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20130911

Projeto pro fim dos tempos: o último filme



o último filme a ser feito no mundo deveria ser uma compilação de todas as citações – feitas em filme, é claro – a respeito da morte do cinema.

acho que, se resolvêssemos matá-lo agora, já teríamos material suficiente para uma coletânea considerável de hipóteses, declarações, preconizações, anúncios, apontamentos, exigências e etc. de como poderia ser feito. mas digamos que alguém decida esperar mais um pouco. daqui a alguns anos ou décadas, quando o cinema se converter realmente em “arte” (de museu). ou melhor: quando não se produzirem mais filmes. não imagens, mas filmes.

quando não parecer mais possível que alguém se declare um realizador cinematográfico – ou mesmo que tenha com o cinema alguma relação que não a de arquivista ou espectador - alguma alma esforçada e nostálgica poderá se debruçar sobre tudo aquilo e começar os trabalhos do derradeiro filme.

e, no entanto, um processo e tanto se iniciaria.

uma vez compiladas todas as mortes anunciadas, este único trabalho do último realizador cinematográfico estaria pronto.
e ele o assistiria do começo ao fim. “está lá!”, diria, e se prepararia para encerrar o cinema de uma vez por todas.
e pode ser que tudo se passasse dessa maneira: pronto, e fim.
mas pode ser que lhe ocorresse: não seria este último trabalho, justamente, um filme sobre a morte do cinema?

e o realizador perceberia que seria necessário acrescentar mais essa obra ao rol de sentenças, na última posição, logo antes dos créditos.

mas, uma vez isso feito, seria preciso repetir a ação de novo. e de novo. e de novo. e de novo. e de novo. e de novo. e de novo. nosso realizador, já arrependido do desejo de botar um ponto final na história do filme, não teria opção: continuaria a inserir seu penúltimo corte final em seu último corte final, sucessivamente.


e daí que nosso filme sobre a morte do cinema seria, no fim das contas, o maior filme do mundo: seria o único filme verdadeiramente interminável.

20110614

vencedores

MAS AFINAL, QUEM VENCEU O CARNAVAL DE 1937?


- jorge mourão, que inventou o terceiro lugar em pódios
- o povo romanche, finalmente livre do imperialismo subcutâneo
- todos aqueles que já imaginaram como seriam mais felizes caso suas mãos fossem grandes o suficiente para agarrar adequadamente os órgãos erógenos de seus parceiros
- o herói anônimo que descobriu a facilidade humana para abstrair mentalmente as doenças sexualmente transmissíveis
- marina messalina, a heroína de nome improvável que previniu a guerra do golfo 53 anos antes que ela se tornasse necessária, usando apenas a sua prodigiosa habilidade para a dança do frevo e seus olhos enigmáticos de protagonista de romance romântico cujos lábios derretem generais e cujas pernas enfeitiçam bruxas até que elas se tornem porcos que só sabem gemer feito poças
- o desejo (abstrato) de venerar os céus frios absurdos para essa época do ano, um desejo sem raízes ou razões, baseado apenas em um certo (e ultrapassado) éter inexplicável que inebriava certas cabeças e certos olhos ao ponto do torpor zumbi daqueles que passam os dias admirando as nuvens sem expressão e encontram nisso prazer inigualável
- os unidos dos samurais sem pé, esquecidos para sempre após 1939, mas por alguns instantes tão importantes quanto o papa, imponentes estátuas sem chão
- você, marcela, que me escapou como um pedaço de mentira escapa a um louco, enganando a quem se engana por hábito, e me deixou num labirinto sem nome dentro do qual eu grito que estou bem.

20100628

Argumento de pássaros.

Montanha de ovos onde uma velha banda de pássaros. A visão dura menos de um segundo no ocaso; não se contam os pássaros que vi. Era definido ou indefinido o número ao sul? É o problema do invólucro de Dois. Se Dois existem, o número é definido, porque se contam Dois pássaros que vi. Se Dois não existem, o número é indefinido, porque nado para lavar as contas. Em tal caso, vi menos de dez pássaros (digamos) onde um era mal; cachorros, não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três dos pássaros. Vi um número entre dez onde um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etcétera. Esse número num enterro inconcebível, me levanto, Dois existem.

[Jorge Luís Borges, "O Ás de Ouros", 1960]

20100222

Reflexão-rocambole matinal

O que me interessou nesses três contos do Borges que eu li na vida foi essa alma de seminarista rebelado (meio como se o Scorsese fizesse ensaios cinematográficos). Os histriônicos, no fim das contas, talvez não sejam hereges, já que Deus toma João e Aureliano como, digamos, reflexos no Espelho. A trabalhar-se, esse espelho.

Vou tomar o Я e o R ('ya' e 'rr'), o primeiro sendo o mais simples "Eu" (em russo e, foneticamente, também um 'Sim', em alemão) e o segundo algo talvez ainda mais simples, um rosnado neolítico ou de um cachorro. Se alguém conhecer alguma partícula de alguma língua que seja constituída simplesmente por esse fonema ('rr'), gostaria de saber.

Podemos levarmos em conta que Я está presente em яблоко ('maçã'), a fruta da perdição. Com boa vontade, pode-se perceber que Яблоко é formada por Я [eu] + Ьлок [bloco] (о) [o 'o' final dando à palavra um caráter ao mesmo tempo neutro, de substantivo - sendo portanto a maçã, enquanto substantivo, a materialização do conceito - e adverbial, a modo de...]. A soma é fácil, e o resultado surpreendente: qual é a primeira conseqüência da mordida que Eva dá? A percepção de que ambos estão nus - passam a olhar para si próprios - e envergonham-se.

Não conheço as origens que levaram a formação das letras Я e R, mas seria decepcionante descobri-las apenas um acaso de convergência, como me ensinaram serem os golfinhos em relação aos demais peixes. Também não pensei muito sobre o "rosnado" ('rr'), ou até pensei, mas não me agradou a primeira ideia que vem à cabeça, por me parecer muito simplista e antropocêntrica: em oposição aos "Eus" (que se perceberam como 'Eus' após comerem do 'bloco de Eus', da 'matéria que contém todos os Eus'), os ainda selvagens a la 2001. Oras, mas será que os selvagens a la 2001 não se reconheciam como eles mesmos?

E há também a questão da ordem.
ЯR ou RЯ? Acho que a diferença é significativa demais para passar desapercebida.

20090413

Eu tinha vinte e cinco anos

e estava elaborando uma tese de mestrado em Letras com um professor especializado em línguas mortas do sul da Ásia de forma que foi por acaso que eu fui parar nas escavações dos templos cambojanos. Eu não sabia muito bem o que aquilo podia ter a ver com minha monografia até que descemos do aeroporto e ouvimos as explicações em inglês afetado e vimos um dos antropologistas correndo com uma foto de uma das paredes desenterradas, em que estava escrito em letras de pedra semi-desgastada, mas ainda nítida:

AOS SÁBADOS, FORRÓ UNIVERSITÁRIO

Nós dois, eu e o professor, ficamos olhando abismados, enquanto procurávamos uma explicação indizível para um povo de cinco mil anos atrás do Camboja escrevendo uma frase que nos parecia claro e inequívoco português. Passamos lá cinco anos até descobrir nosso erro.
Somente depois de acharmos centenas de fragmentos de textos, percebemos que não havia lá, na verdade, uma única palavra em português e por isso é que aquilo era tão importante e bonito, porque se tratava de uma língua totalmente diferente e alheia ao nosso entendimento, que, no entanto, tinha as mesmas combinações de letras que o português. Não sei que acaso absurdo levara àquilo, mas cada palavra escrita por aquele povo coincidia com palavras de nosso vernáculo sem que as línguas se confundissem: embora escritas iguais, as palavras tinham significados totalmente distintos.
Deus, que trabalhoso perceber isso! Quanto ainda não aumentou nosso assombro! De todas as infinitas combinações de infinitos possíveis símbolos, como duas histórias e dois povos e duas realidades poderiam levar a escolhas iguais? E por que diante do assombro dessa coincidência nos espantava que fossem somente os desenhos que se igualavam, quando na verdade os significados de cada palavra eram totalmente diferentes? Escreviam “bicicleta” e significavam “terremoto”; escreviam “geografia” e significavam uma espécie de condição climática para a qual sequer temos uma palavra.
Imagino que o ocorrido torne prescindíveis explicações quanto à minha dedicação integral, pelos quarenta e três anos que se seguiram, ao estudo dessa enigmática língua. Foram quarenta e três anos em que abandonei meu país e minha família, em que me esqueci dos planos que tinha e em que passei cada dia assombrado e admirado. E foram quarenta e três anos que me valeram para, enfim, dominar completamente a língua falada por aquele povo.
Prova disso é agora eu adotá-la para redigir esse texto.