescadores ou mesmo caçando pessoas para comer. Se ocupava dessas malfeitorias por um mês, ou um pouco mais, caso estivesse bem disposto, e de qualquer modo nunca menos do que isso, e então batia as asas novamente em direção à montanha, onde se acomodava para dormir, inocente, por mais quinze dias, ou um pouco mais, ou um pouco menos.
Os moradores da vila se incomodavam muito com esse infortúnio, mas durante muito tempo não fizeram nada a respeito, porque acreditavam que o bicho podia um dia simplesmente ir embora ou morrer de velho. Ninguém sabia muito bem por quanto tempo vivia um dragão, já que não conheciam nenhum outro, pelo quê eram gratos, e aquele nunca havia morrido, pelo quê lamentavam e porque não lhes parecia muito fácil matar uma monstruosidade daquelas. Um dia , porém, um grupo de pessoas, eleito entre todos os moradores e atento tanto aos clamores das maiorias quanto ao silêncio das minorias, equivalente ao que nós habitualmente chamamos ou deveríamos chamar Executivo, decidiu que era hora de fazer alguma coisa.
Assim, como era o costume do lugar, todos os moradores se juntaram e saíram em direção à montanha, exceto por aqueles que não podiam fazer a viagem, por motivo de saúde, idade ou presença de deficiência motora, e por aqueles que optaram por não ir, o que também era possível naquela vila. No fim das contas, cerca de metade da vila saiu naquele dia e caminhou pela pradaria em direção à montanha, levando consigo apenas algumas ferramentas básicas, umas poucas trocas de roupa e alguma comida.
Enquanto caminhavam, uma pessoa foi mordida por uma cobra peçonhenta e morreu ainda na mesma noite, após horas ardendo em febre. Enquanto escalavam a montanha, três pessoas se feriram com graus diferentes de seriedade e decidiram voltar à vila, julgando-se, com ou sem razão, impossibilitadas de seguir a viagem. E a elas se juntaram as outras tantas que se cansaram, se amedrontaram ou por qualquer outro motivo desistiram de seguir viagem em direção ao cume, de modo que três sétimos da vila, apenas, chegaram ao ninho onde o dragão dormia, inocente. Essas pessoas se viram, então, diante de uma criatura de dimensões colossais, de escamas impenetráveis, cuja respiração era capaz de aquecer todo o ar em um raio de cerca de quinze metros, e constataram sem grande surpresa que a tarefa de executar um dragão não seria simples. 
Nessa vila, porém, as decisões não eram tomadas precipitadamente, de forma que muito já havia sido deliberado acerca de como seria o curso de ação para cumprir a missão de eliminar a terrível ameaça. Para começar, haviam concluído que o ideal seria aniquilar a fera em apenas um golpe, evitando-se assim o inconveniente de o animal acordar e começar a fazer coisas desagradáveis, como se defender ou, o que a opinião geral havia reconhecido como muito pior, contratacar. Uma pessoa observou que seria difícil subir a montanha levando armamentos, também porque aquela era uma vila de tendências pacíficas que nunca havia dedicado grandes esforços à indústria bélica. Outra pessoa sugeriu que uma alternativa seria simplesmente empurrar o dragão montanha abaixo, deixando seu próprio peso e a gravidade cuidarem do serviço. A proposta tinha a vantagem de dispensar equipamentos cujo transporte seria inconveniente, mas foi rapidamente rechaçada pelo grupo, que supôs que o dragão provavelmente acordaria durante a queda e, acordado, não teria dificuldade para simplesmente agitar as asas e voar montanha acima ou mesmo em direção à vila. Outra sugestão consistia em introduzir --- pela boca, pelas narinas ou por onde fosse possível --- pólvora e combustíveis variados no dragão, para posterior explosão da criatura. Essa ideia, porém, também não resistiu à sabatina, visto que considerou-se, com muita pertinência, que introduzir materiais inflamáveis ou explosivos em uma criatura basicamente constituída de fogo seria uma tarefa inglória. Finalmente, o consenso geral foi o de que o dragão deveria ser acorrentado --- da maneira mais sutil que os habitantes da vila pudessem fazê-lo (e os habitantes daquela vila, ou ao menos alguns deles, sabiam ser bastante sutis, visto que se empenhavam a toda variedade de processos artísticos ou científicos que exigiam grande precisão) --- até que não houvesse chance de escapar, e, então, o grupo poderia se posicionar em local seguro e atacá-lo com as ferramentas de que dispusesse, ou, ainda, embora esse fosse um ato de crueldade que contrariava a moral da maioria dos habitantes daquela vila, deixá-lo lá, incapaz de levantar voo ou caçar, até que ele morresse de fome, de sede ou nas mãos de quaisquer predadores que ousassem se aproveitar de sua impotência.
Assim, em resumo, os moradores da vila que resistiram à viagem se encontraram finalmente diante daquela criatura de dimensões colossais, que respirava fogo e os amedrontava mesmo em seu sono, cientes da dificuldade da tarefa que lhes cabia, mas dotados de um plano. O grupo se organizou então de modo a que todas as partes desse plano pudessem ser executadas adequada e simultaneamente, e passou a se ocupar da colocação das correntes que deviam ser inicialmente presas a porções rochosas da montanha (e não a árvores ou a pedras que pudessem ser posteriormente carbonizadas ou movidas, respectivamente, pelo dragão) e depois cuidadosamente passadas por sobre o animal, com o cuidado de imobilizarem-se todos os membros e articulações (as do rabo despertando particular preocupação); da fixação, por cima das asas do bicho, de uma rede feita com grandes tiras de couro; de vestir por sobre os olhos do dragão uma imensa venda que lhe retirasse totalmente a visão; de amarrar-lhe o maxilar, dificultando que ele voltasse a exibir os dentes ou soprar fogo sobre quem quer que fosse.
A execução dessas tarefas se deu, de um modo geral, com grande precisão e cuidado, mas, de todo modo, os eventuais erros decorrentes da inépcia de alguns dos habitantes daquela vila ou do simples nervosismo causado pela proximidade com aquela criatura terrível foram encarados por todos como naturais e inevitáveis em uma empreitada de tal magnitude, também porque naquela vila os moradores procuravam sempre ajudar àqueles com dificuldade e atuar e forma a minimizar os efeitos das diferentes habilidades de cada um, ao invés de criar ou incentivar discriminações baseadas nessas diferenças. A despeito disso tudo, porém, e também porque, como todos sabiam, matar um dragão não era tarefa fácil, ainda que se tivesse um plano, a missão daqueles moradores que subiram a montanha e encararam o dragão foi tremendamente mal sucedida. Isso porque, em meio à execução dos procedimentos todos que constituíam a estratégia dos habitantes da vila, todos eles descritos acima, o dragão --- em decorrência, talvez, de algum dos erros também descritos acima, ou de algum outro, ou ainda por outra razão qualquer --- acordou.
Os habitantes da vila que haviam resistido à viagem, e se deparado com o dragão, e iniciado os procedimentos que deveriam levar à sua execução --- tais moradores estavam empenhados justamente em tais procedimentos quando tal dragão respirou mais profundamente (matando por combustão meia dúzia de tais moradores), abriu os olhos do tamanho de choupanas e agitou sua enorme cabeça, através de espasmos violentos de seu enorme pescoço (ferindo, por contusão, outra meia dúzia de tais moradores). O monstro agitou suas asas, arremessando ao ar couro, correntes e uma terceira meia dúzia de habitantes daquela vila, e então saltou com um gesto brusco de suas patas traseiras, cujos músculos se demonstraram mais duros mesmo que as próprias rochas da montanha nas quais eram presas as correntes.
O salto imediatamente se transformou em voo, mas um voo que nada tinha a ver com o planar tranquilo das águias que giram nos céus aproveitando-se das correntes de vento, se assemelhando muito mais com os mergulhos que essas mesmas águias davam ao avistar, ao longe, suas presas. Assim, o dragão se atirava em fúria contra os habitantes daquela vila que haviam chegado até seu território, todo garras e dentes e chamas, com precisão perfeita e velocidade violenta, e esses moradores, que haviam levado consigo apenas umas poucas armas montanha acima, e de qualquer forma nenhuma delas de fogo, porque o fogo era o elemento do inimigo, lutavam contra ele da forma como podiam, ou então não lutavam, porque não podiam ou porque não queriam fazê-lo, preferindo correr ou se esconder ou contemplar a morte que se impunha contra eles.
Metade das pessoas que haviam chegado ao ninho do dragão, e que correspondiam a três catorze-avos da população da vila (se bem que esta, a esta altura, também já havia sido bastante reduzida) havia morrido antes que qualquer dano pudesse ser infligido ao inimigo; outro quarto (ou três vinte-e-oito-avos, ou outra fração qualquer que considere as baixas sobre a população total da vila) morreu quando o dragão ainda parecia simplesmente imbatível. Mas então alguma coisa aconteceu.
Com menos inimigos, o réptil, habituado a atacar grandes aglomerados de gente, perdeu eficiência. Ao contrário do que ocorre com predadores como as leoas ou as chitas, o dragão não adotava usualmente a estratégia de seguir uma única presa em meio ao rebanho, mas sim a tática, usada por golfinhos ou tubarões, de juntar uma grande quantidade de animais em um mesmo ponto, cercando-os e encurralando-os, para depois abocanhar um grande número de uma só vez. Isso funcionava bem quando o intuito era conseguir comida na vila, mas trazia dificuldades agora que, movido por um desejo de vingança, ele pretendia aniquilar cada um e todos os indivíduos que haviam chegado até seu ninho.
Os moradores da vila ainda morriam ou eram feridos pelo bicho, mas agora, espalhados e escondidos entre árvores e pedras, começou a lhes parecer possível sobreviver. Mais um pouco e algumas daquelas pessoas, primeiro uma e depois outras, mas decerto não todas, se convenceram de que, com algum cuidado, seria possível inclusive atacar o dragão. Assim, saltando de trás de uma pedra com uma faca na mão ou atirando uma seta do topo de uma árvore ou ainda girando alguma corrente pelas costas do bicho, aquelas pessoas começaram a machucá-lo. 
Quanto mais lhe feriam, mais o dragão se confundia. Não demorou muito, começou a sangrar.
A luta foi lenta e o dragão continuava a atacar e ferir e matar pessoas, mesmo enquanto essas tinham algum sucesso em também atacá-lo, e também ferirem-no. Finalmente, restou ao dragão um último suspiro de vida; e restou, ao grupo de moradores da vila que havia subido a montanha e chegado ao ninho e lutado, uma única mulher. Os dois se encararam, um de frente para o outro, o dragão caído ao chão e já com os olhos semicerrados, a mulher assombrada pela enormidade das mortes que havia presenciado, e ambos sabiam o que ia acontecer. Não foi preciso mais que um chute --- um chute sem raiva nem crueldade; um chute que foi apenas o que era preciso --- para que estivesse tudo terminado.

***

Muitas vezes depois disso, a mulher se perguntou se teria sido apenas coincidência. 
Era possível, claro, que aquela vila fosse protegida por alguma entidade mágica que quisesse demonstrar seu agradecimento à mulher que matou o dragão. Era possível, também, que o dragão guardasse uma última maldição para quem o matasse. Ambas as hipóteses eram possíveis e capazes de explicar o que aconteceu depois. 
Mesmo assim, nos anos seguintes, ela não pode deixar de pensar que poderia ser só coincidência. Talvez, com ou sem a morte do dragão, ela estivesse mesmo destinada a viver para sempre.

20140131

Especialização


Saindo do Soho (onde paguei por um corte o que normalmente me permitiria cortar o cabelo umas quatro vezes --- mas essa é outra história), me peguei novamente em uma situação tremendamente incômoda e que tem se tornado também tremendamente frequente. Foi assim:
Ainda lavando o cabelo (pelo que eu tive que pagar dez reais adicionais, o que não me foi informado de antemão e ainda configura venda casada, mas isso é outra história), eu expliquei para a moça (a Taiz --- acho que assim: com Z) que eu queria que meu cabelo ficasse comprido, mas mais ou menos curto, mas que continuasse crespo, mas não tão crespo, ou talvez mais crespo, não sei, o que ela achava? Expliquei que todas as vezes que eu tinha ido ao cabeleireiro até então eu tinha sido perguntado sobre como queria deixar meu cabelo e que em cada uma dessas vezes eu respondi uma coisa diferente (“pode abaixar aqui e raspar do lado”; “só arruma o que tiver fora do lugar”; “mete a máquina aí!”), mas que todos os cabeleireiros ignoraram terminantemente minhas respostas vagas e simplesmente fizeram o que quiseram e no fim o meu cabelo acaba sempre indistinguível de cada uma das vezes anteriores. E eu expliquei que por causa disso eu preferia não falar nada, que ela fizesse o que bem entendesse contanto que meu cabelo acabasse comprido, mas curto e crespo e diferente das outras vezes todas em que cortei o cabelo.
Ela fez --- acho que ela fez um bom trabalho. Ficou legal, e tudo o mais, apesar de muito curto e, francamente, igual a todas as outras vezes em que eu cortei o cabelo (só que quatro vezes mais caro etc). A principal diferença em relação à maioria dos lugares que custam quatro vezes menos é que ela me sugeriu comprar um modelador de cachos que daria ao meu cabelo a proporção correta de crespice e armação, enquanto os outros não me recomendam absolutamente nada.


Quatro anos antes, eu instalei o Ubuntu 10.04 LTS Edition no meu computador. Meses depois, animado com a possibilidade de não usar Windows Vista e com a leitura de Neuromancer, instalei o Linux Mint Debian Edition --- LMDE para os chegados --- no notebook.
A primeira coisa que eu aprendi sobre o Linux é que, com ele, eu poderia realizar todas as minhas fantasias mais loucas em termos computacionais; eu poderia mudar qualquer aspecto da interface, poderia usar efeitos tridimensionais absolutamente inúteis, desde que ciente de que eles superariam em muito o que a minha limitadíssima placa de vídeo Intel Onboard pode fazer, poderia testar softwares em desenvolvimento etc. A segunda coisa que eu aprendi foi que para fazer qualquer coisa dessas eu precisaria estar disposto a deixar de me preocupar com a bomba, isto é, com a possibilidade de inutilizar completamente meu computador (o que, de fato, ocorreu algumas vezes) e aprender a amar o Google.
Em uma das minhas buscas, achei alguém que, em um fórum, tentava esclarecer uma dúvida que eu compartilhava. As respostas foram as mais diversas, mas todas envolviam uma série de linhas de comando que precisariam ser executadas no Terminal.
“Por que não fazer isso com o mouse?”, perguntou o sujeito do fórum: outra dúvida que eu compartilhava.
Alguém --- um veterano de Linux, presumivelmente, um viúvo do Unix, um entusiasta do Slackware --- respondeu que aquele era o problema das pessoas que migravam do Windows: queriam tudo mastigado! Somente com as linhas de comando é que se poderia entender de verdade o funcionamento de um computador (aparentemente porque existe uma estranha conexão entre copiar e colar códigos que estranhos postam em fóruns na internet e o funcionamento do kernell de um sistema operacional) e qualquer acomodado que quisesse simplesmente clicar aqui e ali e resolver seus problemas era bem vindo a retirar-se do mundo open-source e voltar para a ameaça constante dos vírus, trojans e worms que, na visão do indivíduo, assombram o Windows. Vários usuários manifestaram sua concordância em relação a essa afirmação.


Antes ainda disso, em 2009, eu voltei da Inglaterra entusiasmado com a ideia de adotar a bicicleta como solução de transporte. Mais do que isso, porque eu era um idiota, voltei entusiasmado com as bicicletas sem marcha e com freio contrapedal que eu havia visto na Holanda.
Eu fui a uma bicicletaria na Sena Madureira (a propaganda não vale muito, a essa altura, porque o lugar, merecidamente, fechou), falei mais ou menos o que eu queria e, uma semana depois, recebi a ligação dizendo que minha caiçara tinha chegado.
Era uma bicicleta de trezentos e cinquenta reais, pesada como chumbo e com uma proteção de esponja no guidão. Dias depois, em outra bicicletaria, me diriam que todos os parafusos tinham vindo mal apertados. A coroa também não demorou muito a quebrar, o que permitiu que eu trocasse a original, com sua imagem pré-adolescente de uma caveira para uma de metal liso, muito mais adulta. Mais tarde, eu descobrira que a simplicidade do modelo não permitiria que eu trocasse os pedais.
A Vandinha (esse é o nome dela, à minha revelia) é a melhor bicicleta do mundo, mas isso não me impediu de, em 2012, comprar uma mais moderna, com clipes nos pedais (o que, me disseram, aumenta muito o rendimento da pedalada), amortecedor na frente (o amortecedor de trás, me disseram, come parte do seu esforço), rodas de aro 700 (melhores, me disseram, para enfrentar as subidas da Aclimação) e computador de bordo.
Quando eu fui atrás de informações para esta segunda compra, os entendidos me explicaram todas as características e proporções que uma boa bicicleta deveria possuir. Me indicaram as melhores marcas e me avisaram da necessidade premente de andar sempre com uma bomba, uma câmara extra, um jogo de chaves de fenda. Esses mesmos entendidos me disseram que a Caloi não estava com nada e que por menos de dois mil reais não se pode sequer sair de casa. Tinham razão, é claro, ou deviam ter.


Meu problema, portanto, não são os sessenta reais do cabeleireiro, já inclusos os dez reais que me foram tomados pela lavagem. Com a frequência com que eu corto o cabelo, isso equivale a bem menos do que meus gastos com flanelinhas. Não são os muitos reais da bicicleta, mais outros tantos pelas customizações, não é nem o que gastei na garrafinha térmica que logo esqueci no vestiário do trabalho. Meu problema não é financeiro.
E também não é, obviamente, o tempo gasto na internet para aprender a compilar os programas mais chatinhos, que não vêm com instalador. Deus sabe que eu gasto tempo na internet com coisa muito pior.
O problema --- o que me faz ir às barbearias de quinze reais, com suas cadeiras antigas que não sobem quando o cabeleireiro pisa no pedal de alumínio, com o borrifador de água que substitui a lavagem com xampu, com suas revistas ridículas de fofocas dos anos noventa, e o que me faz usar o Ubuntu, no final das contas, ao invés do Fedora, e ainda o que fez com que eu tivesse escolhido levar comigo, para sempre e para onde quer que eu vá, a Vandinha no lugar da Trek 7100 --- é a cobrança que esses lugares de maior glamour impõem sobre a gente.
Neles, não me basta cortar o cabelo; tenho que entender meu cabelo. Entender suas características de oleosidade e curvatura, comprar produtos (pior: usá-los!), evitar que os fios sejam danificados pela excessiva distância temporal entre um corte e outro. Não me basta a disposição de pedalar; tenho que entender as vantagens de uma geometria triangular do quadro em relação à curva, tenho que identificar as razões pelas quais a passagem das marchas deve ser feita de modo a evitar uma relação cruzada, tenho que comentar orgulhoso que meus freios são Shimano e minha luzinha é CatEye.
Em suma: exige-se que eu seja um especialista, um estudioso empenhado e interessado. Mas um especialista em todas as áreas do conhecimento: o terrível especialista-geral, constantemente provocado a emitir opiniões sobre política (e ai de mim se não souber o último ato de brilhantismo do Mujica!), sobre artes (e a vergonha de admitir que até então nunca havia ouvido falar em Luigi Pirandello?), sobre os recentes lançamentos dos videogames, os quadrinhos, a poesia ultra-moderna...


Eu não sou um especialista! Eu nem sei se existe algo como uma “relação cruzada”, se o Slackware é um exemplo adequado do purismo Linux ou se vai hífen em “ultra-moderna”. Eu não sou um especialista nem nas coisas em que eu gostaria de ser especialista, nas coisas --- nas poucas coisas --- que eu estudo com empenho e interesse!
Pode bem ser que evitar os cabeleireiros caros não seja assim o modo mais maduro de lidar com o problema. Pode ser que eu devesse, afinal, andar com a câmara extra, já que pneus furam --- sejam eles de especialistas ou não. Eu não nego as vantagens do conhecimento amplo e irrestrito; pelo contrário, sou um dos mais favoráveis ao aprendizado enquanto fim em si mesmo, e dos maiores opositores à política do “como o Teorema de Pitágoras vai ser útil na minha futura vida de advogado?” pela qual vivem tantos colegas meus.
Podendo, quero saber os segredos dos meus cabelos, quero manobrar meu computador para além de seus limites aparentes, quero saber sobre os melhores objetos caseiros com os quais improvisar um microscópio (caneta-laser e smartphone). Quero entender a dança protagonizada pela Terra e Vênus ao redor do Sol. Quero saber todos os significados que Drummond tem para mim e para você.
No fundo, dirão, talvez seja o medo de ver constatada a minha ignorância o que me aflige. O medo de ser incapaz de diferenciar o conselho honesto do embuste motivado pela perspectiva de vender este ou aquele tônico capilar. Vai ver que durante todo esse tempo eu tenho usado esses cabeleireiros silenciosos (mas que decerto conhecem também os cremes e as loções) e esses vendedores de bicicleta trambiqueiros (mas que não andam por São Paulo em caiçaras) para esconder a inconveniente realidade do mundo: as coisas me são inalcançáveis. Certo?
Errado. Errado, digo eu, eu que defendo o aprendizado enquanto fim, eu que quero aprender sobre penteados e sobre a escala pentatônica e sobre a possibilidade de um ser provido de inteligência artificial possuir uma alma, errado, eu digo, porque o conhecimento deve vir sempre acompanhado da certeza de sua insignificância diante da infinitude de coisas que há para se saber no mundo. Errado justamente porque as coisas nos são inalcançáveis. Nunca as compreenderemos, não em sua plenitude. Pretender compreendê-las todas, como parece ser a moda atual, em que todos precisam especializar-se em todos os assuntos do mundo e em que toda a ignorância é humilhante --- pretender compreendê-las é voltar-se contra a inteligência de Webber e de Aristóteles: o universo à luz da ciência é infinitamente mais alheio ao indivíduo que o era o mundo das explicações religiosas, e, perdidos e sozinhos, não podemos pretender nenhuma certeza além da de nossa própria e inesgotável ignorância. Ou, melhor dizendo, da inesgotável vantagem que os barbeiros de quinze reais levam sobre os de sessenta --- fora a lavagem.


20131217

Walking Stereotype


[...]
(Comentário ao (excelente) texto Coke Sex For Teen Sluts)

20131128


À mon tour de vous demander : vous ne croyez pas vraiment à la fin du monde ?
Non, évidemment. Le monde n’aura pas de fin. Du moins pas la fin qu’on attend ici. Qu’une catastrophe détruise notre planète, je ne dis pas...
Notre paysan le plus fruste ne croit pas à cette fin-là, épisodique et accidentelle. Son univers n’admet pas l’accident. Il est plus rassurant que le vôtre, malgré les apparences.
Peut-être bien. Malheureusement pour nous, c’est mon univers qui est vrai. La terre n’est pas plate. Elle n’a pas de versants qui donnent sur l’abîme. Le soleil n’est pas un lampadaire fixé sur un dais de porcelaine bleue. L’univers que la science a révélé à l’Occident est moins immédiatement humain, mais avouez qu’il est plus solide...
Votre science vous a révélé un monde rond et parfait, au mouvement infini. Elle l’a reconquis sur le chaos. Mais je crois que, ainsi, elle vous a ouvert au désespoir.
Non pas, elle nous a libérés de craintes... puériles et absurdes.
Absurdes ? L’absurde, c’est le monde qui ne finit pas. Quand saurait-on la vérité ? toute la vérité ? Pour nous, nous croyons encore à l’avènement de la vérité. Nous l’espérons.
« C’est donc cela, pensa Lacroix. La vérité qu’ils n’ont pas maintenant, qu’ils sont incapables de conquérir, ils l’espèrent pour la fin. Ainsi, pour la justice aussi. Tout ce qu’ils veulent et qu’ils n’ont pas, au lieu de chercher à le conquérir, ils l’attendent à la fin. » Il n’exprima pas sa pensée. Il dit simplement :
Quant à nous, chaque jour, nous conquérons un peu plus de vérité, grâce à la science. Nous n’attendons pas...
« J’étais sûr qu’il n’aurait pas compris, songea le chevalier. Ils sont tellement fascinés par le rendement de l’outil qu’ils en ont perdu l’immensité infinie du chantier. Ilsne voient pas que la vérité qu’ils découvrent chaque jour est chaque jour plus étriquée. Un peu de vérité chaque jour... bien sûr, il le faut, c’est nécessaire. Mais la Vérité ? Pour avoir ceci, faut-il renoncer à cela ? »

(Cheikh Hamidou Kane, L'aventure ambiguë)










-Yo estoy en el suelo -dijo Ronald- y nada cómodo para decirte la verdad. Escuchá, Horacio: negar esta realidad no tiene sentido. Está aquí, la estamos compartiendo. La noche transcurre para los dos, afuera está lloviendo para los dos. Qué sé yo lo que es la noche, el tiempo y la lluvia, pero están ahí y fuera de mí, son cosas que me pasan, no hay nada que hacerle.
-Pero claro -dijo Oliveira-. Nadie lo niega, che. Lo que no entendemos es por qué eso tiene que suceder así, por qué nosotros estamos aquí y afuera está lloviendo. Lo absurdo no son las cosas, lo absurdo es que las cosas estén ahí y las sintamos como absurdas. A mí se me escapa la relación que hay entre yo y esto que me está pasando en este momento. No te niego que me está pasando. Vaya si me pasa. Y eso es lo absurdo.
-No está muy claro -dijo Etienne.
-No puede estar claro, si lo estuviera sería falso, sería científicamente verdadero quizá, pero falso como absoluto. La claridad es una exigencia intelectual y nada más. Ojalá pudiéramos saber claro, entender claro al margen de la ciencia y la razón. Y cuando digo "ojalá", andá a saber si no estoy diciendo una idiotez. Probablemente la única áncora de salvación sea la ciencia, el uranio 235, esas cosas. Pero además hay que vivir.

(Júlio Cortazar, Rayuela)

20130628

Vai que ajuda?


(...)
Carlos Eduardo abriu um editor de texto, colou ali o conteúdo de um e-book d’A Divina Comédia e salvou o arquivo como midi.
Não era tão simples assim, mas dava pra fazer. Cada caractere tem um valor (0-255) que na verdade são oito zeros ou uns. A música tem especificações diferentes, mas, no fim, também é feita de grupos de oito zeros ou uns. Alguns ajustes, um conversor que ele mesmo programou e no minuto seguinte ele já poderia ouvir Dante.
Antes, ele aumentou a luminosidade do quarto até não enxergar mais nada além do mar branco de suas pálpebras, e então, tateando, apertou a barra de espaço do computador para reproduzir o som. Conforme ele se reclinava na cadeira, um chiado começou.
Carlos Eduardo era só mais uma evidência de que as pessoas se adaptam. Quando você tenta reproduzir um som repetitivo e se cegar ao mesmo tempo, o sistema operacional percebe. Ele não deixa.
Se você programa um sistema operacional próprio, você não vai conseguir ligá-lo na rede sem que alguém fique sabendo e faça alguma coisa, e não importa o que você faça, você sempre está conectado à rede.
O bloqueio do sistema e do tocador não demora mais do que alguns segundos, mas em um mundo sem outros tipos de entorpecentes, alguns segundos são o suficiente.
Funciona assim: 20% se devem à luz forte e ao chiado privando-lhe de dois sentidos. O resto é basicamente placebo.
Quando a música parou, ele abriu os olhos. A luz também havia sido baixada e o computador já reiniciava no SO padrão, mas ele ainda estava deitado e via coisas piscando no teto. De repente, as coisas piscando se transformaram no rosto gordo de um cliente pedindo que ele configurasse um programa de envio de SPAM para rodar integrado aos equipamentos dos funcionários, o que era um trabalho que lhe tomaria no máximo cinco minutos e que renderia algum dinheiro, mas ele demorou para responder, enquanto brincava com a imagem da videoconferência, arrastando-a do teto para as paredes, das paredes para o chão, do chão de volta para o teto. Pode deixar, ele disse, e o rosto se apagou.
O quarto de repente ficou preto, todas as paredes virando terminais negros cobertos com letras brancas, e foi só então que Carlos Eduardo se levantou. Só assim é que ele se sentia em casa.
Existem vantagens em trabalhar diretamente na máquina dos clientes. Existem permissões. Normalmente, algumas linhas de código são inutilizadas já no compilador, mas quando se mexe com sistemas internos de determinadas empresas, a coisa é relativizada. Ele passou as mãos pela parede à sua frente, embaralhando com seu toque as letras ali projetadas. Mexendo rapidamente os dedos, diretamente na tela, ele começou a digitar comandos, brincar com números, anotar variáveis. Ele queria que a Comédia ainda estivesse tocando.
O sistema é assim: o usuário sempre está rodando um software. O software dita os limites do que ele pode fazer. O software foi programado por alguém. O programador rodou um compilador. O compilador dita os limites do programador. E então, existe o cara que programou o compilador, em linguagem de máquina. Por alguns instantes, Carlos Eduardo é esse cara. E é tão bom quando isso ocorre depois de uma sessão da Divina.
Há dez anos, ele trabalha com coisas assim, e ele é bom no que faz. As maiores empresas pagam para que ele programe seus computadores, e ele consegue configurar um sistema complexo em não mais que meia hora. Trabalhos de meia hora, feitos por nove horas diárias, ao longo de dez anos, é bastante serviço. É o suficiente.
Quando o sistema é posto novamente no ar, um programa externo faz a leitura de tudo o que foi alterado. Se houver qualquer falha de código ou de segurança, esse programa deverá corrigi-la imediatamente. O programa-revisor é coordenado e atualizado por uma das maiores empresas de segurança, a Velotech. A Velotech trabalha sempre com funcionários qualificados na atualização de seus programas. Nos últimos três anos, Carlos Eduardo fez 60% desses serviços.
(...)

20130427

Balada da amora que não como


No meio do caminho tinha uma amoreira
e ir trabalhar era encher-me de amora
e o mundo era bom e havia ordem –
mas a prefeitura achou por bem a poda.

A amoreira lá ficou: ainda é viva
e ainda a vejo todo dia, mas agora
me esvazia, pois só onde não alcanço
seus galhos curtos ainda se enchem de amora

E em casa, tanta fruta: tem banana
tem pêra, e até (quando tem feira)
tem ameixa – e as como, mas comê-las

é um ato de patética vileza:
como-as com a boca, mas minha mente
e meu coração estão com a amoreira

20130412

Ainda a metaverdade

Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas
Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:
"Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações".
(Hesíodo, Teogonia - tradução de Jaa Torrano)

20130301

Foi um sonho relativamente longo.

Eu sei que sonhos não são realmente mais longos ou mais curtos, sei que eles só duram alguns segundos e que, se parecem se estender por horas, é só porque essa é a impressão que deixam em nosso cérebro, mas, dentro dessa concepção muito específica de duração, que só se aplica aos sonhos, aos delírios e à vida, esse foi um sonho relativamente longo. Eu me lembro do tato, me lembro perfeitamente do som, mas não me lembro de muitas imagens: apenas do cigarro e do fogo.
Seria melhor se eu estivesse em um gramado sombreado por árvores ou em um banquinho à margem de algum rio, mas não havia cenário, não havia companhia, não havia horizonte; apenas o cigarro e o fogo. O cigarro queimava devagar. Estava na minha mão e eu sentia o papel e a palha dentro dele (não havia filtro, não era um cigarro fabricado. Também não havia o fedor de cigarro, mas um cheiro como o de pinhas na lareira.) e sentia um calor fraco nos dedos. Ele fazia o ruído baixinho e eterno de uma fogueira pequena --- o crecrec confortável, quente e ameaçador das coisas que queimam sem pressa ---, mais intenso quando eu tragava e sua luz aumentava e o papel se incendiava minusculamente entre meus dedos, mais fraco nos intervalos, quando eu me distraía e ele podia respirar.
Provavelmente, havia algo ao meu redor, algum estímulo visual qualquer, talvez vozes. Provavelmente, se eu conheço meus sonhos, havia mais gente, comigo.
Mas eu me lembro do cheiro, do tato e do som e da imagem do cigarro e do fogo, apenas.

20130215

A história de Y. (versão estendida)

Y. defendia a extinção das segregações baseadas em gênero. Ele era homem, branco, não-pobre e, até onde se sabia, heterossexual, o que o colocava em uma posição confortável na sociedade, mas um dia saiu às ruas revelando --- não por meio de um discurso acalorado, o que seria considerado adequado pelas mais variadas castas de nossa sociedade, mas através de uma saia frisada --- seu amor pelo crossdress: um Ed Wood com talento, dir-se-ia. O mundo das artes foi tomado de assalto.
Nos dias que se seguiram, jornais reportaram o fato com manchetes alarmantes acompanhadas da foto de Y. em um vestidinho tomara-que-não-caia estampado e de depoimentos do padeiro, do jornaleiro, dos vizinhos: não imaginávamos nada, sempre nos pareceu um sujeito tranquilo, sempre nos pareceu um cara normal. A resposta da parcela engajada da população ao tom conservador das matérias foi ainda mais barulhenta, o que alimentou um debate acalorado na mídia impressa e nas redes sociais.
Passado algum tempo, consolidou-se a ideia de que Y. era só um cara que gostava de roupas de seda e não queria nada apertando seu entrepernas, o que era bastante compreensível para a maioria dos homens, embora estes não o admitissem publicamente. Tudo parecia assentado até um dia, quando Y. se envolveu em um incidente ao tentar usar o banheiro feminino de um restaurante. O evento resultou no primeiro debate público de que tenho conhecimento da questão de divisão de gêneros em banheiros públicos no Brasil, de forma que mesmo o desconforto no momento (e o prolongamento do desejo de mijar) acabaram revertidos para o Bem, de certa forma.
Contudo, a experiência de Y. não parou por aí. Em algum momento aí no meio, houve a revelação de que Y. não era um heterossexual "vestido de mulher", mas sim um bissexual-em-termos --- mas, diante de todo o resto, a notícia não surpreendeu ninguém. Ocorreu que, dia desses, chamaram atenção para o fato: Y. não apenas trocou as calças por saias, num movimento reverso à Revolução Feminina, mas também passou a portar barbeado rente, cabelo longo, maquiagem. Depilava o corpo todo (in-tei-ri-nho), usava produtos de beleza, se perfumava. Pegava homens. Veio a constatação: em sua crítica aos papeis baseados no gênero, Y. acabou por criar uma fantasia de mulher que adotava todos os aspectos que a sociedade por ele criticada atribuía a ela. A personagem que ele criou se submetia às imposições estéticas criadas pela sociedade machista, era heterossexual-em-termos, usava o banheiro considerado adequado ao seu gênero etc.
Y. percebeu, então, que para alcançar seus reais intentos, precisaria se transformar em uma mulher que não usasse roupas consideradas tipicamente femininas, não se depilasse, não usasse para si mesma a flexão feminina das palavras. Deixou a barba crescer, comprou cuecas, se livrou da cera de depilar.
Mas isso não era o suficiente. Não bastava deixar de obedecer a estereótipos, era preciso subvertê-los. Como mulher moderna, Y. assinou o pay-per-view do futebol, passou a coçar o saco em público e a cuspir no chão. E não parou por aí.
Passadas algumas semanas, Y. podia ser encontrado gritando obscenidades para as mulheres que passavam na rua. Familiares afirmavam tê-lo ouvido citar posts do Testosterona no almoço de Páscoa e três testemunhas juraram que ele usou a expressão "macho alfa" em ao menos duas ocasiões. Y estava fora de controle.
À misoginia, aliou a homofobia e, por que não?, o racismo. Passava madrugadas na internet pesquisando novos comportamentos ultrajantes para colocar em prática.
Em resumo, Y. havia se transformado em um verdadeiro monstro, quando um colega antropólogo e psicanalista mencionou o fato de que ele incorria no mesmo erro do início de sua empreitada, apenas invertendo-o. Percebendo horrorizado em quê se transformara, Y. correu para sua casa, tirou às pressas o macacão de lumberjack e sentiu, pela primeira vez em meses, o toque suave de um vestido de algodão em sua pele.
Desde então, Y. nunca mais ligou para o que os outros pensavam.



20130118

180


É muito fácil determinar que oitenta porcento (estou sendo modesto) das pessoas no Parque da Aclimação pertencem a uma mesma classe social, oitenta porcento daqueles homens sarados (eu não incluso) e daquelas mulheres gostosas poderiam se encontrar ali e formar casais com gostos e hábitos absolutamente homogêneos, imagino que o façam, e lá, ao contrário do que ocorreria no Ibirapuera, seria possível dizer que quase todo mundo mora ali por perto, o que é conveniente, e é até possível apontar para alguém com 66% de certeza e determinar se a pessoa é ou não vegetariana (o que significa que duas destas três: a menina pintando o lago com aquarela, a senhora andando de sandália, o cara cuja camisa estampa um mapa da devastação da mata atlântica) e se ela gosta de rock (o cinquentão de camiseta preta) ou sertanejo (o cara com pinta de rico e sua namorada loira). É tão fácil, na verdade, que eu pensar em mim como estrangeiro...
Tenho vontade de fumar. Não cigarro, porque o cigarro é do mal, mas um charuto seria legal, acho. Fumar me lembra uma menina que diz que fuma porque quer viver pouco, não é bem isso o que ela diz, é mais ou menos isso, e manifesta em tudo seu autodestrutismo e ela é tão sozinha que é fácil eu me sensibilizar, é fácil eu pensar nela e querer muito chorar. Enquanto eu corro pelo Parque da Aclimação, eu, que nunca corri, e agora corro, e o relógio no meu pulso apita meu coração batendo cento e oitenta vezes por segundo, me parecem muitas vezes, isso, cento e oitenta, eu que ando de bicicleta, que uso camisetas de times de futebol e seleções estrangeiros e do Corinthians e da Portuguesa, com shortinhos, eu que tenho uma calça colada dessas para andar de bicicleta, eu que a uso, mas penso que um charuto seria legal e penso que meu coração bate cento e oitenta vezes por segundo enquanto eu corro e penso que quero correr uma maratona, mas a primeira pessoa que correu uma maratona, a pessoa que criou a ideia de uma maratona, ela morreu logo depois e eu queria fazer isso e corro, cento e oitenta vezes, e eu penso em formas alternativas de usar o tabaco (penso em vocês) e penso na menina e na forma como ela fala da vida dela, ela parece feliz, mas se machuca e eu que também sou feliz acho tão fácil pensar nela e ter vontade de chorar.
Eu acho lindas as outras pessoas, quem pode culpá-las, elas estão correndo ou andando porque querem viver mais e quem pode culpá-las, elas são ricas e moram ali perto e podem a qualquer momento encontrar um parceiro ali mesmo no parque, talvez seja também vegetariano (há 66% de chance de acertarmos) ou goste também das coisas de que nós gostamos, e então poderemos amá-los e viver para sempre, correr para sempre e talvez eu pense para sempre que uma menina que também é rica (digamos), que também poderia estar naquele parque, se morasse perto, que ela fuma para morrer mais cedo, parece o contrário do que eu estou fazendo ali, a cento e oitenta batimentos por segundo, mas é fácil pensar nisso e querer chorar. É tão fácil, na verdade, que eu pensar em mim como estrangeiro...

20121227

A verdade é que todos os males são crônicos
todas as doenças são hereditárias
todos os filhos são culpa dos pais
(mas os pais também são filhos)
e todo indivíduo é um problema social.

A bem da verdade,
dizer que não há culpados
é dizer que ninguém é inocente
e que ninguém pode apontar o dedo
e fechar os olhos.

Se quisermos ser realistas
então sejamos realistas
e encaremos a ausência de cura
(a ausência de esperança de cura)
e durmamos com isso!

Sejamos realistas e aceitemos
que todo esforço é um esforço vão
que toda luta é uma derrota anunciada
e que uma vida --- ainda que longa
ou ainda que breve --- é apenas uma vida.

Aceitemos isto, porque isto é tudo o que há
e tudo o que podemos alcançar neste mundo ---
só é digno de nota aquele que luta
sem nenhuma esperança de vencer
e que segue vivendo à revelia da morte

A verdade é que estamos no mesmo barco
e é um barco desgovernado
num rio grande demais.
Mas remamos, os que têm remos
em qualquer direção que contrarie a corrente.

20121207

Hoje, chamaram todo mundo da equipe. Nos juntaram em uma salinha e sentaram com a gente. Até o Daniel estava lá. Normalmente, o Daniel não vai a essas reuniões, mas hoje ele estava lá.
Nós optamos pelo desligamento da Renata. (said he.)
Desligamento: não demissão, mas desligamento, como uma eutanásia corporativa em que um sofrimento prolongado e pouco produtivo é evitado por meio da interrupção de uma vida que até então se sustentava artificialmente, por meio de aparelhos. À família, que somos nós, resta o conforto de que aquilo foi para o bem e de que será melhor assim, afinal, trata-se de um desligamento, um singelo deslizar para outra realidade: de funcionária para ex-funcionária.
Mais do que isso, é a promessa de que somente os pacientes terminais estão sujeitos a tratamento semelhante --- ou, melhor dizendo, a abandono semelhante de tratamento --- e de que nós, que somos a família, podemos continuar nossas vidas sadias e tranquilas (se bem que não muito, e menos ainda agora, com um a menos a dividir as chagas) sem que nossa produtividade seja afetada pelo ocorrido (inclusive porque a afetação da produtividade é uma doença, e já vemos a que a doença pode levar).
E no entanto, o silêncio pesou sobre todo mundo na sala (até sobre o Daniel); mesmo que todos estivéssemos cientes (não estou sendo irônico) de que a vida é assim e de que, se não podemos evitar abalos na saúde, também não podemos deixar que esse horizonte nos arraste precipidamente para a inação. Porque aparelhos e pessoas podem ser desligados e porque é melhor assim. (said she.)

20121128

Meta

Metalinguagem;
metacarpo.

Metamorfose.
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Metáfora.