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20110504

"in memoriam"

a um dos maiores artistas do séc XXI
para sempre vivo em meu coração

20101125

literatura celular

E aí, como se fosse de papel, ela se dobra sobre si mesma e murmura uma ideia numinosa.

Ele desliga o som, mas finge que não ouviu nada - talvez seja hora de dormir. Outros dias e outros faróis acesos podem ajudar a torcer a linha do horizonte.

Se ao menos fosse de papel couché! Ela insiste, já sem saber o que estava dizendo. Ele diz que ela pare, que aquilo já tinha sido muito bonito e não precisava de conclusão ou réplica.

Ela não entende como uma coisa assim tão bonita pode gerar silêncio. A beleza que ela empresta para o mundo é para fazê-lo girar. Ele não entende como um narrador pode saber ao mesmo tempo o que pensam dois personagens. O narrador está sempre preso do lado de cá ou de lá. Se ele finge estar dos dois é só porque não está chegando a lugar nenhum com o que estava do seu lado.

Faróis apagados. Ela se desdobra e olha para fora. A porta se abre e acende a luz interna do automóvel. Ela se vê no retrovisor e resolve que vai dormir ali hoje - que ele pode subir e dormir na cama dela se quiser mas ela mesma não vai a lugar nenhum e nem o carro e nem aquela luz que insistentemente mostra para ela que os anos não vêm sozinhos e que tudo que tinha passado não se repetiria e nem seria melhor.

20091126

Fastio

Ah, o cabelinho escuro e tão tristinho,
sobre os olhos todos verdes e chorosos,
sobre o nariz que aponta o chão e nessas
mangas longas dos teus braços nunca expostos;

e esse ar pra sempre encolhido,
esse jeitinho todo enfastiado,
e o vermelho escondido [sobre o branco, sob o verde]
que simulam um eterno resfriado...

Não! Não te cures, mocinha, que assim,
tão fraquinha, és muito mais bonita!
Tão abatida que não há quem de ti não cuide,
tão morrendo que te dariam a vida!

Não, não desiste desse corpo curvadinho,
desses olhos que tanta água vertem
e desse jeito de olhar, perdida,
para aqueles que por te olhar se perdem...