20110711

meta nº1

O exercício de explicar alguma coisa – dar-lhe uma causa – consiste em escolher um motivo hipotético, dentre vários possíveis, e elaborá-lo. Às vezes isso acaba por revelar, mais do que o motivo da coisa qualquer, algo de substancial sobre o próprio “agente causador”.


Pensando em por que não escrevo “literatura” - muito embora o quisesse sinceramente - cheguei a conclusão de que me falta matéria. Não que não viva, tampouco que não habite o mundo; parece-me, no entanto, que não vivo em nenhum lugar. Ou melhor, que vivo em um solo vazio, em um não-lugar. Não possuo o Sertão de Guimarães nem o EUA de Faulkner: não possuo a cidade onde resido, São Paulo.


Livrar-me de culpa seria injusto: não percorri minha cidade com lupa, atentando aos costumes, a fala, ao pensamento. Mas, também, quem percorreu? São Paulo, parece-me, é uma grande massa amorfa. É gigante, de tamanho tal que não permite mesmo qualquer resolução, nem qualquer pesquisa. Seu gigantismo é um misto de pluralismo – ao que atentam os otimistas – com algo de inautenticidade. Nós, os paulistanos – e aqui me contradigo, claro, ao afirmar que a cidade é amorfa e logo em seguida falar de seus habitantes como tipos bem definidos – falamos pouco da nossa cidade. Gosta-se mais de Paris, Nova Iorque, Buenos Aires. Também gosta-se do Guarujá ou da Riviera de São Lourenço, variando conforme a renda mensal. Quando falamos de São Paulo, somos quase provincianos: falamos de nosso bairro. Da esquina de nossa casa, dos bares por ali, da videolocadora. Mas, pudera, em uma cidade desse tamanho ir para certos lugares não difere muito, ao menos espacialmente, de viajar.


Tudo isso nos faz inautênticos. Parece que há, agarrado às pedras, ruas, asfalto das cidades uma espécie de caldo poético que define do que e como podemos falar. Ninguém duvidará do grau de angústia de Raskólnikov, em meio as troikas, samovares e rublos da Rússia dostoievskiana. A tristeza parece escorrer-se pelas ruas de Lisboa na poesia de Álvaro de Campos, embalada pela guitarra portuguesa. Mas seria possível imaginar Bruno, na Avenida Paulista, questionando a existência de Deus e sondando a falta de sentido de todas as cousas? Parece que não. Parece que Bruno, Av. Paulista, comporte apenas uma existência que é um misto de referências em cacos trazidas de outros portos. Uma construção de si que é a coleção de memórias alheias, que em nada lhe pertencem. Ainda assim, São Paulo parece ser uma cidade meditativa (existem as meditativas e não-meditativas, segundo o Homem do Subsolo). Seria isso apenas uma prova cabal de nossa “síndrome de vira lata”? Parece que não, parece que não temos mesmo do que falar – que seja nosso, é claro, porque se fala em francês, inglês, russo em cada canto de nossa efervescência cultural.


Em São Paulo, somos todos atores: do all star vermelho com jeans apertado na rua augusta ao capuz que esconde a cara do “mano”. Só que isso não revela nenhuma verdade universal sobre o homem. Não revela que a inautenticidade é o cerne da vida nas cidades, ou mesmo da vida em sua potencialidade. Revela, apenas, que São Paulo – cidade das mil máscaras – possui um rosto por detrás de todas suas máscaras: outra máscara. (D)escrever São Paulo parece impossível: cidade sem centro gravitacional, palco da translação louca de signos vazios a que não se sucede ordem. Cidade dos acidentes, não da substância.


Sinto que a acabei de (tentar) fazê-lo. Toda escrita, claro, tem um quinhão de paradoxo.

7 comentários:

  1. Isso é culpa dessa vontade de "falar verdade(s)"...

    O resultado são esses realismos rubenfonsequianos, ou as citações sem noção de símbolos/cartões postais que só existem pra mostrar onde que a história tá rolando.

    O cenário é conseqüencia, não motivo.

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  2. Discordo: até onde o cenário é reduzido (Beckett, Dogville etc.) me parece um elemento tão fundamental quanto qualquer outro (dos elementos fundamentais, é claro).

    Pode ser consequência de um 'cerne' da obra (não do personagens) mas acho que tem que ser tudo muito bem articulado. Não precisa ser 'realista', desde que seja verossímil internamente; aí entra a questão da autenticidade.

    E obrigado pela crítica. :)

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  3. São Paulo, pra mim, faz muito mais sentido - é muito mais "autêntica", no seu jargão essencialista - que a Paris contemporânea. Já esteve por lá? Farsa das farsas, desconforto turístico.

    Temos a vantagem de não sermos uma cidade turística. As pessoas vivem aqui, ainda que viver seja comutar, transportar, translar, traduzir. Operações do movimento.

    Apelar para o "não-lugar" é fácil, mas é mentira. A auto-estrada de Cortázar (voltei a Paris e à Argentina, simultaneamente) mostra que qualquer acidente traz de volta o espaço e os humanos que o co-habitam.

    O afeto sempre é provinciano. A "vídeo-locadora" só é insuficiente diante de arroubos universalistas: essa necessidade de existir UMA São Paulo.

    Pedaços e movimento. Há algo.

    Já filmei um pouco em diversos lugares de São Paulo (abertos e fechados), e é uma forma de me apropriar das esquinas, dos cruzamentos, das marquises, das instituições. Há coerência (filmar em São Paulo é muito diferente de filmar em Recife ou em Córrego Fundo).

    Existimos (somos).

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  4. Aliás, pensar no cinema talvez ajude a pensar como penso as cidades:

    quando você aponta a câmera para qualquer direção, a cidade está aí. É preciso fugir (fingir) da cidade para sufocá-la.

    Ou, pior: quando se quer mostrar uma cidade trazemos à tona todo o cartão-postalzismo delas. Isso porque tornar a cidade um personagem é ir contra a natureza das próprias cidades.

    Contexto, não texto.

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  5. Não fui à Paris, mas imagino o que seja, mais ou menos. Só fica a pergunta: algum dia foi realmente diferente? Mas, independentemente disso, ainda parece - justamente por esse rosto imaginário/turístico, talvez - que lá certas coisas são permitidas.

    Outros pontos, parece que cabe repensar mesmo.

    Mas também acho que vocês não estão atentando a uma coisinha do (meu) texto: a parte paradoxal. Porque, querendo ou não, a desculpa da cidade sem forma foi justamente o que criou uma descrição da cidade. Se é verdade ou não, aí é outra coisa. É uma visão.

    obs: engraçado vc falar da autoestrada. Eu sempre pensava nesse conto como uma interrupção súbita da velocidade contemporânea etc. etc. que restituiria a convivência humana mais 'essencial', mas nunca tinha pensado no espaço físico.

    Mas eu vou tentando (escrever). :P

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  6. Ah, sim, eu apontaria a parte paradoxal se você já não tivesse a apontado (um pouco desnecessariamente, a meuver) no último parágrafo.

    Esforço intelectual mastigado nessa oposição explícita do "impossível descrever mas olha só eu a descrevendo aqui".

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