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20140603

SPAM: para retomar (ou: se eu não falo sobre o que eu faço, quem falaria?)

(clique pra ver grande)


me emociona muito essa foto
(a original e a minha versão)
porque, no primeiro plano,
a moça demonstra pleno controle de sua imagem
e é uma coisa bela, assim
o peso da história da arte
e da moda
e mesmo dos olhares do dia-a-dia
e de saber que se está na beleza fácil
(branca, magra, face candidamente angulosa
maquiagem)
enfim
tudo daquele jeito mais lisonjeiro
uma foto que te deixa linda e desejável

mas, no outro plano revelado pelo espelho,
(segundo ou terceiro ou do lado de cá da imagem)
ela se faz banal
incongruentemente banal
banal daquele jeito que é o sexo de verdade
a bunda no chão, a pose estranha
o ângulo secamente frontal
a mão que supostamente acaricia também esconde
e não esconde como ela, a moça, esconde seu corpo atrás do cardigã
o esconder que sugere algo melhor que a imagem

por trás da mão só existe a certeza do sexo
um sexo comum
igual a qualquer outro
inalcançável em tão pouca definição




20131223

lorota fotográfica VIII


em minha pesquisa cinematográfica encontrei a ideia
de feição como algo feito
featurefatura

algo que se faz, algo que se mostra, algo que é destacado do mundo

encontro nesse jogo tolo de fotografia virtual
o centro de minhas preocupações

a feição que é algo feito
mas também é algo selecionado
retirado do mundo
(de um mundo FEITO, mediado visualmente de antemão)
não interessa a ninguém
mas acho isso tão bonito

20110625

A culpa e a impotência (notas sobre ser um homem, reação ao masculinismo)

Existe a parte fácil de ser um homem (em minúscula, sempre), que é estar no lado de dentro, em cima da mesa, armado com um rifle e uma espada e talvez até uma granada, e as pessoas não têm dúvida que o mundo tenha sido feito à sua imagem e semelhança, por nós, homens – nós, eles. Sem dúvida, não posso dizer que já fui discriminado, ao menos não seriamente, por ser um homem. Não preciso – eles não precisam, nós não precisamos – provar nada. A História é masculina.

* * *

Esta posição não foi conquistada por mim, nem por qualquer homem vivo hoje, e não me orgulho nada dela. Provavelmente estou enganado no meu paralelismo, mas me sinto como um filho de nazista que tem nojo do passado do pai e não sabe como lidar com sua dívida – culpa – histórica. Ser um homem, isto é, ter um pinto, significa o massacre constante e sem fim das mulheres, um peso demasiadamente enorme para alguém como eu, confuso como um ganso.

* * *

Um filho de nazistas que faz piada sobre o nazismo e se sente intensamente envergonhado por fazer parte dessa História.

* * *

Declaro-me culpado de partida. Herdo todos os erros e os torno meus.

* * *

Não acho que seja questão só de se garantir todos os direitos às mulheres, chega a ser patético termos que falar nesses termos. Às vezes tenho vontade de entregar tudo a elas – vocês –, tudo, e fugir, correr, correr, morrer. Todos os homens. Suicídio programado.

* * *

Desafio: como, sendo um homem, escrever as mulheres (e não sobre as mulheres)? Tê-las como sujeitos – verbais, sociais, líricos – mesmo que vistas pelos meus olhos treinados como os de um homem?

* * *

Acredito que há uma fenda entre os sexos, intransponível. A distância que me faz amar – como a fotografia.