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20131204
20130620
no pátio, há alguns anos:
todas as segundas-feiras antes da aula, cantávamos o hino nacional e o hino da escola
isso era no colégio pentágono
até o fim da quarta série - acho
quando eu digo "cantar", quero dizer: ficávamos de pé no pátio às sete da manhã enquanto hasteavam a bandeira e uma caixa de som tosca e potente tocava os hinos
devíamos respeitar o hino nacional e, preferencialmente, dançar junto ao da escola
acho que ninguém cantava de verdade nada, mas acontecia toda semana
* * *
não sei o que aconteceu, provavelmente alguém fez uma gracinha desrespeitosa junto ao hino
ou então apenas perceberam que ninguém sabia o hino
seja como for, a professora e a diretora (ou coordenadora) vieram na aula imediatamente posterior ao hino, bravas, para dar bronca na gente
"o hino nacional é importantíssimo, é motivo de orgulho
vocês precisam saber o hino, cantar o hino, é um absurdo que vocês não saibam nem a letra do seu próprio hino!"
* * *
aí a diretora ou a professora ou a coordenadora me interpelou
(eu era o aluno ideal. nunca fui especialmente bem comportado, mas ia muito bem em todas as matérias e acho que não era muito malvado com meus colegas)
ela falou algo como "você sabe o hino, não sabe?"
ela queria me usar como exemplo positivo para a turma
acho que eu disse que sabia.
era mentira.
nunca soube o hino. sempre tudo me soou absurdo (a letra, a solenidade, o nacionalismo)
mas eu disse que sabia.
* * *
queria ter dito que não sabia, mas eu menti.
não sei o hino. sei que demorou muito, mas muito mesmo, pra que algum professor abordasse o hino criticamente em aula.
e, quando falo em "criticamente", não falo apenas politicamente
mas formalmente, estilisticamente, socialmente, simbolicamente
* * *
a escola não nos ensina a falar a verdade.
isso era no colégio pentágono
até o fim da quarta série - acho
quando eu digo "cantar", quero dizer: ficávamos de pé no pátio às sete da manhã enquanto hasteavam a bandeira e uma caixa de som tosca e potente tocava os hinos
devíamos respeitar o hino nacional e, preferencialmente, dançar junto ao da escola
acho que ninguém cantava de verdade nada, mas acontecia toda semana
* * *
não sei o que aconteceu, provavelmente alguém fez uma gracinha desrespeitosa junto ao hino
ou então apenas perceberam que ninguém sabia o hino
seja como for, a professora e a diretora (ou coordenadora) vieram na aula imediatamente posterior ao hino, bravas, para dar bronca na gente
"o hino nacional é importantíssimo, é motivo de orgulho
vocês precisam saber o hino, cantar o hino, é um absurdo que vocês não saibam nem a letra do seu próprio hino!"
* * *
aí a diretora ou a professora ou a coordenadora me interpelou
(eu era o aluno ideal. nunca fui especialmente bem comportado, mas ia muito bem em todas as matérias e acho que não era muito malvado com meus colegas)
ela falou algo como "você sabe o hino, não sabe?"
ela queria me usar como exemplo positivo para a turma
acho que eu disse que sabia.
era mentira.
nunca soube o hino. sempre tudo me soou absurdo (a letra, a solenidade, o nacionalismo)
mas eu disse que sabia.
* * *
queria ter dito que não sabia, mas eu menti.
não sei o hino. sei que demorou muito, mas muito mesmo, pra que algum professor abordasse o hino criticamente em aula.
e, quando falo em "criticamente", não falo apenas politicamente
mas formalmente, estilisticamente, socialmente, simbolicamente
* * *
a escola não nos ensina a falar a verdade.
20121126
Ao longo de uma música
-->
É
quando me bate a saudade das coisas que eu deixei de ser pelo
caminho. Quando me pego sentado com a postura errada, olhando para a
tela do computador sem realmente enxergar as palavras e ouvindo no
fone o Gilberto Gil cantando sua versão do Bob Marley e eu me
lembro, é claro, daqueles dias na praia (quinze anos, salvo engano)
e daqueles meninos mais velhos (adultos, portanto) com o violão.
Eram
os únicos momentos em que eu conseguia ficar quieto (nesse sentido,
não mudei nada: sempre imensamente afetado pela hostilidade de um
ambiente e igualmente por sua receptividade), olhando a rebentação
e as meninas perto da fogueira, algumas de biquíni, ainda. Havíamos
passado a noite inteira zanzando pelo Centrinho, tomando sorvete e
mudando ocasionalmente de lugar para ver as meninas passando. Era
mais ou menos a isso que se resumiam minhas férias, imaginem só. E
eu diria que valeu a pena se pelo menos conseguisse me lembrar de
qualquer uma delas. Enfim. De qualquer forma, só as via passando,
mesmo, e então comíamos qualquer coisa e nossas amigas (que também
víamos só de passagem) nos chamavam para mais perto do mar.
Um
dia, choveu muito e a água passou sem tomar conhecimento do teto de
um dos quartos, molhando completamente alguns dos colchões. Os
adultos evidentemente não perderiam suas camas, então seríamos
forçados a espalhar os colchões restantes no chão e dormirmos
todos juntos. Éramos três meninos e duas meninas, ambas um pouco
mais novas e absolutamente maravilhosas. Isso foi logo na hora do
almoço, então nós três passamos o dia inteiro sem conseguir
pensar em qualquer outra coisa. A todo momento, discutíamos como
seria estarmos tão perto das meninas; os assuntos que
inevitavelmente surgiriam; as vontades que elas certamente já
sentiam e reprimiam, mas que, no ambiente propício, floresceriam; e,
principalmente, quem de nós seria o desafortunado que ficaria de
lado, sozinho, perdido. Ensaiamos movimentos, frases, formas de
sussurrar. Não posso dizer quanto aos outros, mas pessoalmente, me
apavorava pensar na possibilidade de chutar alguém, roncar ou peidar
durante o sono.
À
noite, repetimos o teatro de sempre: o Centrinho, as mudanças de
mesa --- mas já nem ligávamos para quem passava, exceção feita ao
tempo.
Eventualmente,
as duas vieram e nos chamaram para ir à praia e, conforme havíamos
deliberado previamente, acatamos e as seguimos, tendo sido vetada,
por ser considerada suspeita, a ideia de negarmos o luau, propondo em
seu lugar um jogo de baralho que antecipasse nosso grande momento de
trunfo e glória.
Assim
foi que sentamos na areia como se aquele fosse um dia absolutamente
comum e olhamos a rebentação e ouvimos a música, enquanto nos
perguntávamos aos cochichos se já não era tarde, se já não
podíamos organizar a volta à casa. E estávamos nessa quando vimos
dois rapazes deitarem o violão e sentarem do lado das meninas e
conversarem com elas. Como se a gente não estivesse ali!
Eventualmente,
acabamos desistindo de olhar pra escuridão fingindo indiferença e
voltamos pra casa. Jogamos nós o baralho e esperamos até cairmos de
sono sozinhos nos tais colchões.
Quando
acordamos, elas estavam lá, com a gente. Mas aí já não adiantava
mais.
Será
que eu suportaria aquilo, hoje? Aquela conversa, aquelas piadas sobre
a homossexualidade alheia e sobre a genitália própria? Certamente
ainda gosto da areia e do mar, ainda pego caranguejos, quando posso,
mas ouvir Natiruts mal interpretado à meia noite no litoral norte...
É bem
provável que eu esteja melhor com a postura torta e as palavras no
monitor. Mas...
Mas
era uma possibilidade, não era? Mesmo agora, se eu repassar tudo o
que aconteceu desde então, acho que nem consigo identificar
exatamente quando foi que aquilo virou um absurdo. E também não dá
pra dizer que não sejam absurdos este agora, esta camisa, estes
sapatos.
Quando
vim trabalhar no banco, lembrei imediatamente de dois ex-colegas de
faculdade que eu sabia (ou suspeitava) que trabalhavam aqui. Já nas
entrevistas, perguntei ao meu (então potencial) futuro chefe se os
conhecia, mas ele nunca havia ouvido falar em nenhum dos dois. Dei de
ombros, que o banco é grande, cheio de pessoas e departamentos e
tudo o mais. Nenhum motivo para me admirar, evidentemente.
Mas
num outro dia, já contratado, flagrei-lhes os nomes sendo
mencionados numa conversa. Investiguei um pouco e matei a charada: os
dois eram empregados, sim, mas não do banco em si, e sim de outra
pessoa jurídica do mesmo grupo econômico: trabalhavam para um outro
banco, focado em investimentos de grandes pessoas jurídicas, que foi
adquirido pelo conglomerado mas manteve seus funcionários, incluindo
o corpo jurídico.
Cavando
um pouco mais, descobri o e-mail dos dois, e mandei minhas saudações.
Eles responderam, me parabenizando pela contratação e desejando
sorte, mas depois disso nunca mais nos falamos.
Passados
sete meses, o funcionamento do banco começou a fazer mais sentido
para mim, assim como se evidenciaram as relações entre
departamentos, as disputas por orçamento e as rixas internas. Embora
não houvesse hierarquia formal entre as diretorias, comecei a
perceber que determinadas áreas gozavam de certos privilégios,
sempre proporcionais aos lucros que elas rendiam para nossos
acionistas.
O
setor com o pessoal que geria os fundos tinha a melhor vista do
prédio. Os gerentes dos clientes milionários tinha, nos e-mails,
uma assinatura mais personalizada e, na copa, bolachas Calipso, ao
invés das de água-e-sal. Meus colegas que lidam com clientes
internacionais receberam computadores novos. Mas ninguém dava tanto
dinheiro para o banco quanto as grandes pessoas jurídicas e suas
emissões de debêntures, seus IPOs, seus M'n'As, suas operações de
câmbio gerando milhões no float.
Então,
nem os gestores de fundos, nem o pessoal que lidava com socialites,
nem o pessoal do internacional, com suas conference-calls em línguas
sortidas --- nenhum deles se comparava à equipe dos meus dois
amigos. Eram eles que nos exigiam os prazos mais curtos e que mais
nos condenavam por perdê-los. Eram eles que determinavam, com voto
de Minerva, as datas e horários das reuniões. O banco de
investimento era o panteão dentro do conglomerado, e lá só havia
deuses.
Ah,
como eu fui inocente, mandando aquele primeiro e-mail! Eu imagino a
cara deles, ao recebê-lo. O ex-coleguinha de classe que arrumou uma
vaga na cozinha e vem se gabar aos passageiros do cruzeiro. Eu
imagino na cara deles o misto de divertimento e pena com que viram a
animação com que eu relatava minha contratação e os imagino
lançando um para o outro um olhar cúmplice.
Será
que daqui a alguns anos, também vou me lembrar e... Bom, pior seria
não lembrar. De todo modo, é o próprio Gil quem me conforta e diz
que tudo-tudo-tudo vai dar pé.
20110911
O Jogo de Cartas
isto é:
cartas,
fotografia,
H.Chiurciu,
ilustração,
memórias,
morangos,
Paris,
vida
20100510
PIRULITO é o melhor doce que há.
Eu era pequeno quando, estando em viagem à Portugal, visitamos um abrigo de velhinhos (eu mais meu irmão). Era coisa de fazer visita a algum amigo antigo de nossos avós que lá estava internado, não lembro bem - tenho a impressão, contudo, que foi ao falar da visita a ser feita ao tal amigo que eu ouvi de minha avó pela primeiríssima vez a expressão "dormir com as galinhas". Tenho também na memória a sensação de desconforto que se aportava em mim nessas visitas, sinal, analiso hoje, dos tempos finais da infância que se aproximavam (outro seria minha discussão algo acalorada em defesa de uma escultura abstrata, em prol de um conceito ainda incerto de "arte"). Mais forte que todas essas lembranças, até mesmo mais forte do que o cheiro de velhice que tinha o lugar, fica a de uma senhora (alheia, se não me engano, ao círculo de minha família) muito simpática que nos achava muito educados e nos dava pirulitos de cereja.
Eis: aquele sabor de cereja que não era o mesmo dos confeitos brasileiros, um sabor do qual me lembro muito bem e ao qual associo, muito mais que ao dito "sabor de infância", à experiência de visitar uma terra estrangeira. Algo de aventura, quem sabe, esse lançar-se num desconhecido vertiginoso, omnipresente - embriagante, até. É certo que eu estava, na ocasião daquela viagem, bem escorado pelos meus avós, e também em terra isófona (mas por pouco que não, diga-se de passagem). Não sei se isso importava muito.
Lembro-me de bem poucas coisas daquela viagem; das histórias mais famosas, como o "incidente da sopa de agrião" ou de quando eu sumi da vista de meus avós em uma pequena aldeia e reapareci munido de um graveto, riscando o chão com gestos até hoje imitados pela minha avó quando ela narra a ocasião, trago lembranças vagas de que ocorreram - às vezes, tão isenta de detalhes que fica a suspeita de que me lembro apenas de ouvir-contar.
Sobreviveu na minha cabeça aquele sabor artificial de cereja.
É cada coisa idiota que a gente repara quando é criança...
20090515
O Jogo de Cartas
Não há regras do jogo. Comemos morangos nos arredores de Paris, sentados na grama quase sempre nus e ao sol, até que a mais novinha – Joaquina, eu acho – se punha a correr pelo campo com ramas de morango presas debaixo dos braços. Os homens iam atrás, tentando apanhar os moranguinhos das ramas com os dentes, enquanto que as moças se instalavam em determinados lugares e tentavam nos acertar com cascalhos, seixos ou bolotas de carvalho, se fosse época de bolotas de carvalho.Eram estes os bons tempos, Gabrielle.-Haia, 9 de Agosto, 1923
isto é:
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H.Chiurciu,
memórias,
Paris,
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