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20130614
20130116
parte 1: nosso protagonista vai à liberdade
Fui a um restaurante chinês na Liberdade, sozinho, em homenagem aos tempos na Bélgica, onde comia quase todos os dias noodles. Tenho saudades, especialmente, dos nouilles aux huit quelques choses, já me esqueci o nome do prato, mas o gosto ainda está aqui. Noodles fritos, noodles ensopados, que maravilha! É o que mais me faz falta.
Como sempre (aos fins de semana), o restaurante estava cheio, e a atendente me perguntou num sotaque intenso se eu aceitaria me sentar com outras pessoas, afinal, estava sozinho. Era almoço. Disse que sim, e me sentei, tentando passar despercebido. Era uma mesa de jovens (5 deles, mais ou menos da minha idade), o suficiente para encher a mesa redonda, mas não lotá-la. Pareciam haver se sentado havia pouco, apontavam para os cardápios e tentavam adivinhar o que as descrições dos pratos significavam, especialmente as que não tinham tradução ("Será que isso é cachorro?! Hahahaha!").
Peguei também meu menu e o encarei, sabia que queria nouilles sautées au canard, imaginava os patos assados nas vitrines e aquele frio úmido e as bolhas no meu pé e o tabaco enrolado e era isso que eu precisava. Sabia que aquele prato não existia ali, ainda assim o desejava intensamente. Folheei bem, um pouco desanimado, lembrando da tesoura que havia comprado pro meu pai na Ikesaki.
O grupo de minha mesa se cansou de brincar com o nome das coisas e começou a decidir seriamente o que escolheriam. Embora tendessem principalmente para os frutos do mar, o consenso não era fácil. Uma das meninas (só os vi com atenção quando ouvi sua voz, eram 3 homens e 2 mulheres, 3 moços e 2 moças, 3 meninos e 2 meninas) perguntou se alguém queria dividir os pãezinhos ao vapor recheados de lombo de porco.
Ninguém se animou.
Falei para mim mesmo que era bom, que esses pãezinhos eram muito bons. Por coincidência, ela perscrutava seus amigos naquele momento. Eu estava a sua frente, deve ter visto meus lábios se mexendo, talvez até me ouvido, não sei, achei que tinha falado baixinho.
Percebi que ela tinha me percebido e repeti em voz alta que os pãezinhos eram muito bons.
"Tu divide comigo?", perguntou.
isto é:
folhetim,
pornô de classe média,
ricardo miyada,
são paulo
20110427
Argumentos
(Lulina - Argumentos: http://letras.terra.com.br/lulina/1689758/)
isto é:
colorful translation,
GMS,
rosa de poluição,
são paulo
20101223
Parte 6 - A história do automóvel,
eu não sei. Sei que houve Henry Ford e pouco mais que isso, só. Mas eu sei, porque assisto aos desenhos animados, que o carro fez parte do sonho americano e de boa parte das propostas de felicidade e, particularmente, de liberdade anunciadas pela televisão nos últimos anos, correspondendo estes aos anos em que houve carro e em que houve televisão. O automóvel se transformou em um símbolo da felicidade consumista a ponto de estarmos fadados a cortar a parte superior de todas as cruzes do mundo e transformá-las em referências ao Ford T quando vivermos neste admirável mundo novo que tem criaturas tais, ele se tornou o mais poderoso exteriorizador do sucesso humano e, diz-se, um feromônio indispensável nos dias atuais. Junto com a motocicleta, o automóvel representou e representa a fuga, o desprendimento, a velocidade e o que quer que seja que os beatniks queriam dizer e eu acho tudo isso muito lindo, de verdade, mas todos os eus paulistanos foram lá e estragaram tudo.
isto é:
american dream,
carro,
GMS,
saga cidade,
são paulo
20101207
Parte 5 - Depois eu fiquei (chato) assim.
Foram, portanto, a consciência do distante e a inconsciência, também, que escondem essas canções todas, todas elas do exílio, todas elas sobre a palmeira e o sabiá e nunca sobre aquilo que doía, porque o que dói, agora, é essa falta infinita da palmeira e do sabiá, minha primeira visita ao sentir São Paulo, ainda que antes, muito antes eu já vivesse um saber a cidade que devo em grande parte ao namorar uma arquiteta ou urbanista potencial, alguém que olhava para os prédios e me dizia mais do que gosto ou não gosto. Mas saber não é sentir e foi só quando eu primeiro vi no céu a falta do cruzeiro, só quando eu primeiro sonhei numa língua que não era minha pátria e quando me faltaram o pão francês e a mortadela (esses dois que nem nossos são!) e um suco de laranja que prestasse, foi só então que eu senti além de saber, muito embora sentisse pouco e soubesse menos.
Foi lá, também, que eu aprendi a sentir uma cidade (assim, genericamente) ou a me sentir parte de uma cidade, que são conceitos parecidos, acho, embora nitidamente diferentes. E foi por isso que no final de 2009, quando eu voltei para casa finalmente em um dia chuvoso que não podia ser mais propício e fui a um restaurante com meu pai e meu irmão, embora eu não me lembre se era uma pizzaria ou um restaurante japonês e minha memória cisme em fingir que era uma lanchonete, foi por isso que neste dia específico eu já tinha o plano de contrariar toda a minha saudade e todo o meu ufanismo e incorporar à minha recém retomada vida paulistana o elemento máximo de minha vida pregressa inglesa, ou seja, uma bicicleta.
O plano era ousado, para dizer o mínimo: envolvia não apenas desembolsar uma quantia relevante em um objeto que aumentaria meus riscos diários consideravelmente, mas também fazê-lo insensatamente, investindo não em um equipamento urbano, mas em uma bicicleta sem marchas ou freio nas mãos, desenhada para andar na praia ou nos asfaltos planos e bem cuidados da Europa que eu fingia negar. Dava, assim, a impressão de ser como aqueles mesmos arquitetos que, trazendo as idéias de fora, deixam nossa cidade tão pouco nossa ou como, sei lá, a Cow Parade de que tanto reclamam aqueles que clamam por um intervencionismo urbano mais paulistano, esquecendo-se, talvez, de que São Paulo é farta em sua própria linguagem de rua, nas pontas de suas pixações ou no preto de seus grafites e de que é absolutamente coerente ao espírito de Sampa trazer de fora tudo quanto pudermos, sem maiores pudores.
Seja como for, a idéia tinha algumas justificativas à época e há outras que eu poderia citar agora sem grandes receios, apesar de claramente terem sido criadas a posteriori, para explicar a decisão somente depois de tomada. Em primeiro lugar, no que diz respeito à inadequação de uma bicicleta caiçara, pesada e de guidão alto às ladeiras e ao asfalto truncado de nossas ruas, eu me defendia, então, com a desculpa prática de que eu não pretendia me aventurar para além das fronteiras do meu bairro e que, portanto, a questão era de menor relevância, devendo prevalecer o conforto maior que uma bicicleta dessas propicia nos passeios breves, em que a coluna ereta nos cai bem (embora eu posteriormente fosse descobrir que esta postura sentada seja, na verdade, danosa à coluna). Hoje, porém, todos podem ver que eu faço — e a verdade é que eu já então sabia que faria — percursos longos de dez, quinze quilômetros, às vezes tendo que descer uma via rápida como a Sena Madureira (rápida para uma bicicleta, vejam) ou tendo que subir o Everest que é uma Bela Cintra ou uma Brigadeiro Luís Antônio, tendo que brigar com os ônibus da Paulista, Vergueiro ou Joaquim Floriano, tendo que me apertar entre os carros da Lins e da Francisco Cruz, enfim, tendo que fazer tudo aquilo que uma bicicleta caiçara sem marcha e com freios nos pés não nasceu para fazer. Aos que levantam estes argumentos, eu talvez não tivesse resposta na época, mas agora eu diria que comprar uma bicicleta nunca foi uma questão de adequação e que, se eu quisesse andar em São Paulo com um veículo para o qual São Paulo foi feita, eu não teria opção ao carro, e que andar de bicicleta é tanto uma decisão pessoal quanto uma forma de ativismo, porque não se anda de bicicleta em uma cidade como São Paulo sem se estar protestando contra nosso trânsito, nossa visão motorizada de como o mundo deve ser etc. Assim, uma bicicleta inadequada me parece tão propícia quanto qualquer outra, se não for mais, me forçando, a cada buraco no asfalto, a cada trecho em que tenho que dividir a faixa com motoristas ignorantes, a lembrar que estou em São Paulo e que são esses alguns dos problemas da minha cidade. Mas também não é minha intensão fazer panfletismo aqui e é por isso que corro logo para minha última consideração a respeito da minha escolha cíclica, ou seja, a opção por uma bicicleta com freio no pé, o freio “contra pedal”, ao invés dos tradicionais v-brakes, na mão, que são o que mais se vê na bicicletas que teimam em circular por nossas vias hostis. Essa é, na verdade, a questão mais relevante dentre todas essas observações tediosas sobre bicicletas, porque ela envolve o entendimento da diferença principal entre andar de bicicleta e andar de carro, ao menos do ponto de vista desse texto, isto é, de sentir a cidade: andar de bicicleta é como andar a pé (só que mais rápido), é poder fazer qualquer caminho, poder parar e olhar uma árvore florida etc, ao contrário de um carro em que se entra e se sai do mundo; uma bicicleta é uma extensão de você, não algo externo como um carro e, da mesma forma, estar em uma bicicleta é como não estar, é seu corpo que roça os carros, quando a manobra não é rápida o bastante, é em seu peito que bate o vento e é sua cara que se dá a tapa.
E é mais ou menos por isso que comprar uma bicicleta foi meu segundo avanço no meu processo de internalização da cidade em mim ou de mim na cidade ou internacionalização nenhuma de nada em lugar nenhum, somente uma sensação de sentir que, francamente, já me basta.
20101122
20101118
Parte 1 - O cenário
São Paulo é feita de toneladas e toneladas de carne, ferro e concreto. Cada porçãozinha disso não é uma célula, como exigiria a metáfora, não é um pedaço do todo, são todos eus, eus, eus. Por isso a cidade é tão grande e horrível, porque cada prédio é eu, cada muro é eu e todos os eus se fecham dos outros, se escondem, se expõem enquanto eus.
São Paulo tem muros demais e eles falam. Não são as buzinas, não são os motores nem os gritos, não são as risadas que ainda hoje se ouve, são os muros que falam por São Paulo. É o concreto liso que escurece impotente quando as motos zunem, é o tijolo exposto sob a tinta seca que envelhece com a gente, que se repinta porque mente, em que mijam os cães e os bêbados, em que se apóiam as velhinhas e os que esperam o ônibus, tudo isso é grito. Como é grito os desenhos, uns mais bonitos que tudo, outros assim como sujeiras de letras de pontas agudas anunciando amores e ódios.
São Paulo tem carros demais e eles não andam. Os fluxos são orgânicos, os caminhos são os mesmos, os destinos também. Em São Paulo, é assim: o destino ou é Centro ou é Bairro. E sempre demora.
São Paulo tem gente demais e, falem o que falarem, humanidade demais, também. A cidade tolera todo mundo, pena que até os intolerantes. Gente, tem de monte; às vezes, falta gentileza.
São Paulo tem comidas demais e elas vêm de toda parte. E elas ficam por aqui, crescem, se misturam como tudo se mistura em São Paulo, como receitas que nascem e morrem umas nas outras e de que nos orgulhamos como nos envergonhamos de nossa fome, que São Paulo também tem demais.
São Paulo tem males demais e eles são tão nossos quanto o resto. Outras cidades também têm seus problemas, seus Godzilas, suas invasões alienígenas, suas invasões por nazistas, suas invasões por turistas sexuais, suas invasões por ladrões de bicicletas, seus pervertidos no metrô ou o que quer que seja que as outras cidades têm, mas a gente tem nossa pequenez imensa, nossa fartura de miséria, nosso individualismo coletivo, nosso orgulho vira-lata, enfim, nossos oximoros maleducados.
São Paulo tem mais coisas, também, mas são coisas demais.
isto é:
amor platônico,
GMS,
narrativa descritiva,
saga cidade,
são paulo
20101111
São Paulo para os paulistas
Existe esse movimento aí (nem sabia, mas era de se supor): São Paulo para os paulistas. Faz sentido.
São Paulo começou com padres importados de Portugal. Enriqueceu com trabalhadores manufaturados na Itália e até hoje nossa comida mais típica, aquela de que de fato nos orgulhamos, é a pizza. Depois, trouxemos japoneses, árabes... E fomos nos construindo, em muito, com braços do nordeste.
Se alguém me perguntar como reconhecer um paulista entre outros brasileiros, vou ter que dizer: procura alguém em um grupo impossível de pessoas cuja única semelhança seja a diferença. Isso aí que é ser paulista. A xenofobia e o preconceito são impraticáveis em São Paulo. Quem os pratica, portanto, não pode ser daqui (mesmo que seja).
Eu amo São Paulo. Mais do que dá pra entender. E eu quero que ela seja dos paulistas.
E por "paulista", eu entendo todo mundo.
São Paulo começou com padres importados de Portugal. Enriqueceu com trabalhadores manufaturados na Itália e até hoje nossa comida mais típica, aquela de que de fato nos orgulhamos, é a pizza. Depois, trouxemos japoneses, árabes... E fomos nos construindo, em muito, com braços do nordeste.
Se alguém me perguntar como reconhecer um paulista entre outros brasileiros, vou ter que dizer: procura alguém em um grupo impossível de pessoas cuja única semelhança seja a diferença. Isso aí que é ser paulista. A xenofobia e o preconceito são impraticáveis em São Paulo. Quem os pratica, portanto, não pode ser daqui (mesmo que seja).
Eu amo São Paulo. Mais do que dá pra entender. E eu quero que ela seja dos paulistas.
E por "paulista", eu entendo todo mundo.
20100825
Na Câmara Federal, uma longa discussão
O sr. Eloy Chaves - Devia e era conveniente que no momento (o requerimento) fosse rejeitado.
O sr. Adolfo Bergamini - Como o foi.
O sr. Raul de Faria - Inconveniente por quê?
O sr. Eloy Chaves - (...) porque toda e qualquer discussão perturbaria os acontecimentos.
O sr. Adolfo Bergamini - Ora, essa! Então o estudo em torno da moléstia prejudica o doente?
O sr. Carvalhal Pinto - A exploração prejudicaria.
O sr. Hugo Napoleão - 3.005!
O sr. Adolfo Bergamini - De modo que só os benefícios são particulares de São Paulo e os malefícios são gerais, do resto do país.
O sr. Eloy Chaves - Os benefícios não são só de São Paulo, mas do Brasil inteiro.
O sr. Raul de Faria - Os sacrifícios são da nação inteira.
O sr. Adolfo Bergamini - Foi o preço eleitoral do café, fixado pela política paulista, que determinou esse fracasso, esse erro, pelo qual estão pagando quarenta milhões de brasileiros.
O sr. Eloy Chaves - Pagando em quê? No beiço?
O sr. Adolfo Bergamini - Não, na algibeira.
O sr. Eloy Chaves - Só o povo de São Paulo tem suportado o sacrifício.
O sr. Adolfo Bergamini - Não apoiado; são quarenta milhões de almas que sofrem os desmandos políticos de uma oligarquia nefasta.
O sr. Presidente - Atenção! Peço aos nobres deputados que permitam ao orador prosseguir em suas considerações.
O sr. Manoel Villaboim - A prosperidade de São Paulo é que dói aos apartistas...
O sr. Adolfo Bergamini - A prosperidade de São Paulo causa orgulho a todos nós...
O sr. Eloy Chaves - Mas não parece, às vezes.
O sr. Bergamini - ... como causará a do Amazonas, a de Minas ou a de qualquer outro Estado, porque todos somos brasileiros. Por isso mesmo é que dóem, nos acabrunham, os inconvenientes e malefícios decorrentes de uma política que se acha em contradição com o sentimento nacional.
O sr. Eloy Chaves - Essa política é a de V. Excia., não a de São Paulo, que trabalha e produz.
O sr. Bergamini - É a de São Paulo, que trabalha e produz, mas tem em seu seio uma oligarquia que contraria os sentimentos dos próprios paulistas.
O sr. Joviniano de Castro - V. Excia. é apaixonado (Soam os tímpanos).
O sr. Presidente - Atenção! Está com a palavra o sr. José Bonifácio.
O sr. Villaboim - Se há essa oligarquia, ela é constituída por verdadeiros brasileiros amantes de sua pátria.
O sr. Raul de Faria - A verdade é que todos os Estados trabalham e produzem, na medida de suas forças.
O sr. Cardoso sde Almeida - São Paulo sacrifica-se em benefício de todos os outros Estados. (Não apoiados veementes da minoria; o sr. Presidente pede atenção.) Tem contraído todos os empréstimos com sacrifício, ao passo que Minas nada faz na defesa do café.
O sr. Raul de Faria - Não apoiado. As sugestões de Minas não foram sequer consideradas para adotar-se política errônea.
O sr. Américo Barreto - Minas não faz o menor sacrifício. (Continua a troca de apartes, estabelecendo-se o tumulto. O sr. Presidente faz soar os tímpanos, pedindo reiteradamente atenção.)
20100304
20090507
boniteza




- Quero ver se segunda-feira vai ter mais emprego!
- É tudo mentira.
- Gasta o dinheiro que podia o aluguel.
[...]
- Veja que beleza, em diversas cores.
- Veja que beleza, em vários sabores.
- A burrice está na mesa.
[...]
- Tem três opções.
- Hum.
- Ou a gente se vê toda semana, ou a gente não se vê mais, ou a gente tem também umas aventuras.
- A terceira.
- Oi?
- As aventuras.
- Eu não quero aventuras.
- Então?
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